sábado, 13 de outubro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA



O Sumiço do ETevaldo

-  Como foi indeferido? – falava alto Enzo Tangará.
- Isto mesmo, meu senhor, seu pedido teve despacho denegatório; o Município não permite a entrada, em seus domínios, de circos que mantêm animais enjaulados ou participem dos shows! Sabemos que, por mais que neguem, esses animais são maltratados! – explicava Celino, o Secretário de Eventos de Virtuália.
- O valor da taxa que eu paguei, vai ser devolvido? -perguntou o mais velho dos irmãos Tangará.
- Não! A taxa foi para emissão de pedido de alvará; o alvará se tivesse sido deferido, teria um preço cem vezes maior! – falou secamente o Celino encerrando o assunto.
- Tudo bem, conseguirei na cidade de Realopoles; lá a realidade é outra e, além disso, fica a menos de uma hora daqui. As pessoas daqui irão ao meu circo de qualquer maneira. Passar bem senhor secretário!
Enzo acelerou o antigo Fiat 147, com seu trailer de reboque, para sair da cidade e, quando estava enfrente ao Cemitério Sideral de Virtuália, quase saindo do perímetro urbano, o carro parou de funcionar. Enzo, aproveitando o embalo, encostou o carro e já desceu com uma chave de fenda na mão praguejando:
- Só pode ter entrado um grão de poeira no giclê do carburador dessa lata velha!
E era isso mesmo. Tão logo baixou o capô e preparava para entrar no carro ouviu:
- Ih!Ih!Ih! O carro “véio” tava com o giclê entupido! Ih!Ih!Ih! – Enzo olhou para o alto do muro do cemitério e quase morreu de susto. Era um ser que ele nunca tinha visto antes, quem tinha falado.
- Não é assombração, pois isso não existe! Deve ser alguém muitíssimo feio! – Enzo pegou duas mangas maduras que ele tinha comprado na quitanda do Marconi, e estendeu à criatura. O ser pulou do muro para a rua e veio em direção dele dizendo:
- Dá manga prá ETevaldo, dá!
- Ah! Então você tem nome, não é?
- Entre aqui no carro “véio”, vamos passear! – Enzo rapidamente pegou uma corda e amarrou aquela aberração e, também, o amordaçou.
- Eh! Eh! Já tenho mais uma atração para o parque dos horrores de meu circo e já posso até ver o anúncio:
  “O ÚNICO CIRCO QUE TEM, NO SEU PARQUE DOS HORRORES, UM EXTRATERRESTE GENUÍNO”.
 - Vou faturar horrores! Amanhã já posso mandar todo o circo vir da capital para Realopoles. Enquanto isso essa joia rara vai ficar no meu trailer escondido.
   Dois dias depois na Delegacia de Virtuália:
  - Já procuramos por todo o Vale do Rio do Peixe e não encontramos o ETevaldo,  filho de vocês, e não conseguimos nenhuma pista. Juliano, você não tem nenhuma fotografia dele?
   - Claro que não Dr. Carabina, não tivemos coragem de tirar retrato dele!
  - O Senhor pode fazer um retrato falado dele, a gente pode descrevê-lo! Falou o Hibisco cujo apelido é Beijo.
   - ‘Tá ok! Zé Nanquim – gritou o Carabina – faça o retrato falado de quem estes dois vão descrever e traga aqui!
       Meia hora depois o retrato falado ficou pronto:
     - Caramba, o que é isto? Vocês estão de brincadeira, o que é isto?- falava bracejando o delegado.
      - É nossa criança de criação, Dr! Olhe aqui a certidão de nascimento e de adoção do mesmo! – Juliano falou e mostrou os documentos ao Dr.
    - Certidão de adoção? Ah! Tá certo, aqui em Virtuália tem isso! Pois bem, vamos distribuir este retrato por todo o Vale e daremos quaisquer notícias, ok?
       - Ok, Carabina, confiamos na Lei! – falou Juliano.
    E, quando ambos deixaram a delegacia, o delegado falou ao desenhista:
      - Só se eu fosse maluco distribuir um retrato falado desses por aí!
   Um mês se passou e todos em Virtuália e região só falava nas aberrações do parque dos horrores do Circo dos Hermanos Tangará e Juliano, juntamente com Beijo, resolveram ir até Realopoles para assistir ao espetáculo e visitar tal parque com as aberrações.
      Em Realopoles:
    - Olhe Beijo, meu amor, o cartaz do parque dos horrores! Não parece o nosso ETevaldo?
         - Parece mesmo, Juju! Vamos entrar logo e verificar!
         A surpresa foi grande e decepcionante. Não era o filho deles e sim um anão fantasiado de ET e Juju perguntou ao Enzo, dono do circo:
         - Esse cartaz com a imagem gigante desse ET não tem nada a ver com esse de mentira que vocês apresentam! Isso é propaganda enganosa! Como conseguiram aquela ilustração do cartaz?
         - Não te devo satisfações, meu caro! Se não gostou, paciência e peço que se retirem daqui senão chamo os seguranças! Não quero tumulto no meu circo!
      Quando Juju saiu, juntamente com o Beijo, o Enzo pensou:
      - Só se eu fosse maluco em falar que o pessoal do exército esteve aqui e levou o ETevaldo. O que aquele ser tem de feio tem de inteligente! E pensar que com cinco anos de idade ele pintou aquele autorretrato utilizando um espelho!  A esta hora ele já deve de estar na área 51, em Nevada, lá nos States. Esquisito é que ele estava perdendo todos os pelos e os cabelos... pô, agora é que ele estava ficando realmente feio fui obrigado a entregá-lo às autoridades secretas. Será que ele é realmente um ET?
     Juliano e Beijo, ao saírem do parque dos horrores, levaram com eles o cartaz com a imagem que parecia muito com o ETevaldo. Seria a única coisa que restou que lembrava seu pimpolho. Juliano propôs ao Beijo:
      - Vamos adotar um cachorrinho poodle - toy que, além de ser bonitinho, não nos vai dar tanto trabalho para mantê-lo, ok mon amour?
        - Tudo bem Juju e não precisaremos manter o cachorrinho escondido e sem falar que um poodle-toy come muito menos do que aquele... aquele... nosso filho!





sábado, 6 de outubro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


Romilda e Rudinei
O ônibus antigo e, antigamente, já o chamavam de Dinossauro, aguardava na rua detrás da rodoviária de Virtuália. Sairá dali, pegará a rodovia Virtual, passará pelo distrito de Wormhole depois, entrará na Estrada Real e seguirá para Pariscida do Norte. Todas as sextas-feiras é esse seu itinerário e, sempre sai lotado. Todos já estavam sentados. Faltavam dois viajantes. Uma senhorita, com a cabeça e parte do rosto coberto com os cabelos compridos e bem tratados, estava na improvisada plataforma aguardando o último passageiro para então entrar. Sendo a última, com certeza, sobraria apenas um último lugar e a pessoa que estaria sentada na poltrona ao lado não teria como repudiá-la (mesmo que sem demonstrá-lo). E lá vinha o Rudinei “toctocteando” o chão com sua bengala. Cego de nascença, andava o mais rápido que podia para não perder o ônibus. Romilda o viu e pensou:
         - Olha só, o penúltimo passageiro é deficiente visual; vou ajudá-lo a embarcar e... vou fazer melhor, vou levá-lo até a uma poltrona e sentar-me ao seu lado. Não enxergando meu rosto não vai sentir repulsa, como a maioria das pessoas que me olham! – Romilda tinha razão neste aspecto, pois nascera com um horrendo defeito em sua face. Tinha uma parte do rosto, até bonita demais, porém o lado esquerdo tinha uma deformação. Esta deformação foi seu martírio nos seus vinte e cinco anos de vida, mesmo tendo um corpo impecável em matéria de beleza estética.
         - Posso ajudá-lo, meu jovem! – falou a moça ao Rudinei, com sua linda voz e costumeira meiguice.
         - Oh! Sim, e te agradeceria muito se me levasse a uma poltrona vazia do ônibus!- falou-lhe entusiasmado o rapaz que apesar de deficiência visual tinha ótima aparência.
No final do ônibus, perto da toalete, tinha um par de poltronas juntas  desocupado e lá se sentaram. Após as apresentações foram conversando, por três horas, até chegarem ao destino. Lá chegando, já desceram do ônibus  de mãos dadas. Romilda era locutora da rádio Espacial FM de Virtuália e Rudinei era professor de música na Universidade Sideral, da mesma cidade. Então, assuntos não lhes faltaram.
         - Desculpa-me, Romilda,  mas apesar de achar tua voz lindíssima e meiga sinto profunda tristeza nela. Falaste-me que não tens ninguém na vida e... (Rudinei foi interrompido).
         - Rudinei, fui criada por minha avó, pois nem minha mãe quis saber de mim. Vivo num mundo de solidão e de muita tristeza!
         - Por favor, Romilda, posso tatear-lhe o  rosto?
Romilda gelou e de seus olhos começaram a verter lágrimas em abundância, pois sabia que ao tocar seu rosto deformado, também ele, sentiria repulsa e talvez acabasse ali uma amizade que começara tão naturalmente.
         Sem falar nada Romilda pegou as mãos do rapaz e as direcionou para seu rosto e olhando para o rosto lindo de Rudinei esperou a reação.
         Rudinei tateou ambos os lados do rosto da senhorita e passou-lhe os polegares sobre seus olhos fechados e falou:
- Por que estas chorando Romilda? Não estou entendendo?
Aquele gesto e a reação do rapaz fizeram com que Romilda chorasse ainda mais e aos soluços balbuciou:
         - Meu recalque é este defeito no lado esquerdo do rosto. Venho sofrendo preconceito e rejeição desde que me conheço como gente! Você não o sentiu ao tatear-me? Você sentiu apenas as minhas lágrimas, Rudinei?
         - No mundo de escuridão em que vivo existe também tristeza e solidão, mas sem a visão eu “enxergo” com o espírito e, para o espírito, não importa o invólucro a que ele está confinado e sim os sentimentos, Romilda!
Depois de falar isto aconteceu o primeiro beijo de ambos e dali por diante  tristeza e solidão saíram suas de vidas de mãos dadas.”
          

domingo, 30 de setembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


Raiva

Foi uma semana inteira de chuva constante. Teteca estava sem chão, no literal da palavra. O Ribeirão Limpo e o Rio do Peixe transbordaram e levou parte de seu barraco, suas quinquilharias, seus sonhos, sua pouca alegria, seu sono e aumentou, em muito, sua bagagem de melancolia, tristeza, insônia e principalmente a raiva com Deus e o mundo, enfim, vivia um pesadelo.
Professora aposentada há vinte e oito anos. Toda sua carreira como mestre, das antigas – ela só tinha estudado até a quarta série primária – foi na fazenda da tricentenária família Bispo Cardeal. É de se lastimar, mas na vida interia ela só conseguiu apenas aquela espelunca, perto da confluência do ribeirão com o rio e, um salário mínimo mensal.
 Naquele domingo de manhã ela saiu do albergue da prefeitura de Virtuália, onde estava alojada, e foi ver a situação do seu casebre, - longe duas léguas do centro da cidade. O dia estava límpido como só a bonança sabe deixá-lo, ficando o sol, mais brilhante naquele dia de final de verão. Sentou-se num elevado de terra, perto do que restou do paupérrimo patrimônio, iniciando uma ladainha de praguejamento maldizendo o mundo. Por fim, apoiou os cotovelos nos joelhos e concheou as mãos nos ouvidos para não ouvir a alegria de viver dos pássaros, através de seus cantos.
Chorou... chorou!...de tristeza, de raiva e pela sua malfadada sorte, supostamente destinada, segundo ela, pelo Criador.
         Respirou fundo, tentando se acalmar, e percebeu um pássaro que voava de um galho, de uma paineira, até à barranca do ribeirão e voltava com uma bolinha de barro no bico. Era um João-de-barro em plena atividade na construção de seu ninho-residência; o pássaro era acelerado. Colocava a argila no, já quase finalizado, teto e fazia com o bico o que um exímio pedreiro faz com a espátula de acabamento. Depois ele ia até a frente da casinha e ficava como que verificando sua obra. Em seguida, voava até um capinzal e trazia no bico uma folha, de capim, morta; colocava-a na ultima porção de barro que trouxera e parou por um instante e desatou a cantar com alegria de ver seu lar quase pronto. Voou de volta até o ribeirão para buscar mais matéria prima.
         -Pássaro idiota! Tendo essa trabalheira toda em construir uma casa de barro! Porque não faz como todos os outros pássaros, - um ninho só de capim? – falou isso e jogou uma pedra na direção da construção do pedreiro das matas, destruindo-a.
         -Ah! Ah!Ah!Ah! Quero ver a reação dele quando retornar! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
         O João-de-barro voltou com uma porção de terra sovada no bico e pousou no galho defronte a casinha não entendendo a tragédia. Depois adentrou no ninho destruído, juntou o que trazia no bico, com o que restou da destruição e reiniciou a construção.
         Teteca irritou-se mais ainda com a persistência do pássaro. Olhou seu barraco com água pela metade e danou a praguejar:
- Desgraça, desgraça! O que é que fiz para merecer isto?Por que Deus me castiga assim? Vou ter que começar tudo de novo quando as águas abaixarem! Maldição! Maldição!”






sábado, 29 de setembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


TRAFFIC CALMING

Na minha frente ia uma carroça cheia de entulhos e o condutor puxou a rédea afim de o burro parar abruptamente.
Motivo: - Tinha que parar no traffic calming para um casal de idosos, que iniciava a travessia da Rua Bento Bispo-Cardeal num  bairro nobre de Virtuália. O senhorzinho, que parecia ter quase um século de vida, ia amparado pela esposa, cuja idade regulava com a do parceiro e, iam a passos lentos.
O carroceiro pacientemente desceu da carroça e começou a verificar as amarras da complicada carga.
Eu observava tudo: a composição perfeita (carroça, condutor e burro); o traffic calming; o casal de idosos lentos na travessia da movimentada e estreita avenida de mão única; eu, ali, na pick up GMC 1957 (só faltava ter placa preta de tão conservada a vermelhona-chassi) e, logo atrás, uma fila se formava.
Quando notaram a carroça parada começou a buzinação. O carroceiro, sem se preocupar, notou que a bengala do sinhozinho, que se esforçava para andar além de suas forças, caíra no chão e prontamente foi ajudá-lo. A orquestra de buzinas foi acompanhada de um sonoro coro de palavrões.
         Após atravessar o casal, o condutor da carroça, aproveitando o ressalto do traffic calming, falou ao burro:
         - Vem Shrekiko! – puxando-o pelo cabresto. Ele, com sua força animal,  arrastou a carroça para que ocupasse meia calçada e liberar os apressados.
         Vi pelo retrovisor, após passar pela passarela de pedestre, que o carroceiro falava sorrindo:
         -Bom dia! – para o motorista da Hilux, do Pajero, do Freemont, do Tucson e para o carro oficial do prefeito que parou e o próprio, estendeu-lhe a mão cumprimentando-o.
         O condutor autônomo de um veículo com tração animal demonstrou que cordialidade e respeito no transito independem de traffic calming.













terça-feira, 25 de setembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


SÁBADO NO JUBILEU

Na Capital Sideral dos Sonhos qualquer evento importante é de praxe ocorrer concursos de fantasias. Por isso, na semana do enésimo aniversário de Virtuália a grande expectativa, no penúltimo dia das festas, sábado à noite - que também é o jubileu do padroeiro  São Nunca do Vale do Rio do Peixe – é o grande desfile de fantasias. Só podem participar os habitantes do Vale Virtualiano do Rio do Peixe, ou seja, as cidades de Virtuália, Realópoles e Analogicópoles.
         - Caramba, carambolas e caracóis! Não vou poder participar fantasiado do “Gaúcho, - O Rei dos Coxilos!” Se vestir bombacha, chapéu, pala e botas vou ficar parecendo àquele presidente baixinho e gordinho do início da década de cinquenta! – lamentava-se Juliano Scheiβe em seu atelier de costuras e continuava a pensar em voz alta:
         - Mas eu tenho que continuar o regime para “engordecer” e participar do concurso de Rei Momo, pois dos cento e vinte quilos mínimo exigidos faltam-me dezenove quilos e com minha altura de um metro e sessenta e dois centímetros pareço que já tenho duzentos e vinte quilos, mas vai valer a pena! Ahhhhhhhhh, ser o Rei do Carnaval é o meu maior desejo, depois – é claro – de já ser professor de Zoologia Pré-histórica do Estado; eu vou conseguir nem que eu exploda de gordo! – o grande delegado de oriximbanda parecia que estava sem inspiração até que:
         - Mas o que vou vestir no desfile de sábado à noite... o que... o que... o que... o que...eureeeekaaaa! Já sei, já sei e vou arrasar! Ah, Juju, grande Lisbela tu és um gênio, se não vejamos:
         - O Julho Baiano, meu maior rival em tudo, com certeza, vai desfilar  fantasiado de baiana e eu vou matar dois Java porcos com uma só cacetada, ou seja, vou aproveitar minha gordura e desfilar de Carmem Merenda, só que gravidíssima! Ah!Ah!Ah! Vou matar a pau!
         Chega o esperado sábado.
         A Praça Bispo-Cardeal estava lotada de pessoas de toda a região e no centro, da mesma, a passarela montada. Ju era o penúltimo que desfilava. Todo “senhora” de si flutuava como uma baiana nos últimos dias de gravidez.  A fantasia multicolorida valorizava a enorme pança.
         - Já ganhou! Já ganhou! – gritava eufórico Hibisco, seu companheiro – que é conhecido como Beijo, - e sua família, incluindo, o Zé das Flores mais  o pequeno, peludo e estranho ETevaldo.
         Ju terminou seu desfile esvaindo-se em  lágrimas de emoção e, com certeza, achava que já tinha ganhado  o prêmio.
         Prêmio? Ah! - e que prêmio: Pacote completo (passagens de ida e volta, estadia e ingressos para duas pessoas) para assistirem a decisão do Brasileirão série D, quando for um GRENAL, - se isso acontecer um dia.
         Todos aguardavam o último candidato a desfilar que, por sinal, seria o Julho Baiano. Ninguém sabia como seria a fantasia, pois ele, até ser chamado para entrar na passarela, se escondera dentro de sua Towner furgão cor de rosa marca- texto.
         - E, por último a desfilar... que entre o Juuuuulho Baaaaiaannnoooo! – gritou o prefeito Jairo Edson,  imitando uma voz de FM.
         Todo garboso entrou o Julho e o prefeito narrava a composição da fantasia:
         - Julho está fantasiado de Gaúcho Alegre da Fronteira e traja: bombacha rosa choque em acabamentos dourados; botas vermelhas com detalhes branco, camisa pink; lenço lilás; poncho com as cores do arco-íris; fita-apache vermelha e azul segurando a peruca e nas mãos um laço de doze braças enfeitado com purpurinas!
         - Ohhhhhhhhhh! – exclamava a multidão e, Julho, deslizava sobre a passarela, boleava o laço por sobre a cabeça e cantava com seu sotaque baiano:
         “Gaucho eu sou...
         Nasci feliz...      
         Nesta terra formosa
         Onde estou...
         No sul deste meu país...”
         Juliano ao ver aquilo arregalou os olhos e desmaiou nos braços do Beijo e não viu o fim da festa, nem a vitória, indireta,  da Bahia através do Baiano e nem ouviu o que disse o Delfino Drew – gaúcho macho pra mais de metro – dono do Restô, que nas festas sempre vai vestido como manda a tradição:
         - Bah! Tchê é isso que denigre a nossa imagem de macho; nunca mais eu patrocino nada em Virtuália! Só aqui mesmo na Capital Sideral dos Sonhos é que um gaúcho, fantasiado de baiana prenha, perde para um baiano fantasiado de gaúcho “flozô”!





domingo, 23 de setembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


O PANIFICADOR

O engenheiro Cleber chegou ao refeitório dos peões, isto às 22h 30 min., e falou alto e claro para que os quase 80 peões que moravam no alojamento ouvissem:
            - Atenção, atenção! O padeiro teve que ser internado num hospital na capital e preciso de um substituto!
            - QUEM JÁ TRABALHOU EM PADARIA ANTES?
               O silêncio foi quebrado pelo Gaúcho, - peão braçal, embora meio delicado para a função, gremista esperto e que queria se livrar do serviço pesado na pedreira:
            - EU TRABALHEI TCHÊ, DIGO, “DOCTOR”! TRABALHEI CINCO LONGOS ANOS NUMA PADARIA!
            - Então, amanhã, às 4h 30 min. esteja na padaria do canteiro de obras, ok?
            - Ok, tchê, opsss.. ”doctor”!
            - Como é o seu nome e matrícula? Perguntou o engenheiro.
            - Daniel, mas todos me chamam de Gaúcho e o número de minha matrícula é 171!
            - Então está tudo acertado, não vai faltar, ouviu Sr. Daniel?
            - Ok, Senhor Engenheiro! - falou no seu jeitinho o Daniel.
No outro dia às 7h 00 min. estava um tumulto sem igual no refeitório. O cozinheiro e os auxiliares de cozinha só serviram café e leite. Dr. Cleber chegou e perguntou:
            - Que bagunça é essa, minha gente?
             - É que não tem pão para o café da manhã, doutor! – falou Wagner, outro gaúcho, mas tinha vergonha de dizer a origem, o administrador.
            - Chamem o Daniel? – gritou Dr. Cleber.
            - Quem? Ah! Tá! É o Gaúcho!- lembrou o Wagner.
Todos ficaram na expectativa do esporro no pobre do gaúcho e, este, chega trazido pelo administrador e, o engenheiro pergunta:
            - Daniel... Gaúcho diga-me: - Por que você não fez os pães como eu mandei?
            - PORQUE EU NÃO SEI “DOCTOR”! –falou na “bucha” o peão.
            - Seu... seu... mas você falou e todo mundo ouviu que você trabalhou cinco anos numa padaria?
             O Daniel, gremista, (daqueles nojentos e encarnador) cuja matrícula era 171 respondeu:
            - TRABALHEI SIM, MESTRE, MAS CARREGANDO LENHA PARA O FORNO!

O refeitório explodiu num coro de gostosas gargalhadas e todos foram para o “batente” inclusive o Gaúcho.

VIDA EM VIRTUÁLIA


O Mega Superintendente 

O cronograma da obra de terraplenagem estava atrasado em mais de uma semana. Quatro dos megas tratores-escavo-transportadores, franceses, estavam quebrados, e como eram antigos e fora de linha de produção, - a fábrica estrangeira falira, - não se conseguiam as peças de reposição, para os mesmos, no mercado interno. Só seria possível importando e tal importação, se fosse autorizada pelo MF, demoraria quarenta e cinco dias, isto se conseguissem as peças.
            - Engenheiro Evandro, vá até ao canteiro de obras e verifique as reais situações desses equipamentos, “se vira”!- disse asperamente o Dr. Bolívar todo poderoso presidente e dono da empresa ao engenheiro novato, - seu filho único.
            No dia seguinte às 14h00min, depois de muitas horas de voo e escalas, Evandro chegou ao Aeroporto Sideral de Virtuália (ASV); já o esperava um carro da empresa para levá-lo direto à reunião e lá chegando:
            - Sentem-se senhores, por favor! Eu sou o Engenheiro Evandro Martelos! Sou gaúcho de Agudo, superintendente sênior da empresa. Sou formado pela Harvard University-USA, fiz pós-graduação na University Cambridge- Inglaterra, doutorado na University Oxford- Inglaterra, doutorado em equipamentos pesados na University Toronto-Canadá, doutorado em mecatrônica na Kyoto University - Japão, falo inglês, espanhol, francês, italiano, mandarim e, além disto, tudo, e o que eu considero mais importante, são assessor virtual estratégico da Universidade Sideral de Virtuália (USV). Pedi que o Dr. Rafael, aqui presente, convocasse para esta reunião: os operadores das máquinas-paradas, o chefe da oficina, os mecânicos, o almoxarife e só depois vou ter uma reunião final com o engenheiro chefe da obra, - Dr. José Maurício!
            - Primeiro quero falar com o chefe da oficina e...
            - Sou eu doutor, meu nome é Paulo Tacir! – prontificou-se a se apresentar Galegão, eufórico.
            - Prazer meu senhor! O que tens a dizer? – perguntou Evandro.
            - “Óia” doutor, o que acontece é que o Bento, o Chico, o Tião e o Lelê estão muito velhos e não agüentam mais o “rojão”. “Se” trabalham dois dias, ficam dez no “estaleiro”. Eu acho que esses quatro deveriam ser “aposentados” e vocês mandariam quatro mais novos! Se não a obra não vai deslanchar! Não é pessoal?
            - “Ocê” tem razão, Galegão!  - disse Zé Mineiro.
            - “Ôchente”, é isso aí, cabra-macho! – disse Zé Calango.
            - Desembaçou meu mano!     – disse Zé Paulista.
            - Bah tchê, matou a pau!       – disse Zé Gaúcho.
            - Como engenheiro mecânico da obra, o que tens a dizer Dr. Rafael? – perguntou o superintendente.
            - Meu pessoal tem razão! Concordo em tudo com o Galegão, digo, Paulo Tacir! -falou o Rafael.
            - Eu não acredito no que ouço e vejo aqui! – disse o filho do dono da empresa, e continuou:
            - O presidente convoca uma reunião com a altíssima cúpula da empresa lá na capital, todos concordaram em me enviar para este sertão distante para resolver o problema e o que ouço: - um bando de homens “dedurando” quatro funcionários que, pelos nomes, devem ser de baixo escalão e humildes! Vocês não se envergonham de falar assim de quatro idosos sem que os mesmos estejam presentes?
            - É que eles não cabem aqui na sala Doutor! – falou Zé Calango segurando o riso.
            - Como assim? Não cabem na sala? Senhor Almoxarife, vai buscá-los imediatamente! É uma ordem!
            De pronto Geraldo Manoel respondeu:
            - Não tem como doutor!  O Bento, Chico, Tião e o Lelê são nomes de batismo dos tratores que estão quebrados. Os equipamentos da empresa são apelidados para controle dos bens patrimoniais. É assim na empresa toda! Vossa superintendência não sabia deste pequeno detalhe?
 Os risos comprimidos se soltaram num alarido só. Evandro não falou mais nada e encerrou a reunião e, junto com o Dr. José Maurício, seguiram para a capital. Com autorização superior, dos quatro tratores antigos fizeram dois que funcionavam razoavelmente. Quinze dias depois chegaram à obra: Zé Mineiro, Zé Calango, Zé Paulista e Zé Gaúcho – os novos tratores da empresa. Eram os primeiros produzidos em terras tupiniquins. Os nomes foram sugeridos pelo superintendente Dr. Evandro Martelos.