sábado, 11 de agosto de 2012

VIDA EM FAMÍLIA


MACACOS E TAMANDUÁS

Ano 1992, dia sete, mês Setembro, segunda-feira, 09h30min, - feriadão! (Eita memória, sô!).
Destino: - Chapada dos Guimarães.
Na rodovia MT-251, - Cuiabá/Chapada dos Guimarães, no querido estado do Mato Grosso, o céu estava num azul indescritível. As flores, daquele jardim natural, espocavam coloridas e perfumadas nos pequenos arbustos que margeavam o caminho. Se existe um paraíso, a estrada para lá, só pode ser assim. Eu dirigia o Opala preto que destoava do colorido dos barrancos avermelhados como quem dirigia uma espaçonave macia pelo espaço sem resistência.
         - Olha pai! Que bicho é aquele que vai atravessar a estrada?- gritou Mateusinho, meu filho caçula de cinco anos.
         - E um tamanduá-bandeira! – prontificaram-se a gritar, em duo, os outros dois filhos maiores.
         - Sim é um tamanduá, vamos parar o carro para vê-lo de perto! – imperou Rô, a patroa.
         Ao parar o veículo o tamanduá meio que se sentou nas patas traseiras, olhou-nos, simulou um abrir de braços para dar um abraço, espichou uma língua fina e retornou à sua travessia.
         - Nossa pai, ele é muito esquisito, mas é muito bonito, vendo assim de perto!
         - Tens razão Thiago, por mais diferente que sejamos das 1.120.000 espécies de animais já catalogados no mundo, somos todos filhos deste planeta, - a Terra. Seria tão bom se não existissem pátrias, símbolos, bandeiras, donos de pedaços de terras, donos da verdade, guerras por poder, imposição de crenças, códigos de éticas e sem éticas, discriminações em geral, se, por fim não existisse a hipocrisia. Seria aqui o paraíso, se os rios não limitassem fronteiras, corressem livres dos esgotos que produzimos e pudéssemos beber de todas as águas sem medo. Olhem esse céu da Chapada dos Guimarães! Já pensaram se todo o planeta fosse assim limpo e com essas nuvens branquíssimas?
         - Que é isso amorzão, o ar puro está te deixando poético? – interrompeu-me a minha rainha.
         - É mesmo pai, só porque o tamanduá-bandeira cruzou nosso caminho? – disse-me Felipe meu filho do meio.
         - Pois é meus filhos, em apenas alguns quilômetros ao nosso redor temos todo este universo no qual somos os seres racionais. Imaginem se compararmos esse pequeno universo com o tamanho do Mato Grosso, este com o país, este com o planeta, este com o sol e, ainda, comparar este astro-rei com Canis Majoris, a maior estrela já descoberta pelos humanos, até agora, que é 2.100 vezes maior que ele? O que somos perante o infinito do universo?
         - Nós somos parte dele, pelo menos eu acho! – disse-me o mais velho.
         - Não importa onde nascemos e que espécie somos aqui na Terra, somos parte dela. Somos feitos dos mesmos elementos químicos que existem desde sempre e para sempre vão existir.
         - Amorzão, você está “viajando” literalmente falando, ah!ah!ah!ah! Vamos tocar enfrente que já estamos parados aqui há quase uma hora! – falou carinhosamente a minha Rô.
         -Olha só, gente, o tamanduá-bandeira arrebentou aquele cupinzeiro para comer os cupins e dois macacos se juntaram a ele para, também, banquetearem! – gritou o Thiago.
         - Só mais uma coisinha: - O ser que chega mais perto do nosso genoma é o chipanzé. Ele tem 1% menos gene que o homo-sapiens e não conseguem raciocinar logicamente, se expressar e falar. Já pensaram o que seria da humanidade se outros seres com 10% a mais de gene, do que o ser humano, aterrissassem em nosso planeta?
         - Com certeza seríamos dominados e eles transformariam esta Terra no sonhado paraíso dos Querubins!
        - Pai, vamos parar lá no Mirante para vermos toda a extensão da chapada?
         - Ok, vamos lá e depois à Cachoeira Véu de noiva!
         Ficamos lá pelas bandas da Chapada dos Guimarães o resto do feriado nos refrescando; só após assistirmos o magnífico por do sol retornamos para nossa residência em Cuiabá.  Mas a verdade é que nunca mais esquecemos aquele tamanduá-bandeira nosso irmão terráqueo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

VIDA E FÁBULAS


Os canarinhos


Numa clara e agradável manhã de primavera, um canarinho da terra vagava pelos jardins de uma glamorosa mansão. Pousou num galho de um florido flamboyant para ouvir um lindo canto de outro canário, mas com uma melodia diferente. Nesse canto notava-se  uma profunda tristeza escondida. De onde estava viu que o canto partia  de uma gaiola feita em ouro e prata, pendurada na varanda florida da mansão. Ele voou até lá perto, assentou numa roseira e viu um belíssimo  canário belga cantando a todo peito. No chão, logo embaixo da esplendorosa gaiola, vários pardais, machos e fêmeas, se deliciavam com os alpistes e outras guloseimas que caiam do habitat do belga:
         - Você não vai comer as migalhas que deixo cair, irmão amarelo? – perguntou o belga.
        - Não, não quero obrigado! Acabei de saborear uma fruta madurinha que encontrei no alto de uma goiabeira! – falou simpaticamente o livre canarinho.
          - Quanto trabalho para conseguir comida! Não me preocupo com minhas refeições, pois meu senhor mantém sempre cheios os meus coxinhos.
            De repente os pardais fogem em revoada. Era o proprietário  da casa que chegava à varanda. O canário da terra voou até uma romãzeira, ali perto, e ficou ouvindo o dono da gaiola   falar:
          - Vou te deixar trancado dentro de casa; tenho que sair e só volto amanhã! Esta gaiola vale uma fortuna e poderiam roubá-la!
            Fechada a porta da casa o canarinho da terra gorjeou feliz por ser livre e  voou, até ao gramado, para  se banquetear com semente maduras de grama.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

VIDA E FÁBULAS


A Harpia e os Colibris

            Uma águia americana, cabeça branca, gênero haliacetus, levantou voou de um penhasco de subiu... subiu...subiu até a altura máxima que a natureza lhe permite:
            - Agora é só plainar, a maior parte da viagem, rumo ao sul e lá irei encontrar uma prima poderosa, a harpia; quero ver se a  brasileira  é mesmo a maior rapineira do mundo! - disse com soberba o pássaro carnívoro.
            Por dez dias ela rumou para o sul. Parava para se alimentar, beber água e dormir. À medida que se aproximava da América do Sul começou a se deslumbrar com a fartura de alimentos; com a quantidade de matas; com o calor agradável; com os rios imensos e, pensou:
            - Vou dominar esse espaço; com minha força e astúcia terei tudo que eu quiser nessas paragens!
Das alturas, viu uma área mito verde com a vegetação mais espaçada, bem depois de um gigantesco rio, com grandes chapadões, muitas flores, muitos frutos e diversos tipos de pássaros, desceu, aliás, se soltou lá das alturas vindo pousar em um, frondoso, ipê amarelo florido cujas flores doía-lhes os olhos, tamanho o poder do brilho perante a luz solar. Observou vários pássaros pequenos que pairavam no ar e enfiavam os compridos e finos bicos nas flores. Nunca tinha visto pássaros tão coloridos, tão rápidos, de aparência fragilíssima e perguntou, na linguagem universal dos alados:
            - Ei, pequeno, como faço para achar um dos meus primos, uma harpia?
            - Não sei! Não voamos tão alto como elas e, elas, não se dignam a descer à nossa margem de altura! – disse um membro da família dos heliomaster, - um beija flor estrela de bico preto longo.
            - Ora, ora... ora! És muito petulante a julgar pelo seu ínfimo porte, hein, pequerrucho? Não te amedrontas o fato de que, apenas com uma bicada te engulo inteiro?
            Os outros pássaros saíram de perto e o colibri não de intimidou:
            - Não me julgue pelo tamanho e nem pela minha fragilidade; tente me pegar já que te achas uma potência das alturas? – falou isso e afastou-se pairando no ar.
            A enorme águia soltou um piado alto e horripilante e lançou-se no vazio e começou a galgar altura e ganhar velocidade.
            O pequeno pássaro a acompanhou voando, alternando, pelos lados, por cima e por baixo da gigantesca ave. A uma determinada altura o colibri parou no ar e viu a águia quase desaparecer nos céus e resolveu voltar à sua rotina de sugar néctar das flores e espalhar a polinização entre as plantas.
            - Cuidado irmão! – gritou um colibri estrela-verde-azulado.
            Num relance, o avisado, viu que descia do céu a águia, como um bólido, a uma velocidade incrível. O pequeno colorido, quando a águia chegou perto, arredou para o lado e a americana, teve que reduzir, drasticamente, a velocidade e os demais colibris aproveitou e aproximaram-se da cabeça branca da imensa rapineira e um deles vazou-lhe um dos olhos. A águia, num ato de desespero, tentou abocanhar os pequenos e,  um outro colibri, um rubi brasileiro,  vazou-lhe o outro olho.
            Sem nada enxergar, a visitante americana espatifou-se no chão.
            Uma harpia da mesma família acipitrídea, do falconiformis espatifado, da americana, que via tudo do alto de uma castanheira, falou para o seu filhote que a acompanhava:
            - Aquela nossa prima não conhecia o poder desses nossos conterrâneos pequeninos, subestimando quando estão unidos! Lembre-se disto, filhote, vivas sempre em harmonia com os pequeninos mesmo fazendo, eles, parte de nossa cadeia alimentar, pois unidos, se agigantam!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


Número da $orte
                   - Meu filho, Leo, é um rapaz de sorte!
           Não se cansava de falar Dona Flor. E ele acreditava nisto, pois já ganhara algumas rifas com seu número da sorte, o 51. Foram rifas de galinha assada, relógio de procedência duvidosa e, até uma camisa do seu time estrangeiro do coração, rubricada pelo ídolo maior. O número desta camisa, falsificada, é claro, o 51.
            Leonardo Sá, Leo Lindo, como era conhecido, pois era muito feio, feio geral, tomou sua primeira dose de aguardente aos 15 anos (15 é o 51 invertido) e apaixonou-se por ela, pois tinha, como nome, o seu número da sorte (*) e isto já são 15 anos que estão juntos, - um amor etílico.
           Numa quarta feira, Leo lembrou-se que havia sonhado com vários carnavalescos desfilando todos enfeitados, montados em cavalos e ele “sacou”, ou pelo menos acha que acertou no palpite: - Pô, um bando de machos fantasiados com penas e plumas coloridas só pode ser... ser... galo! É isso! E galo é o número 51!
            Contou o sonho para sua mãe e ela lhe disse:
       - Meu filho, espere até de tardinha quando a sua tia Noquinha voltar das faxinas que ela decifra teu sonho e, aí, você compra um bilhete de loteria com o bicho que ela lhe indicar!
            - Ô mãe, eu só tenho um real no bolso como vou...
           - Toma estes cinqüenta reais que guardava para pagar o aluguel. Com o que você tem deve dar para um bilhete inteiro!  - concluiu Florinda.
         - Cinquenta reais com mais um real dá:  51! isto dá para comprar até dois bilhetes completos! - falou Leo, com os olhos arregalados.
           Não teve dúvida, não esperou a Noquinha coisa nenhuma, saiu a percorrer os 15 pontos de venda de bilhetes de  loteria da cidade, perto de cada um deles, ele achava um boteco e beijava sua amada num copo americano. No último ponto, a Lotérica Número da Sorte de Virtuália, foi onde   ele encontrou o bilhete completo com os números 1551. Não excitou e comprou.
         Saindo da lotérica começou a gargalhar insanamente, pois estava com a “cuca” cheia de sua amada. Olhando para o céu e agradecendo a Deus, pela sorte, não reparou que o sinal de transito estava vermelho para pedestre e um ônibus o atropelou. O número do ônibus 51 e o final da placa 51.
       O funeral foi às 15h51min h, mas sua mãe não pode comparecer, pois teve uma síncope e foi internada por 15 dias.
     Ao receber alta hospitalar Dona Flor foi procurar pela sepultura do filho e, como não sabia onde ficava, foi até a recepção do “campo santo” e a recepcionista olhou no microcomputador e disse-lhe:
        - Dona, fica na quadra 51 sepultura número 51!
      Dona Florinda encontrou a sepultura e, como se tivesse falando com Leo, choramingou:
    - Leo, você devia ter esperado pela interpretação do seu sonho. Noquinha disse que, em sonho, macho enfeitado é galo, mas você esqueceu dos cavalos. Galo é 51 cavalo é 44 e somando dá 95 e este é o número do veado. Foi esse o bicho do bilhete premiado, meu querido!
     - Ah! Sorte ingrata, meu filho! Não foi uma boa ideia você ter se apegado tanto ao 51!

(*) Cachaça Pirassununga 51
            

VIDA E FÁBULAS


O mogno e a amoreira

              - E muito bonito a vista aqui de cima, amoreira, dá para eu ver todos os cantos da floresta, sendo eu, a árvore mais alta! – gabava-se o pé de mogno.
            - Você podia arredar um pouco seus galhos que me sombreiam, pois estou em floração e preciso de luz para que as abelhas e os pássaros venham a mim para a polinização! – gritava a amoreira silvestre em seu pequeno tamanho.
            - Não tem como, se eu arredar algum dos meus galhos, vem um vizinho nosso e ocupa o lugar! Contente-se com a penumbra! Aliás, não sei como viestes parar aqui na minha região, se tua espécie é  nativa da Alta Mantiqueira, de Campos do Jordão,... de região fria?! Ah! Ah! Ah! Ah!
                Triste a amoreira produzia poucos frutos, porém eram grandes e muito saborosos.
            ...
            Passaram-se cinco anos daquela vida vegetativa e certa manhã o mogno amanheceu aos gritos:
            - Não pode ser, não pode ser! Os humanos estão devastando este lado da floresta, estamos perdidos!
            - Conte-nos o que se passa grande árvore?! – implorou a amoreira que servia seus poucos frutos, a um bando de maritacas.
            - Eles, pelo visto, precisam de mais espaço e estão desmatando tudo para formar pasto para gado nelore. Estão usando dois grandes tratores, um em cada extremidade de uma corrente enorme, com quase cinquenta metros, para derrubar rapidamente vocês, árvores menores. Com certeza vou me safar disto, visto que, tenho quase cem anos e sou uma madeira nobre em processo de extinção; sou protegida por lei federal, entendeu amoreirazinha? – soberbamente falou o mogno.
               Na manhã de dois dias depois:
            - Olhe só doutora Nádia, o tamanho deste pé de mogno?! –falou Raimundo à ricaça, dona da nova fazenda que estava se formando.
            - Que ótimo, não é Raí, termos esta árvore justo aqui neste platozinho, pois é aqui que farei a sede da fazenda! – disse Nádia ao administrador do empreendimento.
           - Ahhhhhhhhhh! Estou salvo, como é bom ser uma árvore nobre! – suspirou em seu silêncio vegetal o mogno. E a doutora prosseguiu o diálogo com Raí:
            - Com este mogno faremos a casa-sede da fazenda e também os móveis; peça para cortá-lo ainda hoje que daqui a quinze ou vinte dias, neste calorão, a madeira já vai estar seca, ok?
            - Ok, patroa!
            - Ah, Raimundo, tem mais um detalhe:  Façam com que, na derrubada, o mogno caia para a direita, pois não quero que ele desabe sobre essa amoreira silvestre; eu simplesmente adoro amoras! Tome, prove uma e sinta que delícia de sabor, é muito mais doce que as que dão lá no sul do país; como veio parar aqui e como se desenvolveu nós nunca vamos saber, deve ser obra do Criador!
               Raimundo provou e falou:
- Tem razão, doutora, que delícia de fruta; vão ficar mais saborosas as próximas safras, pois esta arvorezinha terá luz do sol abundantemente todos os dias!
            - Será a rainha de nosso futuro pomar, Raimundo! – terminando o diálogo entre Nádia e o Raimundo.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA / VIDA EM FAMÍLIA


O Caldo

Tarde fria de domingo, como a maioria dos dias de meados do inverno, decidi:
            - Vou tirar um cochilo e ir para Virtuália, pois lá, sou eu quem faz o clima e, fui!
            - Nhô Antônio, o senhor está em casa? – gritei diante do portão.
            - Ei, seu Lê, tô aqui nus fundus, na horta, aprochegue, he, he, he, he! – gritou o meu querido amigo, sempre sorrindo.
            - Boa tarde Nhô, como tem passado?
            - Graças ao Criador eu tô muito bem, e ocê?
            - Estou bem, fora o frio que faz lá na minha cidade, o resto, está tudo tranquilo!
            - Ingraçadu, misifiu, u friu foi imbora daqui anssim que ocê chegou; vô inté tirá minha japona de bataia!
            - De batalha, Nhô?
            - É isso memu, ieu tenhu iela desde us tempus em qu’ieu era sordadu infermeru na segunda guerra mundiá, desde 1943, seu Lê; só se istraviô as divisa que tinha nas manga, he!he!he!
            - Caramba, Nhô, tem bastante tempo, hein?! Nem parece; teu jaquetão está inteirinho!
            - Pois é, inhantes as coisa era feita com mais seriedade; feitas prá durá
            -Depois que o senhor voltou dos campos da Itália continuou a ser enfermeiro?
            - Continuei inté me aposentá, aí vium este sítiu e, ieu e a falecida Ritinha fizemu aqui u nossu paraísu. Aqui prantamu e criamu di um tudo! U Criador – é só falar no Mestre e o Nhô descobre a cabeça  do seu chapéu e palha surrado – não permitiu qui nóis tivesse herderu é purissu qui vivu só aqui; às veis a Xerequéia vem fazê uma faxina i lavá argumas rôpa pra mim, mas ieu pagu viu seu Lê?! He!He!He!
- Não se senti magoado com o Criador o fato de Ele não ter-lhe dado filhos?
            - Craru qui não, seu Lê, quem semu nóis para se magoá com u Todu Poderosu?
            - É por isso que não tens religião e não frequentas igrejas, Nhô?
            - Não, misifiu, num é por isso; vou te contá lá na cuzinha inquantu façu um cardu forte pra janta! Ocê vai janta mais ieu, não vai, seu Lê?
            - Caldo de que meu amigo?
            - Di legume, ou cheja: inhame, abobra, vagi, tomati, batata doce, ispinafre cenora, baroa, batata e carne seca disfiada; u charque foi um amigu meu que me troxe despois que ieu dei prêle uma garrafada pru modi di levantá u ânimu! He!he!he!he!
            Na cozinha e ajudando no que podia o ancião, no preparo do caldo:
            - Comu nóis tava proseanu, eu te digu, seu Lê: U tempro du meu Deus  é a casa du meu isprito, ô cheja, u meu corpu! Despois du que já vi nessas igreja, nus terreru, nus conseiu dus padri e nus milagre dus pastô... tsc...tsc...tsc..., eu num aquerditu neis, seu Lê!
            - Tem uns tempu patráis,  muitus tresantonti memu, que eu fui levadu pela Ritinha numa dessas igreja vistosa, colorida e qui mais parecia um castelu; o pastô chefi proseô quaji uma hora de bobagi pru povu e despois gritô bem artu: - Oceis que já pagaru o dízmu, já deru a oferta de hoje, já deru u dinheru prá ajudá a modificá u jardim da igreja, que tar, agora, oferecê dois dias du seu trabaiu para o Senhor?       – Aí eu num guentei, seu Lê, peguei a Ritinha pelu braçu e nóis nunca mais fumu num lugar desses!
            - É, Nhô, a fé virou moeda de troca!
            - Ostru dia eu fui visitá um veiu amigu, o Tilelê, que foi  operadu de pedra na visícula – agora eie já tá bão – e entrou um bandu de pastô crente na infermaria, colocaru as mãos nas cabeças dus operadu e doente e diziam um monti de coisa. Eu num aguentei e saí de lá e fiquei num corredô enfrente adonde qui fica us doente com doença artamente contagiosa, - na ária isolada. Fui dá uma oiadinha pela janelona de vidru e tinha lá prá mais de vinte pobri coitadu; quaji todus mi reconheceru e acenaru prá mim. Comu us infermeru me conhece, eu entrei lá e conversei cum todus eies. Na saída, dessa ala, us pastô crente e mais uma turma de carola, estavam em frente à porta de entrada cum as mão levantada e oranu e eu perguntei:
            - Ué, purque que oceis num entra lá drentu para por as mãos nas cabeças deies?
            - Não queremu nus contaminá, meu senhô! – disse o que tava com o ternu mais alinhado. – Má sabia eies que já estavam com a pió das duença dos homi! Sabi qualé, seu Lê?
            - Hipocrisia, Nhô, é esta a pior das doenças da humanidade!
            - Justu, misifiu, justu!
            - A sopa tá pronta, vamos comê, seu Lê?
            - Vamos sim, o cheiro está muito bom, Nhô!
            - É o segredu du temperu qui a Ritinha me dexô de herança; despois  te falu deie, mas é segredu, viu amigu? Vamu tomá que já tá iscurecenu e... ingraçadu, tá vortanu a esfriá, não é seu Lê?
            Realmente, tomar sopa no frio do inverno é uma de minha predileção e aquele caldo saboreei com muito gosto, depois do aperitivo de pinga amargosa do Nhô.
            - Então já me vou Nhô, qualquer hora eu apareço!
            - Intão inté, intão misifio! Percisano é só aparece!
            - Tchau, então!
            ...
            -Rô, o caldo está pronto, vem logo para não esfriar!- falei alto para minha patroa que estava no quarto de costura consertando minha jaqueta dos tempos de guerreiro das estradas, - um caminhoneiro.
            - Muito obrigado, amor, mas não quero não!  Você esqueceu que eu detesto inhame?





             

sexta-feira, 20 de julho de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


PEDRO
                O calor estava à beira do insuportável.
Olavo parou a GMC modelo 1955 – só faltavam as quatro calotas originais para trocar a placa comum por, outra preta, de colecionador – perto do Restô, bar e restaurante de Virtuália - e pediu ao Gaúcho uma latinha descartável de água de coco, super gelada. Enquanto saboreava, o delicioso líquido ficou na porta do estabelecimento admirando a sua caminhonete. Na frente da possante “vermelha-chassi,” um catador de reciclável, parou seu carrinho com alguns materiais recicláveis; o carrinho era uma carcaça de geladeira na qual adaptaram duas rodas aro treze de automóvel, dois varões de madeira e uma travessa por onde alguém a puxava ou empurrava: - à tração-humana. O condutor veio até ao mesmo bar e pediu uma lata de cerveja, pagou, sentou-se no meio fio da calçada e palavreou, aborrecidamente:
- Calor dos capetas; vai ser quente assim lá no meio dos infernos!
  Olavo saiu dali e foi em direção da sua GMC; terminou a água de coco e tentou amassar a latinha apertando-a com sua mão direita, mas ela era mais dura do que as normais e não completou o ato. Chegando perto do carrinho de reciclável, jogou a latinha dentro e...:
- Ei, patrão, pode parar! Pega essa lata que você jogou no meu veículo! – gritou Pedro – pelo menos esse era o nome que estava, escrito em letras na cor amarela, na lateral da carcaça marrom de refrigerador.
- Ué, você não recolhe os recicláveis nas ruas? – questionou Olavo.
- Recolho sim, mas essa daí não vale nada! – Olavo a pegou e viu, nela, o símbolo de reciclável e dentro dele estava escrito: - aço, e compreendeu o que o catador quis dizer.
Após colocar a lata, propriamente dita, dentro de um cesto de lixo público, falou ao, suposto, Pedro:
- Ouça senhor, eu moro naquela casa amarela – disse apontando para sua residência – lá no fim desta quadra; passa por lá, pois tenho um saco enorme cheio de recipiente de alumínio, vazio, de cerveja, para reciclagem, ok?
- Hoje eu não posso, talvez depois de amanhã eu... não, depois de amanhã é sábado e eu não trabalho; talvez segunda feira por volta das quatorze horas, tá bom? Só irei depois do meu horário de almoço!
- Tudo bem! –falou Olavo e pensou em voz baixa: - Não dá para acreditar, o sujeito numa penúria de dar dó e cheio de normas e regrinhas?! Desse jeito ele nunca vai sair dessa vidinha...
Segunda feira, quatorze horas e um minuto tocaram a campainha lá do portão, era o tal catador:
- Entra aqui, meu senhor – ele beirava os cinquenta anos de idade – o saco, com as embalagens, está aqui nos fundos, o portão está aberto!
- O senhor não pode trazer o saco aqui? É que estou com muita pressa! – respondeu o sujeito.
Já sem paciência o dono da casa levou o enorme saco, que deveria pesar uns treze quilos:
- Aqui está, Pedro! Este é seu nome, não é?
- Não, não é meu nome, esse é o nome do meu veículo de trabalho; meu nome é..., mas peraí, as latinhas não estão amassadas?
- Não, não estão; eu as coloco aí nesse saco assim que as descarto! – respondeu o dono das latinhas, já com certa rispidez.
- Faz o seguinte: no próximo fim de semana o senhor as amassa e na outra segunda, neste mesmo horário, eu venho buscar, tá bom? – falou o dono do Pedro olhando para Olavo como que lhe dando uma ordem e, este, não suportou a audácia e respondeu em alta voz:
- Tá bom coisa nenhuma, ora bolas, não vou fazer nada disso e não tem mais latinha nenhuma! Quem ti vê sente pena e quer te ajudar, mas depois de conversar contigo a gente quer é distância! Pô, meu vá ti catar!
- Vá você, eu fazendo um favorzão em te ajudar a se livrar desse lixo e me discriminas?! Vou fazer um B.O. por discriminação; saiba que não sou analfabeto, já tive até casa própria e um negócio de vender hortaliças, só quebrei porque não tive sorte na vida e quer saber mais:
- Vai se ferrar, infeliz! – respondeu indo embora o catador de lixo reciclável, empurrando o Pedro vazio.
Olavo ficou no portão com o enorme saco com as latinhas derramando pelo chão falou:
- Está explicado o porquê de viver nessa miséria, esse pobre coitado!
- Ei moço, o senhor vai jogar fora essas latinhas? Se for, dê-as para mim!
- Vou sim, pode vir pegá-las! – respondeu-lhe catando as que tinham caído e as recolocando, de volta, dentro do saco.
A senhora elegante e bem vestida, desceu da novíssima camioneta importada, pegou o saco e o colocou no porta-malas e deu, a ele, um cartão:
- Tome meu cartão, nele tem meu nome, e-mail e telefones; quando tiver mais recicláveis é só me contatar que venho buscar, ok? Muito obrigada!
Ela entrou no seu veículo prateado, deu uma buzinada e sorrindo disse-me:
-Tchau!
-Tchau! – respondeu-lhe e leu no cartão amarelo claro com letras marrom:
-PESSOAS DEFENSORAS DOS RECICLADORES ORGANIZADOS de Virtuália (PEDRO) – entidade filantrópica sem fins lucrativos; o endereço da associação, telefone, e-mail, o nome da bela senhora e o número de seu celular.