domingo, 18 de novembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA



A CRIATURA

            Aarão e Abraão, estudantes da Universidade Sideral de Virtuália (USV), estavam na mata perto da Serra Madre á procura da rara e maior borboleta do mundo, ou seja, a Queem Alexandra Birdiwing que, diziam, ter sido avistada borboleteando por aquela área.
        - Abraão, nós estamos perdendo tempo, aqui não tem esse inseto Lepidóptero; o mais raro que encontramos foi a oitenta e oito e não é tão raro assim de vê-lo por aí – falou Aarão.
    - Já são catorze horas, vamos procurar por mais quinze minutos, se não encontrarmos... – Abraão ficou estático e sem fala.
       - O que foi cara, o que vistes; foi uma Queem – perguntou Aarão.
       - O... Oooolheee no chão o tamanho dessas pegadas!
       - Ca... caracóóóóis, parecem as pegadas de um sasquatch, ou melhor dizendo, de um bigfoot, melhor ainda, de um pé grande; só pode ser – falou Aarão.
      - Vamos marcar este lugar no nosso GPS e voltar aqui depois com o professor Oscarzinho (*)  sugeriu o Aabrão.
     A notícia se espalhou e toda a Virtuália se orgulhava de ter esse novo mistério que existe, também, semelhante em várias partes do mundo e, a manchete da Folha de Virtuália estampava:
   “PÉ GRANDE VIVE NA SERRA MADRE, NA MINA DO MORRO VELHO!”
         Na delegacia de Virtuália:
       - Não vou perder tempo com pegadas, preciso de coisas mais concretas, aliás, nem crime ocorreu – falava Carabina Doze, o delegado, à imprensa.
         Paulinho Goró, que estava por perto, se intrometeu:
    - E os javaporcos da minha amiga Xerequéia, que estão desaparecendo há meses sem deixarem pistas?
      - Isso não quer dizer nada, eles podem ter fugido para o mato. O cercado que a Xerequéia fez, e você ajudou, é muito frágil. Eu já fui lá registrar a ocorrência e constatei isso – rebateu o Carabina e continuou:
     - Vou fazer o seguinte: amanhã cedinho vou lá onde encontraram as pegadas; vou com o cabo Valério e o soldado Márcio e... – Goró novamente se intrometeu:
   - Eu tenho coragem de ir junto e vou levar a minha antiga máquina fotográfica. Se eu não pegar “ele” à unha eu, pelo menos, tiro um retrato dele!
    - Está bom,  mister coragem, amanhã às sete horas vamos lá com minha guarnição – falou o delegado.
       Na manhã seguinte as sete e trinta a comitiva deixara a caminhonete, da delegacia, estacionada embaixo de um ipê amarelo e seguiram à pé mato adentro, até que:
         - Olhe delegado, que bicho é aquele lá perto da margem do Ribeirão Limpo – perguntou Goró apontando em direção ao curso de água.
      - Por todos os pés grandes é ele, só pode ser; é grande e coberto de pelos escuros – espantado gritou o delegado e, prosseguiu:
       - Olhem, ele leva dois javaporcos debaixo dos braços. Tire, antes de qualquer coisa, uma foto dele Goró, rápido!
       - Eu não trouxe a máquina, Carabina, não existem mais filmes para ela. O pessoal só está usando máquina digital – rebateu o Goró.
        - Não vai dar para encarar essa criatura. Acho que ela tem quase três metros de altura. Márcio e Valério, atenção!  Vou apontar a minha carabina nas perns dela e se ela não cair vocês descarreguem seus "trinta e oito" nela, ok? – os praças não responderam, pois estavam petrificados de medo e Goró falou;
        - Esse aí não tem como pegar à unha. Se eu fosse você mirava no meio dela, delegado!
        Foi o que Carabina fez: apontou, mirou e detonou. A criatura não emitiu nenhum som, apenas começou a pegar fogo instantaneamente ao ser atingida.
      - Que diabo é isso, Delegado, o bicho se incendiou com o impacto do tiro – gritou o Goró.
       Os javaporcos incendiaram-se junto com a criatura e o cheiro, da fumaça produzida, era insuportável.
       - Não vamos chegar perto ainda; deixa queimar até o fim. Pelo menos vamos ter o esqueleto dela como prova – sabiamente decidiu o Carabina.
       Mais ou menos vinte minutos depois já não saía mais fumaça de onde caíra o pé grande e Goró foi o primeiro a se aproximar e gritou:
  - Delegado, aqui não tem nenhum esqueleto, aliás, nem cinza, só mato chamuscado!
      - Não estou entendendo mais nada, mas duas coisas são certas: a criatura não existe mais e vão parar o sumiço de javaporco da Xerequéia – disse o Carabina.
     - Tens razão doutor – disse o Cabo Valério – o caso está solucionado!
    - Acho bom a gente esquecer o acontecido; ninguém vai acreditar na gente e seremos motivo para piadas – sugeriu o Carabina.
   - Está certo delegado, tens razão; se pelo menos eu tivesse uma máquina fotográfica digital... - Goró foi asperamente interrompido:
     - Pois é senhor Paulo de Paulli, eu tenho uma do último modelo, mas confiei em que você traria e não trouxestes a tua!
     - O que é, é; o que tem que ser, será! – disse o soldado Márcio.
    - Vamos voltar para Virtuália e esquecer o que vimos, mas antes vamos apagar quaisquer vestígios, inclusive as pegadas anteriores – ordenou o delegado.

(*) Vide “ OSCARZINHO, O PROFESSOR “ de 02/07/2012



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


Planos Frustrados


O Restô era o único restaurante de comidas típicas gaúcha de Realópolis, cidadezinha principal do Vale Virtualiano do Rio do Peixe a 80 quilômetros de Virtuália. A freguesia era quase sempre a mesma, salvo alguns viajantes que por ali passavam. Além deste restaurante havia, ainda, a dona Maria que servia pratos feitos no alpendre de sua casa de madeira. A casa era toda rodeada pelo alpendre – estilo varandão -, que era coberto por telhas coloniais. A comida, feita de Dona Maria, era simples, o trivial das mesas das famílias brasileiras, porém, era preparada por um tempero digno dos deuses da culinária:
         - É segredo desde o tempo da minha bisavó, uma escrava lindíssima que virou patroa – dizia ela sorridente.
         Realópolis era pequeno e como município desse porte o fuxico corre solto. Há alguns dias começou a circular notícia de que no subsolo de lá existia uma imensa jazida de minério rico em ferro e manganês; ninguém até hoje sabe de onde partiu tal notícia. Numa bela manhã de setembro, no auge da boataria, parou em frente do tal restaurante, quatro automóveis lotados de homens uniformizados de bege dizendo serem de uma grande mineradora.  Estalaram-se na pousada da Florinda e fariam as refeições no restaurante exceto o café da manhã, que seria na pousada. Delfino Screw, dono do Restô, ficou radiante e, a partir daquele dia, só atendia os cariocas da mineradora:
         - Vou aproveitar para faturar bastante “pilas”, tchê. O pessoalzinho da cidade que vai comer em outra freguesia - dizia debochadamente, em seu sotaque gaúcho de Cachorreira do Sul -Capital Nacional do Arroz Doce Sem Canela.
         Delfino fez uma compra grandíssima para vários meses e abarrotou o estoque do estabelecimento; adquiriu várias iguarias caríssimas que mandou vir de vários fornecedores da capital. Os moradores, que quase sempre lá frequentavam, ficavam revoltados com o tratamento de Delfino. Todo o restaurante passou a ser privativo dos vinte cariocas da dita mineradora. Por outro lado, o Alpendre da Dona Maria, como passou a ser conhecido, conseguiu, a título de empréstimo, com o revendedor de refrigerantes e outras bebidas, uma dúzia a mais de mesas e quarenta e oito cadeiras que ocuparam três partes da grande varanda. Suas duas netas passaram a estudar à noite o penúltimo ano do ensino médio; queriam ajudar a avó no negócio do famoso prato feito da Dona Maria.
         Um mês e quinze dias se passaram e os cobradores não saíam da porta Restô. A prancheta em que ele prendia as contas a pagar virou duas: - uma para as contas e outra para os protestos que “pipocavam” todos os dias. Os empregados da mineradora diziam ao Gaúcho, como chamavam carinhosamente o Delfino, que o responsável pelo pagamento chegará na sexta-feira e acertaria tudo, isto é, dali a dois dias.
         Naquela quinta-feira os cariocas não apareceram para almoçar. Dona Florinda da pensão estava no Restô esperando os cariocas para cobrar-lhes os quarenta e cinco dias devidos. Seu Delfino, com os cotovelos no balcão, apoiando o queixo com as mãos, assistia ao telejornal das treze horas junto com a mulher e os dois filhos. A notícia manchete do telejornal era que em Virtuália, uma quadrilha do Rio de Janeiro tentou assaltar o maior banco da região e tinha sido surpreendida pelo delegado Carabina Doze e seus policiais que já sabiam dos planos dos facínoras. Cinco fugiram e tinham mais vinte homens, da lei e voluntários, em seus calcanhares; onze foram feridos gravemente e quatro estavam algemados e a câmara da TV mostrava seus rostos em “close up”.
         Delfino Júnior, - o Juninho, que prestava atenção no telejornal gritou, apontando para o aparelho de televisão:
         - Olha papai... são os cariocas da mineradora!

sábado, 10 de novembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


$orte Num Maço de Cigarro$

                - IHHH! Paulo, lá vem a “mala” do Tio Tião!
         - Vou nessa, Pedro... se ele começar a conversar conosco vai querer nos convencer que esta semana ele vai acertar o acumulado da sorte grande na loteria,... até mais!
         -Pô! Se pelo menos ele ficasse quieto na casa dele lendo suas revistas de UFO e ETs!
         - É mesmo, Paulo, depois que ele perdeu uma perna e se aposentou, fica “batendo” muletas por toda a cidade... Eh!Eh!Eh!
         - Credo primo, com isto a gente não brinca! Fui! Tchau!
         - Tchau!
           Desapareceram como por encanto, cada um para um lado oposto ao do que Tião vinha, num cruzamento.
           Tião, com seus quarenta e dois anos, perdeu uma perna em acidente de trabalho. A mulher, com quem estivera casado por vinte anos, não lhe dera filhos e o abandonou, a dois anos, de papel passado, - em cartório:
          - Nossos dois salários mínimos, com todos os seus descontos, não dava nem para comer direito, pois ele gastava o dele todo tentando ganhar a sorte grande! - sempre reclamava Géssica na esbelteza de seus trinta e seis anos; e ela tinha razão.
          Tião era evitado por todos da família, pois vivia pedindo dois reais para “cercar” a sorte grande. Ele acreditava que iria ganhar a “bolada” da loteria que estava acumulada em quase cinqüenta milhões. Foi o Juliano Shit Scheiβe, “encorporado” na entidade de Cabloclo Vendaval , quem disse a ele, que antes dos quarenta e três anos ficaria riquíssimo, por isso tinha tanta fé. O engraçado, da história, é que no dia seguinte a essa previsão o Sebastião ficou aleijado. Pura distração sonhando acordado.
          - Puxa vida, hoje é quarta-feira e eu preciso de dez reais para fazer meus jogos. Num final de mês ninguém tem dinheiro, imagina eu? E pensar que amanhã faço quarenta e três anos e nada de eu... peraí! Que é aquilo dentro daquele maço de cigarros vazio e amassado? - Tião encostou as muletas num muro e pegou o que vira no chão.
          -Ah! Meu São Nunca do Vale do Rio do Peixe, são dez reais! Alguém deve ter guardado o dinheiro no maço de cigarros e, quando fumou o último, amassou e jogou o maço fora.
         Meteu as muletas debaixo dos sovacos e rumou para a tradicional Lotérica Número da Sorte de Vituália. Chegando  lá,  todas as portas já estavam fechadas, menos uma que estava pela metade, mas Rosinha, muito prestativa com Tião, o atendeu.
          Aliviado foi para casa e faltando quarenta e três minutos para as vinte e uma horas viu pela televisão o grande sorteio. Não deu outra. Antes de completar quarenta e três anos ele era dono de quarenta e três milhões de reais.
          Houve a brusca mudança.
Tião tinha anotações de todos que lhe emprestavam ou davam-lhe uns trocados, até cinqüenta centavos estavam anotados num caderninho. Não eram muitos, mas a todos ele enviou um envelope lacrado com dez notas de cem reais e, a cada empréstimo, ele multiplicava essa quantia.
          O tratamento com o Sr. Sebastião mudou do fel para o mel. Os parentes viviam tentando se aproximar dele, mas agora ele é quem os evitava. Quando ele era encurralado, por algum parente e não tinha como se esquivar, tirava do bolso do terno de grife um envelope lacrado e dava ao tal parente e este nunca mais o importunava.
          Tião vivia feliz com a prótese de última geração, de perna direita, importada da Alemanha, abandonou as muletas e, estava de viagem marcada para percorrer o mundo. Sua companhia? - Rosinha, a mocinha da lotérica com quem sempre dividia seus problemas e o tratava muito bem.

Sabem o que tinha nos envelopes que Tião dava aos parentes?
- Um volante de loteria e um bilhete com os dizeres: - Preencha, arrume dois reais e boa sorte!

VIDA EM VIRTUÁLIA


“Quem acredita nos sonhos não espera dormindo! “ - Lefus

             Há sete anos, verão de 2005.
         Paulinho Goró foi alcoólatra durante vinte anos dos seus trinta e oito vividos. Perdeu tudo que herdara, como único dono, da fortuna da sua falecida avó paterna. O álcool achou que o tinha derrotado, mas Goró deu a volta por cima. Já tem sete anos que está sóbrio, por livre e espontânea vontade. Como tem pouco estudo, menos cultura ainda, nunca precisou trabalhar e, não ter profissão, se determinou:
         - Vou ser o dono do maior restaurante especialista em galeto assado da cidade e, também caldos e ensopados! Ah! Se vou, vou sim!- tinha esses delírios quando estava faminto e não tinha nada para comer.
         - Mas como? Se me tornei um paupérrimo e sobrevivo de catar materiais recicláveis? – pensava Goró numa sexta-feira de lua cheia, exuberante, à meia noite, perto onde o Ribeirão Limpo deságua no Rio do Peixe. Ali ele nunca tinha passado antes. Parou de abrupto ao ouvir um batuque e um canto esquisito. Era Juliano, pai de santo, delegado de Oriximbanda – que retornara à Virtuália após a morte do agiota Black Hulk (*) - com uma senhora, aparentemente, rica e não era de Virtuália, pois nunca a vira antes.
         Ficou escondido até terminar o ritual. Meia hora depois que o Ju e a dona, no carrão importado, foram-se embora e, quando voltou o silêncio, ele saiu detrás da moita alta e foi até ao local do despacho e viu:
         - Caramba, o que temos aqui: - dois frangos assados, três garrafas de champanhe francês, três garrafas de vinho chileno, uma caixa com lantejoulas, plumas, paetês e purpurinas... mais... bacalhau, carne seca, um fardo de refrigerantes e... e... cinco notas de cem reais amarradas uma na outra!
         Como estava com seu carrinho de catar sucatas, não pensou duas vezes e o encheu com tudo e saiu dali rapidinho, não se esquecendo de ir apagando as marcas da roda do carrinho. Numa certa distância notou que alguém se aproximava numa Variant azul cobalto de portas rosa e se escondeu no mato para ver o que aconteceria.
         - Pô!  Não é possível! O Babacaaxé e o Boborixá não podem ter levado tudo, eles não existem! Como pode ter sumido tudo em menos de meia hora? – era o Juliano que voltou para levar para si as oferendas:
         - Cacete, fora os R$500,00, tinha mais de dois mil em mercadorias e sem falar na caixa com materiais para a minha fantasia que aquela rica otária comprou! Cacete...cacete...cacete - e foi embora praguejando.
         Paulinho, em poucos minutos, chegou ao seu barraco, perto da sanga no fim da Rua Lúcifer:
         - Ahhhhh! Frango assado, farofa e refrigerante, que banquete! – comeu até se empanturrar e foi dormir.
         No dia seguinte, Goró, foi até ao vistoso e ornamentado templo da Igreja Sideral Eva-Angelica de Virtuália e, como sabia que o pastor Jairo Edson, comprava muamba, vendeu todas as bebidas para ele. A caixa com os materiais para fantasia vendeu para o rival carnavalesco do Juliano e, vendeu caro, pois era produto vindo do Rio de Janeiro.
         Juliano passou a mudar os locais dos despachos que fazia todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Mas, Goró, estava atento e esperto.
         Sem querer o Boborixá e o  Babacaaxé ajudavam um ser humano: - Paulinho Goró. E, este ser humano, ajudava a manter limpas as margens do Rio do Peixe, recolhendo as oferendas que sujavam o meio ambiente.
         Hoje, graças à “ajuda” do pastor Jairo Edson e do idiota do Juliano, que passou a acreditar que as suas entidades o estavam atendendo, por conta das oferendas cada vez mais caras, Goró nunca mais passou fome. Coincidência ou não, Juliano, passou a atender em dobro suas consultas, pois eram muitos os amores que voltavam aos antigos donos, gente que se livrava de encosto, má sorte e até gente que sumia por conta das entidades.
         Nos dias de hoje, Goró já completou um ano que vende churrasquinhos especiais no carrinho que comprou da mãe do desaparecido Cilon, o Massa Bruta (**). Não mora mais perto da sanga, mora nos fundos do quintal do Juliano, num quarto e sala alugado e mobiliado na Rua Aparício Ribeiro esquina com a Rua Índio Largado.
         Alguém duvida do sonho do Goró?

 (*)   Leia “Pavão Misterioso”
(**)  Leia “Negócio da China” 

         

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


QUASE UM QUILO DE OSSOS

- Seu Cardin, eu quero três dinheiros de ossos; por favor, separe alguns pedaços com tutano, tá bão? – falou Lezivo – Lelê para os mais “chegados”-, mendigo amigo de Biliato, outro da mesma opção de vida.
         - Aguarde aí, meu, vou atender essa princesa que adentra no meu açougue. 
-Vai querer o que Maríndia; como vai a tua patroa, a Dona Lurdes – perguntou o dono do estabelecimento.
         - Ela vai bem! Quero um quilo de contrafilé sem gordura; a Filó não pode carne gorda. Ela é uma cadela de raça e sou só eu quem a leva para passear na praça e, principalmente, sou responsável pelas suas refeições! Hoje é o dia em que ela não come ração, só comerá carne bovina magra; tem que ser de primeira - Cardin pesou um quilo, cento e vinte gramas, embrulhou num papel grosso e disse-lhe:
         - Aqui está morena; bem pesado e só paga por um quilo - Maríndia pagou, saiu e desamarrou a Filó do poste em que a deixou esperando. Filó é uma pastor-alemão de dar medo e com conceituado pedigree. A moça deixou o pacote junto com sua sacola sobre um banco da praça e foi correr junto com a cachorra. Cardin acompanhava tudo com seu olhar malicioso de cobiça até que:
         - Pô, cara, e os meus ossos? – impaciente gritou Lezivo.
         - Já ‘tô pesando, Lelê! Cadê o Biliato?
         - Ele tá lá na beira da sanga preparando um rango e só falta eu levar os ossos – respondeu Lezivo e continuou:
         - Capricha no peso; quero três dinheiros que dá quase um quilo!
         - Deram, exatamente, setecentos e cinquenta e três gramas e bem “pesado”; passa a grana!
         - Toma – Lezivo jogou os três dinheiros sobre o balcão e falou:
         - Pô, cara, esses ossos você vende quase de graça prô Gazú do ferro-velho e tá regulando prá nós, os miseráveis?
         - Pare de choradeira Lelê, se não quer não leva!
         Lezivo pegou o pacote e saiu resmungando e, ao passar pela praça, viu o pacote da Filó em cima do banco da praça e pensou:
         - Desaforo, eu e o Bili chupando osso e essa vira-lata de luxo comendo carne de primeira? – não pensou duas vezes – aproveitou a ocasião - e trocou os pacotes acelerando os passos para o “acampamento”, perto da sanga, para estar junto ao amigo de mendicância.
         - Onde ocê conseguiu essa carne, Lelê? Isto é carne de gente rica – falou Biliato.
         - Eu consegui mais uns trocados e interei com o que você me deu; o Cardin, que é meu amigo, deu essa forcinha cooperando com a gente! – mentiu Lezivo.
         O velho e grande caldeirão de ferro estava no fogo, arranjado, entre duas pilhas de tijolos. Dentro dele tinha: cenoura, batata inglesa, mandioca, cebola, batata doce – tudo conseguido na varredura da feira livre – e, agora, pedaços generosos de carne de primeira; sem falar no tempero especial do Biliato.
         Enquanto isso na praça:
         - Filó, cadê você, Filóóóóóóóóóó! – gritava Maríndia.
         - Ô morena, olhe ela lá perto do banco onde está a sua sacola e está “almoçando” sem te convidar ah!ah!ah!ah! – brincou Cardin que observava tudo da porta do seu açougue.
         De repente a cadela começou a se contorcer e a ganir esquisito, Miríndia e Cardin correram até ela:
         - Mas quem é que deu esses ossos para ela? Eu comprei carne de primeira e você me enganou e embrulhou esses ossos no lugar? Veja o que aconteceu, ela quebrou um dente! – desesperada gritava a empregada da ranzinza dona Lurdes.
         - Peraí, peraí... peraêêêê, eu vendi e te entreguei foi o contrafilé e...  já sei... já sei, já sei... foi Lelê quem trocou os ossos, que eu vendi prá ele, pela carne da Filó!
         - Vou levar a Filó no veterinário e depois vou fazer um BO lá na delegacia e, da mesa do Carabina, eu telefono para a minha patroa – falou a Maríndia e prosseguiu:
         - Você é testemunha de tudo, Cardin!
          - Tá bom, morena e vai rápido que a polícia pode pegar os dois pedintes com a boca na botija, digo, na carne de primeira!
         Meia hora depois na beira da sanga:
         - Quer mais Lelê, ainda tem muito; cozinhamos para seis pessoas – disse Bili.
         - Não, eu tô “sastifeito”, amigo, vamos guardar para o jantar!
         Nisto:
         - Parem onde estão, vocês estão presos! – gritou o cabo Azalim acompanhado dos soldados Márcio e Valério.
         - O que nós fizemos tenente, nós não... – Lezivo foi interrompido:
         - Isso é desacato, não sou tenente, sou cabo! Vamos os dois para o camburão e levem esse caldeirão com a comida, ele é a prova do crime!
         Na delegacia os esperavam: Carabina, dona Lurdes, Maríndia e a medicada e esperta Filó. E o delegado começou o interrogatório:
         - Biliato, eu te conheço há muito tempo e sei que não és dado a meter as mãos nas coisas alheias, portanto, explique-se:
         - Deixa que eu falo, Bili – interrompeu Lezivo – fui eu quem trocou nossos ossos pela carne de primeira da cachorra; só eu tenho culpa – terminou por se delatar e deu, em seguida, um saudável arroto.
         - Você está detido, Lelê, ficará um dia prestando serviço de limpeza aqui na delegacia e você Bili, está liberado, pode ir embora – delegou Carabina.
         - Não delegado eu, indiretamente, fiz parte desse erro, pois utilizei a carne no ensopado e fico com meu amigo ajudando-o na limpeza – respondeu Bili.
         - Tá bom, pode ficar, mas quero capricho no serviço!
         - E quanto às senhoras eu... – o delegado foi interrompido:
         - Já que o dente da Filó, que quebrou, aliás, não quebrou, caiu, pois era de leite e não causou nenhuma lesão, estou satisfeita – falou a dona da cachorra – vamos embora Maríndia, vem Filô!
        
         Dezenove horas do mesmo dia:
         - Doutor Carabina, podemos esquentar nosso ensopado no fogareiro da delegacia? Com isso o Estado economiza com a janta!
         - Pode Lelê, mas depois limpe a lambança!
         Assim foi feito e, o cheiro apetitoso do cosido, invadiu a delegacia e todos compartilharam a iguaria, até o Carabina, que disse:
         - Está uma delícia este ensopado... huum... talvez se tivesse os ossos no lugar da carne seria mais saboroso!
         Todos caíram em gostosas gargalhadas e o delegado continuou:
         - Hoje vocês dois dormem na cela número um, cujos colchões são novinhos assim como as roupas de cama e, amanhã, depois do café, vocês podem ir cuidar de suas vidas, mas antes de se deitarem, por favor:
         - Tome cada qual, um caprichado banho, ok!


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

COISAS DA VIDA



DELÍRIOS DA MELHOR” IDADE


Horácio, gaúcho, feio, desengonçado, suado, descabelado – nas laterais de sua  cabeça ainda lhe resta alguns fios grisalhos de cabelos –, casado - próximo  de sua bodas de crizopala,  entrou no ônibus coletivo abafado e lotado; findara mais um dia de labuta:
         - Com licença, com licença – “me” desculpa senhora foi sem querer! – com a pisada no pé a mulher fez careta, mas balançou a cabeça, afirmativamente,  aceitando  a desculpa.
Parou, em pé,  no meio do ônibus, segurou-se no suporte acima da cabeça e ali ficou. Na medida em que o coletivo rumava para o destino – do centro aos bairros - iam descendo passageiros, mais que subiam, e foi abrindo espaço no corredor.
         De repente uma jovem, muito jeitosa, nos seus vinte e quatro anos fitou-lhe o rosto, demoradamente, que Horácio ficou sem jeito e pensou:
         - A la pucha! Que guria bonita, tchê! Que será que essa chinoca  viu em mim? – mudou de posição e olhava aquela formosura   de revesgueio.
         Alguns minutos depois a moça demorou seu olhar no sessentão Horácio e, desta vez, o olhou de cima a baixo e esboçou um largo sorriso.
         - Bah! Será que, depois de tanto tempo, vai chover na horta do Horá? – faceiro, imaginou isso e, por coincidência, a pessoa que estava sentada com a garota deu sinal para descer e ele pensou:
         - Eh!Eh!Eh! Todo o universo está a favor deste taura adormecido – pensou isso, tirou o lenço do bolso traseiro da calça bege de brim e limpou o suor do rosto. Tão logo a passageira, que dera o sinal levantou-se ele, no afã de sentar-se ao lado do broto, deixou cair a penca de chaves – catorze chaves ao todo. A menina pegou as chaves entregou-lhe e, se ajeitou na poltrona do ônibus, sorrindo lhe disse:
         - Nossa Horácio você... – ela foi, abruptamente,  interrompida:
         - Oigalê! Como tu sabes o meu nome?
- É que o senhor se esqueceu de tirar o crachá do pescoço, seu nome está nele e bem “grandão”. É impressionante como o  senhor  é a cara do meu avô paterno! Até o jeito de enxugar o rosto com o lenço branco manchado de marrom do rapé, o molho de chaves que ele sempre carrega e o crachá que, até hoje, ele guarda como lembrança de ferroviário da RFFSA; sem falarmos na braguilha aberta!
- Ah! Tá, com licença que vou apear no próximo ponto – apertou a campainha, foi para perto da porta de saída do coletivo, pensando raivosamente:
- Faltam cinco paradas  de ônibus antes de eu chegar a minha casa, mas depois dessa eu mereço andar; andar não, vou troteando. Essa pinguancha me tirou do sério! 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


  • ETevaldo volta para casa 

    ... CONTINUAÇÃO DA  Primeira parte: A mãe do ouro
Parte Final: A bola de fogo

Cinco dias se passaram depois desta última visita ao Nhô.
Por volta das quinze horas, no alpendre de sua casa, no terreno do CMV (Cemitério Municipal de Virtuália), Juliano fazia sua sesta:
         - Mamy... Papy, Etavaldo tá com fome, Mamy! – falava e balançava a rede de dormir do Juliano.
         - Ahhhhhhhhh! Beijoooooooo, socorro!  - era o Juliano levando o maior susto de sua vida.
         - O que foi Juju eu ... nooosssa quem é você? De onde você saiu? – perguntou o apavorado Beijo.
         - Eu sou Etevaldo! Etevaldo voltou prá casa! – respondeu.
         - Mas você está sem nenhum pêlo, nenhum cabelo e essas marcas no seu corpo... nossa como você cresceu - balbuciava Hibisco cujo apelido é Beijo.
         - Que roupa é essa? Parece que você foi cobaia de laboratório de filme americano? Olha só, Beijo, essas etiquetas estão todas em inglês!
         - É mesmo Juju, só dá para entender o número cinquenta e um, e esse “Top Secret” eu sei o que quer dizer! Onde será que essa criatura esteve?
         - Vamos levá-lo lá no Nhô Antônio, ele entende de todos os tipos de animais, ele vai ter uma raiz que cura isto. Deve de ser uma doença que ele conhece. Vamos lá agora! – disse Juju.
         - Vamos sim, e aproveitaremos esta ida para trazermos um dos cachorrinhos - poodle-toy - da ninhada que nasceu no sítio do Nhô.
         Em meia hora a Variant azul-cobalto, das portas cor de rosa, parou em frente ao refúgio do Nhô Antônio:
         - Nhô, Nhôôôôôôô, podemos entrar? - berrava Juliano.
         - Aprochegue, misifios, tô aqui na horta! – gritou o dono da casa.
         - Bom dia Nhô, o senhor está bem?
         - Istô ótimu, seu Julianu, u qui ôceis qué dessi nêgu véi?
         - Nosso pimpolho está de volta e parece-nos doente, o senhor pode dar uma olhada nele?
         - Mais é craru, quédi iele?
         - Tá escondido dentro do carro - disse Beijo.
         - Intão vão buscá u bichim prêu botá meus zóios niele, sô.
         - Deixa que eu busco Juju. - falou Beijo.
          Ao se aproximar do Nhô que estava de cócoras replantando uns pés de alface, Beijo disse:
         - Êi-lo, Nhô! Aqui está o Etevaldo!
O ancião virou-se e, mesmo se espantando, sorriu dizendo:
         - Mais zóia só u qui veju, eh!eh!eh!eh! Ôce é iguá quenem u meu amigu Kowauski, eh!eh!eh!eh!
         - Quem é esse Ko...Kowauski, Nhô? – perguntou Juju.
         - Iêle vai vim aqui já, vocês vão conhecê iele. Vamu intranu qui vô perpará um café com brôa prá nóis.·.
Depois de saborearem café com brôa, Nhô falou:
         - Óia, seu Julianu, êssi... êssi... essa criatura num tem nadica di nada, é a natureza déia sê ansim; iela só pegô muitchu sór na cacunda! Êssis vermeião vai saí quandu iele ficá discançanu na sombra. Essas marcas nus pursu , nus tornozelu i na testa... sei não... mais parece qui tava amarradu numa cama di hospitá! Eu achu ...   - nisto houve-se um barulho - um minutu, qui tá cheganu gente, ieu vô vê! – Nhô dirigiu-se à porta da sala, que estava aberta, e deparou com:
         - Boa tarde, Nhô! Vim buscar os cinco quilos de aveia; vim mais cedo e, na claridade do dia, porque hoje à noitinha vou partir e, desta vez, demorarei em voltar.
         - Bastardi Kowauski, vamu inté u varandão da cuzinha qui vô ti mostrá uma coisa. -  seguiram até lá e Nhô foi à dianteira e lá chegando:
         - Julianu i Beju, esti é u Kowauski!
         - Kowauski, Kowauski! – repetiu Etevaldo.
         - Boa tarde, senhores. Quem é essa criança, de onde ela veio? – perguntou Kowauski com voz firme e autoritária.
         - Esse é nosso filho, meu senhor, meu e do Beijo! - áspero falou o espantado Juliano.
         - Eh!Eh!Eh! Êssi é u fioti da chinezinha qui morreu nu partu dêie i essis mininus pegaru prá criá – antecipou o Nhô.
         O estranho retirou do cinturão do  macacão - que parecia confeccionado com um tipo de borracha - uma bola que começou a brilhar e ele pediu:
         - Olhem para esta esfera senhores! – ao falar isso um flash  se fez e...
         ...
         Já passava das vinte e duas horas, desse mesmo dia, e eu chamava por Nhô no portão e ninguém respondia e resolvi entrar.
         - O que é isso? Nhô, Juliano, Beijo, o que aconteceu com vocês? –os três estavam paralisados como que em transe e respiravam vagarosamente.
         De repente um zumbido agudo e persistente vinha de fora da casa. Saí para verificar o que era e vi uma enorme bola incandescente pairando às margens do Rio do Peixe. O brilho e o barulho agudo  aumentaram em muitos lumens e decibéis e a bola veio pairando até ficar encima da residência do Nhô, apagando e ascendendo o brilho, que parecia  código Morse – que eu conheço – e decifrei a palavra “adeus”.  Depois  ganhou velocidade e sumiu verticalmente rumo ao infinito em fração de segundo.
         - Seria a mãe do ouro? Seria uma nave extraterrestre? – pensei alto. Voltei à varanda da cozinha e os três estavam caídos no chão e aos poucos foram acordando.
         - O que houve aqui, Nhô? Porque vocês estavam em transe, Juliano, Beijo  vocês estão bem?
         - Nóis tamu bem seu Lê, mais ieu num sei u qui aconteceu aqui - falou o Nhô.
         - Nos vimos aqui buscar um filhote de poodle-toy que nasceu numa ninhada da cadelinha Lanna e, de repente, tudo ficou escuro e em silêncio. Não me lembro de nada. - disse Juliano.
         - Eu também não - acrescentou o Beijo.
         - De quem é esse macacãozinho caído ali no chão? Parece roupa de hospital militar - peguei nas mãos e exclamei:
         - De onde saiu esta roupa? Tem o número cinquenta e um, adesivo “Top Secret” e essas outras palavras em inglês devem ser código; será que é o que eu penso?
         - Eh!Eh!Eh! Tem coisa qui é mió num intendê, num é seu Lê?  Si é qui ôce mi intendi.
         - Claro que te entendo, Nhô e é melhor ficarmos  quietos!
         Juliano e Beijo pegaram o poodle-toy, o macacãozinho e voltaram para o CMV na Variant e eu fechei meus olhos e saí de Virtuália.
         - Lê, Lêêê, corre até aqui na varanda! - corri para ver o que afligia a Rô, minha patroa.
         - Olha – falava e apontava para o céu - aquela estrela cadente; já tem alguns minutos que cruza o céu.
         Ao firmar meus olhos naquele brilho ele diminuiu e aumentou a intensidade e depois sumiu na escuridão.
         - Não era estrela cadente, deve ser algum fenômeno que a gente ainda não conhece, Rô!