quinta-feira, 20 de setembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


Vacilos

                Há três anos:
- Pare “adonde” está, Tião! Levante os braços e te encosta no muro, “discostas” para mim! – gritou o cabo Liberato, - o Polaco.
            - Que foi que eu fiz cabo? Saí do presídio hoje cedo e estou desde as sete horas andando para ir para casa; não tomei café e nem almocei ainda, aliás, não comi nada desde ontem da hora da janta!- trêmulo falou o Nego Tião.
            - A delegada, da Delegacia das Mulheres de Virtuália, Doutora Maria Trinta e Oito, pediu para te levar até ela, vamos, entre na viatura! – ordenou o cabo.
            Sem mais argumentar, Tião obedeceu.
            Na delegacia:
            - Trouxe o cabra, Polaco! – perguntou Maria Trinta e Oito, esposa do delegado Carabina Doze.
            - “Truxe” doutora, “taquiêle”! 
            - Seu covarde, fica três anos trancafiado e tão logo  é liberto e já apronta de novo? E o pior, comete o mesmo crime? – indignada falava a delegada.
            - Eu não fiz nada antes e nem agora, doutora! Por favor, não estou entendendo nada, eu nunca cometi nenhum crime! – balbuciava o Tião e continuava:
            - Eu cumpri três anos de cadeia inocente e...  - o preso foi interrompido:
            - Foi ele delegado, hoje de manhã, ele chegou em minha casa e me arrebentou de pancada; quebrou até meu pivô de porcelana! – chorava de lacrimejar a Deolinda toda cheia de manchas vermelhas e com o dente postiço, intacto, na mão.
            - O que você diz disso Tião? – perguntou a delegada.
            - Eu não fiz nada, saí do presídio hoje cedo e, como não tinha dinheiro nem para a condução, vim a pé do Complexo Prisional de Virtuália; são três léguas da Restinga Molhada até aqui, doutora!
            - Mas foi ele que fez isto, doutora; o português da quitanda, seu Marconi, viu tudo, - ele é testemunha! – exaltada, quase berrava a morenaça jambo.
            - Tranque-o cabo; vou averiguar! – mandou a Maria Trinta e Oito.
            Tião ficou uma semana na cadeia de transição e, na segunda-feira, seguinte, lá estava ele novamente diante do juiz, juntamente com Deolinda, seu advogado, o Marconi e o advogado público defendendo o afrodescendente  Sebastião.
Foi rápida a sessão e o reincidente Tião, sem álibi nenhum, foi reconduzido ao CPV para cumprir mais três anos em regime fechado.
...
- Boa tarde Marconi separou as minhas encomendas?
      - Sim Linda, escolhi tudo de melhor para você, a morenaça mais linda de todo o Vale Virtualiano do Rio do Peixe; eu mesmo levarei quando fechar meu estabelecimento, ok?
         - Ok, portuga esperto, eu te aguardo, porém...
- Que, porém, meu pedaço?
- Eu preciso que me empreste uma quantia; o dinheiro que recebo do Estado, por estar o arrimo de minha família preso, não saiu ainda e eu não sei o motivo e preciso... - Deolinda foi interrompida:
- Eu levo, também, o dinheiro, minha linda! Lembras que dia é amanhã?
- Lembro sim; é o dia em que o Tião sai do presídio! – completou Deolinda.
- Vamos repetir a dose, cabrocha?
- Vamos sim e tem que ser amanhã quando acordarmos, mas você tem que pegar mais leve, seu bruto! – falou debochadamente e sorrindo a morena.
No dia seguinte, nove horas e quinze minutos, na delegacia;
- O que houve com a senhora, Dona Deolinda? – perguntou a delegada Maria Trinta e oito,  prosseguindo:
- Você está muito ferida, por que não foi direto a Pronto Socorro de Virtuália, o PSV?
- Tive que fugir para cá, doutora, senão o Tião me matava; foi ele que me espancou hoje cedo quando saiu do presídio! – falava e chorava a Deolinda e continuava:
- O Sr. Marconi, que me entregava umas encomendas que pedi à quitanda, viu tudo, mas não pode fazer nada, pois o Tião o ameaçou!
-Cabo Liberato, vai buscar o seu Marconi da quitanda para ver se ele confirma! – ordenou a delegada.
Dez minutos depois:
- Aqui está o português, doutora! – falou o polaco.
- Eu vi tudo delegada, o crioulo é covarde e esmurrou a Linda, digo, a Dona Deolinda prá valer!
- Escrivão já digitou a queixa dessa senhora e digite também o que o Sr. Marconi acabou de dizer e dê para eles assinarem! – ordenou a delegada.
Deolinda e Marconi entreolharam-se contendo a satisfação enquanto assinavam a queixa, porém a delegada falou alto e em claras palavras:
- A senhora está detida e o Sr. Marconi também; tranque-os cabo!
- Como detida, eu sou espancada por esse meu marido marginal  e sou eu quem vai presa?
- Deolinda, seu marido foi solto há três dias e me procurou e implorou para que ficasse preso aqui na minha delegacia, me falou que seria isto, exatamente, que aconteceria! Vamos averiguar os casos anteriores!
- Ai, Jisuis! – exclamou baixinho o português.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


O Tesouro e o Lixo

Paraíso – bairro nobre de Virtuália; madrugada de quarta-feira 03h00min.
         - Você vai ficar vendo televisão? Eu vou dormir, pois bebi além da conta! –disse Lurdes ao marido.
         -Vou, tô sem sono!
         Lurdes subiu a escada que leva até ao quarto do casal e entrou no lavabo e começou a se despir das joias e colocá-las em cima do balcão da pia, sobre as páginas de classificados da Folha de Virtuália. Eram as melhores e mais caras das suas joias. Teve que usá-las, pois não poderia faltar na formatura de medicina do filho mais velho de sua “arqui-inimiga” na “higth socielity”. Carregava consigo essa magoa já que seu único e delicado herdeiro formou-se, numa faculdade de quinta categoria, para professor de ciências e dava aula de botânica numa escola do  município.
         Colocou todas as preciosidades sobre o jornal e fez tipo um pacote e o deixou ali mesmo e, às pressas, esvaziou o estomago no bidê; bocejou,  foi para a cama e “apagou”.
         Tilzo, alguns minutos depois, desligou a TV e subiu para a suíte. Parou no lavabo do corredor e comentou consigo:
         -Pô! Que nojeira! A anta emporcalhou todo o lavabo! – pegou o pacote com as joias e jogou no lixinho do lavabo.
         ...
         Dez horas da bela manhã seguinte:
         - Luciana, você já colocou o lixo para fora? O lixeiro vai passar! – gritou Lurdes à empregada.
         - Já sim senhora, Dona Lurdes! Só tinha o lixo do lavabo! – falou Lu, descendente de polonês – uma linda mulher no auge de seus vinte e quatro anos.
         Dorival estava correndo rua acima recolhendo os sacos de lixo e jogando dentro do apropriado caminhão. Em frente à casa do empresário Tilzo, ele pegou um saco transparente – diferente dos de costume – e, viu no seu interior a parte dos classificados da Folha de Virtuália, onde leu: -“ Monte seu próprio negócio -” dizia no cabeçalho do anúncio. Apressado rasgou o saco, antes de atirá-lo dentro do caminhão, e pegou o jornal embolado como se fosse um saquinho e colocou no bolso do uniforme cor de laranja e verde.
         - Pô! Tenho que dar um jeito na minha vida. Sou formado em gastronomia e trabalho há dois anos nesta empresa coletora de lixo, terceirizada, da prefeitura; tenho que montar meu próprio negócio relacionado com alimentos!
         ...
         Passava da meia noite quando Dorival chegou ao seu cubículo, quarto e sala:
         - Hoje ‘tô pregadão! Vou tirar esse uniforme e... ah! os classificados...
Dorival meteu a mão no bolso e pegou o jornal enrolado e ao abri-lo:
         - Que é isto minha gente? É um tesouro? – realmente, eram as joias de Lurdes que Tilzo jogara no lixinho do lavabo.
         - Caramba, parecem ser verdadeiras!– deixou as joias no criado-mudo e correu os olhos nos classificado e focou num anúncio:
“Vendo barato trailer para venda de yakisoba. Motivo: Passei no concurso para gari da prefeitura, na capital.”
         - ‘Taí, amanhã vou dar uma olhada nisto! Quem sabe? Mas, e essas joias, heim? Devem ser bijuterias, com certeza! Vou, antes do trabalho, na casa da Rua Arcanjo Miguel, 484; foi lá que peguei a sacola de lixo com isto dentro!
         Dorival sequer apagou a luz e caiu no sono dos justos.
         ...
         - Bom dia, o senhor é o dono da casa? – perguntou o Dorival.
         - Sou sim, mas não posso atendê-lo agora! Espero a chegada da polícia. Houve um roubo na minha residência e creio que foi a empregada! – disse Tilzo.
         - Serei rápido, senhor! – insistiu o lixeiro.
         - Não insista, senhor! Já ajudo todos os anos a Associação dos Catadores de Lixo! – estupidamente falou o Tilzo.
         ...
         - Mas não roubei nada Dona Lurdes, eu juro! Trabalho para a senhora há dez anos! Por favor, acredite em mim! – chorava Lu.
         - A polícia vai resolver tudo! Ela já está chegando, olha lá! – apontou Lurdes para o início da rua.
         - Sr. Tilzo?
         - Sou eu sargento e a ladra é aquela “POLACA” ali! – disse Tilzo “dedurando” a empregada.
         - Entrem todos na viatura e vamos para o distrito! – ordenou o militar e continuou:
         - Você também, com de uniforme laranja da Virtualurb, serás testemunha, vamos!
         Dorival nem questionou e juntou-se a Tilzo, Lurdes e Luciana que chorava mares de lágrimas.
         - Sr. Tilzo, o senhor é um cidadão importante na cidade e esta sua acusação é muito grave e terás que provar em juízo o que acusas! Entendeu?
         - Sim seu delegado! Ela roubou uma fortuna de quase dois milhões em joias e vai ter que devolver ou provar que não roubou! – disse Tilzo.
         - Isto é o juiz quem vai decidir, no dia da audiência! Por agora é só assinarem onde estão os seus nomes e aguardar a convocação! – disse o Dr. Lauro e continuou:
         - Em casos semelhantes, a este, os acusadores estavam enganados e o juiz estipulou uma pena de 20%, do valor do suposto roubo, a ser pago ao acusado!
         - Seu delegado antes de eu assinar posso falar algo importante? – humildemente falou o Dorival.
         - Vai, fale logo!
         - Ontem eu achei este jornal no lixo enfrente a casa desse senhor – falou tirando do bolso da calça o pacote com as joias – e, quis devolvê-lo, mas este senhor não me deixou falar!
         O delegado abriu o pacote sobre a mesa e perguntou ao casal:
         - São estas as suas joias?
         - Sã...sã...são sim, doutor! A toupeira do meu marido as jogou no lixinho do lavabo ontem à noite! Só pode ter acontecido isso! – falou a Lurdes.
         - Então está resolvido! Não houve roubo coisa nenhuma! Retiras a queixa Sr. Tilzo? – perguntou Dr. Lauro.
         - Eu retiro a queixa e peço desculpas à...
         - Ele pode até retirar a queixa dele seu doutor, mas eu quero registrar a acusação de roubo e racismo! Meu patrão me acusou de ladra e me chamou de polaca, discriminadamente e, eu vou processá-lo! – falou fula da vida a Luciana.
         - E eu serei testemunha de tudo, senhor delegado! – falou Dorival olhando ternamente para Lu.
         - Escrivão comece outro B.O! As joias ficam retidas, pois será parte do inquérito! – ordenou Dr. Lauro.
         - ANTA, paquiderme...! Cochichou Tilzo à Lurdes.
         - ANIMAL, hamsterzinho...! Retrucou Lurdes.
        
        
        
         

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


FRUTA MADURA
Quinta-feira, seis de setembro, véspera de feriado.
Fugi do calorão de um inverno sem graça e seco como o ártico, fui eu e minha família para Praia do Morro no litoral capixaba. A brisa estava simplesmente divina e, enquanto todos foram ao mar, resolvi:
         - Vou dar uma fugida para Virtuália para ver o que estão preparando para o desfile do jubileu do enésimo aniversário da Hy-brazil, o paraíso perdido, onde tal cidade é a metrópole.
         Na Praça Bispo-Cardeal:
         - Ei, seu Lê, há quanto tempo hein, cara!
         - Oi, Paulo de Paulli, meu grande amigo Goró, como tem passado? – perguntei ao sóbrio e ex- etílico Paulinho.
         - Estou bem e prosperando no meu negócio de churrasquinho no palito! Você procura pelo Nhô Benzedô? Eu o vi entrando no HPSV, foi visitar a Xerequéia; ela foi operada de um esporão no pé direito. À tardezinha ele vai lá ao meu trabalho comer um espetinho de Java-porco! – informou o meu amigo.
         - Eu vou até a Escola Municipal Dona Bela Bispo-Cardeal ver o ensaio da banda e da petizada, depois eu procuro vocês lá na praça, ok?
         - Beleza, seu Lê!
          Cheguei à escola por volta das onze horas e a diretora, Dona Carmen Ferreira, estava em reunião com um pessoal da Secretaria Municipal de Educação de Virtuália e resolvi não atrapalhar e comecei a circular dentro do estabelecimento de ensino. Nunca tinha visto escola tão organizada: as paredes, todas, foram pintadas recentemente; placas de energia solar nos telhados; da cozinha e refeitório, extremamente limpos, vinha um aroma de carne cozida com legumes que me fazia salivar, pois tal carne de panela foi cozida juntamente com osso e tutano, - seria a refeição dos alunos; jardins impecáveis; banners com pinturas de personagens da história, - inclusive da turma do Monteiro Lobato -, e nos muros, que guarneciam todo o complexo, tinham poesias grafitadas em letras grandes, como por exemplo:
         -“O que o vento não levou...
         No fim tu hás de ver que as coisas mais leves
São as únicas que o vento não conseguiu levar...” (Mário Quintana)

-“ Desejo a você
 Cheiro de jardim
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Queijo com goiabada
Uma seresta
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinhos meus... “(Carlos Drummond de Andrade)

Num dos muros estava escrito os seguintes versos de Drummond:
- “No meio do caminho tinha uma pedra
   Tinha uma pedra, no meio do caminho tinha uma pedra...” – estavam entre um poste de concreto sem utilidade e um imenso tronco de mais ou menos um metro e meio de altura por um metro de largura, do que foi uma mangueira, recém-cortada, pois ainda minava resto de seiva. Aquilo me chamou a atenção e perguntei a um rapazote que tinha terminado de pintar as letras:
- O que houve com esta, que já foi uma mangueira, meu jovem?
         - A diretora mandou cortar porque estava sujando muito o pátio com as mangas maduras que caiam e a meninada chupava!
         Eu, subversivamente, peguei um spray preto das coisas do garoto e tarjeei, nos versos de Drummond, onde tinha a palavra pedra e grafitei, acima da tarja, a palavra: fruta madura. Falei ao rapazote:
         - Fale para a Dona Carmen que fui eu, o Lê quem fez isto que ela vai entender ok?
         Saí de Virtuália e voltei para a praia pedindo, em oração, perdão ao Drummond e sei que ele me entendeu.  Outro dia me desculpo com o Goró e o Nhô pela pérola que encontrei pelo caminho e me tirou do sério.



         

VIDA EM VIRTUÁLIA


A NOVIDADE DOS DOIS GAÚCHOS

No Restô, restaurante conhecido de Virtuália, cujo proprietário é Delfino Drew; apelidado de Gaúcho, o que veio da Capital do Arroz Doce Sem Canela. Ele conversava com outro conterrâneo, - o Juliano. 
            Ju, todos os sábados tem ido ao restaurante saborear, ou melhor, se empanturrar de feijoada completa; ele estava quase conseguindo engolir a última garfada da terceira rodada e, o que mais impressionava é que degustava acompanhada de dois litros de vinho tinto seco. O proprietário, preocupado com o amigo perguntou-lhe:
            - Tu achas que conseguirás passar dos 120 kg até a época da escolha do Rei Momo de Virtuália, Ju?
            - Estou...ic... esforçando-me para isso; à noite... ic... vou vir aqui comer a lasanha que te encomendei! Ok Gaúcho?
            - Sei não, meu “chapa”, tu não vais aguentar, mas estará pronta às vinte horas!
            - Sabia Ju, o nosso Estado será o primeiro a autorizar os travestis e transformistas a tirarem identidade com o nome... ah!ah!ah!...de guerra? Bah! Tchê tinha que ser logo na nossa querência? Depois não podemos achar ruim das piadas de mau gosto sobre os machos lá dos pampas!
            - E daí, Del!?
            - Eu, nas férias de final... ic... de ano, vou lá providenciar a minha e vou aproveitar e seguir uma... ic ... ic ... pista que descobri, na Internet, de minha mãe! Descobri que o cafetão que me... ic ...  criou, até aos quinze anos, ainda está vivo; descobri até que está sendo conhecido como Cica, - desabrochou... ic... ic... dentro da cadeia onde cumpre pena e sairá até o final do ano. Ele é um crioulo enorme e com... ic... ic... certeza vai oficializar o seu nome feminino e vai me ajudar na tramitação do meu!
            - Ah! Que bom prá ti, né tchê! – falou com sarcasmo o Delfino e perguntou:
            - Qual será o teu nome de guerra? Até hoje é segredo? Será Juliana, por acaso?
            - Claro que não! Eu sempre uso Lisbela, eu adooooooooooro esse... ic ...ic ... esse nome!
            -Ah! Ah! Ah! Então tu terás três nomes diferentes não é Xirú? – brincou o Gaúcho.
            - Pode parar com a “fuleragem; como assim três nomes...ic... ic... ic?
            - Juliano Shit Scheiβe, o nome oficial; Caboclo Vendaval, nome espiritual e Lisbela o nome de guerra! Ah! Ah! Ah! Ah!
            Alguns fregueses que estavam perto começaram a gargalhar ao ouvir a conversa dos gaúchos.  Juliano, meio sonolento e com os soluços cada vez mais intermitentes, “pendurou” a conta dirigia-se à saída e, enfrente à mesa, em que almoçavam: o prefeito-pastor-advogado-empresário com a família, os pastores da filial em Realópolis da ISEAV (Igreja Sideral Eva- Angélica de Virtuália) com os familiares, o delegado Carabina Doze com os familiares e o empresário Tilzo e esposa, seu estomago não suportou a quantidade de feijoada, vinho e dois pudins de pão velho da sobremesa; fez com que tudo retornasse por onde entrou.
            - Ah! Seu filho da...! – gritou Jairo Edson na sua autoridade de prefeito.
            Ju, em várias golfadas emporcalhou tudo: o pastor com a família, os pastores idem, o delegado e o empresário com seus familiares; o java-porco à pururuca, a especialidade do Restô do qual se banqueteavam - todos, afinal, foram atingidos.
            O Restô teve que fechar pelo resto do dia para limpeza. O Gaúcho, proprietário teria que arcar com os prejuízos, pois todos foram embora sem pagar a conta.
            - Mil quatrocentos e oitenta e quatro reais foi o prejuízo que me causastes tchê! – falou o Delfino ao amigo Ju enquanto lhe servia, na cozinha de sua residência, água quente com várias folhas de boldo do Chile machucadas.
            - Desculpa-me, conterrâneo! Vou te pagar com o dinheiro que receberei das minhas férias e décimo terceiro, no final do ano, ok?
            - Tá bom, tchê, mas e a nova identidade e a pista da tua mãe?
            - Vai ter que esperar para quando eu for Rei Momo e, também, ganhar o concurso de fantasia do próximo carnaval! Eu vou... aaaaaaah!...bláááááááaá´... cof...cof - tentou continuar o diálogo o Ju e continuava baldeando o chá de boldo e muita bílis.
            - Quer dizer: - Nunca! – pensou consigo o gaúcho sóbrio.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


O BEBÊ  DA  AMIZADE   ARCO- ÍRIS


        O caso do OVNI em Virtuália tornou-a uma chacota de grandeza Sideral.
               Édila Dron, dois dias depois do ocorrido, foi enviada por Orestino Treviso à Fazenda Treviso, de rizicultura, da família deste, num município do sul do país conhecida como Capital Nacional de Arroz Doce sem Canela e, lá, foi esquecida até que às duas horas da madrugada de um sábado, seis meses depois do objeto voador não identificado ser identificado e desmascarado, o telefone na casa paroquial, do Templo Mor de Vituália tocou e Orestino, que estava acordado vendo filmes eróticos no DVD, atendeu:
                - Alô, o que desejas às duas da manhã?
         - Tchê, aqui é teu tio Floriavanti, eu não tenho boas notícias para te dar! É que a chinesinha que tu deixaste aqui, desapareceu já tem três dias; procuramos em toda a região, sem a polícia e não encontramos. Se ela aparecer por aí tu me avisas, ok, “cuera”?
            - Tá certo, tio Vanti, obrigado e não fale nada com ninguém, principalmente com a polícia! – e desligou o telefone praguejando baixinho:
            - Por todos os diabos das quintas dos infernos, será que a excomungada tá vindo para Virtuália?
            . . .
            Segunda- feira seguinte, faltando treze minutos para as vinte e quatro horas:
            - Pô, Juju, não seria melhor deixarmos esse despacho lá no cemitério? Lá estaria dentro de casa! – falou Beijo à sua amizade arco-íris.
            - Não Beijinho, “my Love”, a madame queria que o feitiço fosse para a rival asiática dela chorar, como uma criança desmamada, com o abandono dela pelo seu ex-noivo! Eu sugeri a ela que tinha que ser onde um rio desaguasse em outro rio maior; por isso cobrei o triplo do que de costume!
            Depois da explicação, pararam perto onde o Ribeirão Limpo deságua no Rio do Peixe e começaram o ritual.  Hibisco, o Beijo, filmava tudo, pois foi exigência da madame que os contratou e que só iria pagar quando visse o filme no celular.
            Exatamente a meia-noite, treze minutos e treze segundos, encerrou-se o ritual. A hora estava na gravação do comprovante.
            - Pode parar de filmar, “mon’amour”, que já acabei, vamos entrar no carro e irmos embora! – disse Ju ao amado. E ao entrarem na Variant, de cor azul cobalto com as portas rosa choque, ouviram um choro de criança.
            - Juju do céu, o ribeirão está chorando igual a uma criança recém-nascida; o feitiço já começou a dar certo! – falou assustado o Beijo.
            - Que feitiço que nada, tesão, isto é choro de bebezinho, vamos ver de onde vem! – disse Juliano.
            Procuraram e espantados viram uma cena incrível: a Édila Dron tinha parido pouco adiante da curva do rio, onde a estrada ruma para o portal de entrada do Vale Virtualiano do Rio do Peixe.
Beijo, horrivelmente, assustado verificou que Édila ainda respirava:
            - Ela ainda está viva, Juju, vamos levá-la, junto com o bebê, para a Maternidade Maria Sem Salvação e... - Beijo foi interrompido pela moribunda:
            - Não... não... pre-pre-precisa eu vi... vim de carona lá do sul a-a-até na ro-ro-rodovia federal e não a-a-aguentei, e..e...eu estou mo...morrendo; SALVEM MEU FILHO! Eu... eu... nossa moço como você é feio! Eu... eu...! – e morreu.
            - Chinesa nojenta! Bem feito! Estava morrendo e me chamou de feio! – praguejou Beijo.
            - Mas eu não acho você feio, “amoré”; vamos levar os dois para o delegado Carabina Doze, ele vai saber o que fazer!
            - Por falar em feio, olhe só, este guri; isto é que é ser feio: é escuro, com olhos orientais, vesgo, com os braços mais compridos que o próprio corpo e é muito peludo! – falou Juju.
            - Mas é filho do Criador, Juju e eu sei o que é ser feio; este vai sofrer muito! – balbuciou, quase chorando o Beijo.
            - Lembre-se, Beijinho, você é a pessoa mais linda do mundo para mim e isto basta! – consolava-lhe Juliano.
            Colocaram tudo na Variant: o cadáver da oriental e o neném enrolado no veludo vermelho do despacho e rumaram acelerados para a cidade e, no caminho:
            - Já sei Juju, vamos pedir para o papai adotá-lo e deixar que o criemos como nosso filhinho, o que achas? – idealizou o Hibisco.
            - Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, meu amor, acabei de parir nosso rebento; agora eu sou a Mamy e você o Papy do... do..., bem, depois nós escolhemos o nome tá bom? – concordando com a ideia o Ju, que tem o nome de Lisbela, no seu lado feminino.
            - Será que conseguiremos Juju? – apreensivo e já amando o achado, falou o Beijo.
            - Não tenha dúvida, Papy, quem vai querer adotar essa... essa... essa, digamos, essa criatura ímpar? Só mesmo nós um “casal sui generis”! – convicto e eufórico falou o Ju.
       Alguns minutos depois, na delegacia e na presença de Orestino que explicava calma e santamente:
            - Dr. Carabina, aqui está a cópia do BO que fiz, há seis meses, quando Édila fugiu da casa paroquial, nunca mais tive notícias dela; eu não sabia onde ela andava!
            - O corpo dela vai para o IMLV e depois... - o delegado foi interrompido pelo Beijo:
            -Delegado, a minha família, Vaz Thomas, cuidará completamente do funeral e o bebê, que deixamos na maternidade, em meu nome e por minha conta, meu pai ou eu mesmo o adotarei, se a lei permitir! – falou Beijo que antes já tinha sido orientado pelo professor de ciências ocultas e zoologia Juliano Scheiβe, - a Lisbela.
            E assim foi feito.
            Três dias depois Ju, - a Mamy, Beijo, - o Papy batizaram, em companhia de toda a família Vaz Thomas e seguidores do Babacaorixá o bebê que passaria a chamar ETevaldo. O padrinho seria o jovem e paupérrimo Vigarildo Bispo- Cardeal último da estirpe de tal família quatrocentona que, desiludido com os deuses das religiões dos homens, virou auxiliar de delegado de Oriximbanda e amigo de Juliano.
        Juliano, a Mamy, agora estava vestido de delegado de Oriximbanda e escolheu aquela margem do Ribeirão Limpo para o batismo porque foi ali que Babacorixá, senhor das águas poluídas, lhe entregou o rebento.
            Recusaram a fazer o batismo:
            Pastor da Igreja Sideral Eva-Angelica de Virtuália, Jairo Edson que disse:
            - Não vou batizar essa “coisa” pode ser a encarnação do anti-cristiano!
         O vigário, pois a cúria daquele braço da Igreja Caótica Apostrófica Romana, alegou que aquela besta não era humana, e Orestino Treviso acatou aos superiores.
            Por fim, o CMV teve um enterro depois de sete anos, mas só os funcionários, além de Ju e do Vigarildo participaram. A chinesa foi enterrada sem extrema unção e sem culto, mas o Ju falou meia dúzia de baboseira e, fim.
         - A honradez, a felicidade e a tranquilidade fazem da nossa pacata Virtuália, um lugar sideral, virtual e celestial para se viver!   -falava o vigário Oristino na missa de domingo, crente que estava livre do fardo que pôs no mundo e que está sendo criado pelo “casal” da amizade arco-íris.

VIDA EM VIRTUÁLIA


AMIZADE  ARCO- ÍRIS

Zé das Flores, este era o apelido do senhor Anthon Vaz Thomas que, nos altos dos seus dois metros e quatro centímetros e com apenas setenta e oito quilos era a imagem fiel de um coveiro de contos de terror.  Seus antepassados eram irlandeses e, por acidente genético, tem um olho azul e o outro verde; rosto chupado e olheiras negras e profundas dava-lhe um aspecto horrível e terrificante da autoridade máxima que ele era: o coveiro do Cemitério Municipal de Virtuália conhecido pela sigla CMV.
            Viúvo há vinte e cinco anos, pois a esposa morreu no parto do seu sétimo filho, único rebento macho; tinha todas as crias morando consigo no campo santo. Há sete anos não se enterra ninguém em Vituália. As tarefas diárias eram zelar pelos jazigos, manter limpo o local, cuidar dos jardins, canteiros das inúmeras variedades de flores, do pomar e da horta que ele tinha nos fundos da sua casa que ficava no terreno do cemitério.
            Por ordem cronológica esses eram os filhos de Zé das Flores: Margarida e Rosa, gêmeas e tinham cinquenta e três anos; Açucena tinha quarenta e seis anos; Bromélia e Papoula, também gêmeas, com trinta e nove anos; Begônia com trinta e dois anos e por fim, o rebento Hibisco, apelidado Beijo. Beijo era o orgulho da família, pois conseguiu entrar para o serviço municipal através de concurso público mesmo sendo, praticamente, analfabeto tornou-se, a partir de então, o jardineiro oficial do CMV.
            Os sete rebentos de Zé das Flores eram solteiros, pois ninguém se atreveu ou se atreve a frequentar o cemitério para, sequer, estreitar amizades e, além disso, todos herdaram o que o pai e a mãe tinham como característica principal: - a feiura.
            Hibisco era o único desta família que tinha uma forte amizade com alguém que não era da casa e, essa ferrenha amizade, começou por causa de uma oferenda ao Babacorixá feita pelo Juliano, numa encruzilhada das ruelas dentro do CMV.
            Foi assim que começou tal “amizade”:
            Certa vez uma viúva rica solicitou os serviços do caboclo Vendaval e foi até onde o delegado de Oriximbanda atendia e, como era uma “coisa pesada”, o caboclo mandou à madame levar o trabalho no CMV. Ju pediu um valor alto e, a dona, contra propôs:
            - Se o caboclo autorizar você, Juliano, levar as oferendas ao cemitério eu pago o triplo do que pedistes, porém pago amanhã de manhã depois de constatar in loco se você deixou o despacho onde o Vendaval pediu!
            Ju, ganancioso de nascença, aceitou e na sexta-feira seguinte, que por coincidência seria treze e o mês era agosto, lá estava ele, quando faltavam treze minutos para a meia noite, na frente do cemitério. Não tinha lua o tempo estava fechado e armando uma borrasca; os relâmpagos deixava tudo mais horripilante.
- Eu e minhas ideias! – falou isso e pulou o muro de quase dois metros. Lá dentro procurou pelo jazigo da família da contratada e, ao encontrá-lo, viu que tudo estava a calhar, pois ficava numa encruzilhada de ruelas internas.
- É aqui mesmo que deixo este despacho fajuto! – falava e, agachado, ajeitava as oferendas trêmulo de medo.
Ao se levantar, quando terminou, um relâmpago demorado clareou a figura horrenda que apareceu na frente dele e, com o som ensurdecedor de um seguido trovão, Ju caiu durinho para trás.
            Passado alguns minutos, Ju despertou numa cama de granito da capela mortuária rodeado por todos da família Vaz Thomas; cada elemento com uma vela na mão, pois, com os relâmpagos sobre Virtuália, a energia elétrica foi interrompida:
- Aaaahhh! Meu grande e poderoso Babacorixá estou morto e no inferno!
- Não ‘tá não, moço, ôce tá no cemitério de Virtuália; ôce desmaiou e eu lhe trouxe aqui para nós cuidá d’ôce!- disse Beijo e após apresentar toda a família a Ju este falou:
- Nossa vocês têm nomes de flores!
- Minha mulher, Rosa Margarida, foi quem teve a ideia; e eu tenho o apelido de Zé das Flores por este motivo e não pelos jardins daqui!
- Ôce deve de ser o Juliano Scheiβe, não é? – perguntou Beijo.
- Sou sim, borrado e assustado, mas sou eu mesmo! – respondeu.
- A partir de hoje ôce não precisa mais pular o muro, é só me chamar que eu te ponho prá dentro, ok? – disse Beijo.
- Ok! – respondeu Juliano sentindo uma coisa além de simpatia pelo jardineiro, o sétimo filho de uma prole de seis mulheres que nasceram em intervalos de sete anos e todas numa sexta-feira treze. Coincidência ou não rezava a lenda que todos estes fatos induziam que Beijo viraria um lobisomem ao completar trinta e dois anos.
Já dura seis anos e onze meses a estreitíssima amizade entre Hibisco e Juliano e, todos respeitam e não falavam nada com medo das pragas de ambos e também porque o Juliano, por qualquer coisinha, falava em processar quem o atormentasse. Só Nhô Antônio Benzedô falou a verdade sobre essa amizade colorida como o arco-íris:
- Nu amô num ixisti cor; num ixisti riqueza i nem pobreza; num ixisti podê i nem miséra; num ixisti machu ô fêmea; num ixisti beleza i nem fiúra, afiná, num ixisti sentimentu, nem palavras e gestu qui ixplica o amô verdadero, misifio!
           


sábado, 1 de setembro de 2012

COISAS DA VIDA


IMORTAIS SENHORES DE SI MESMOS

            171.171 anos AEM (*)
            O sol castigava as planícies, vales, montanhas, mares, rios, lagos, enfim, todo o planeta. A seca assolava geral, mas Hungh, na sua esperteza, colheu e guardou, para ele e os que o acompanhava, grande quantidade da planta super verde que, quando mascada, dava ânimo, euforia, alegria e deixava tudo melhor naqueles dias de vida duríssima. Porém com o passar do tempo até os pés colhidos e armazenados no fundo fresco da caverna estavam secos e difíceis de mascar.
            Certo dia Hingh, filho de Hungh com Hangha, beirando seus dez anos, brincava na entrada da caverna com um galho seco da planta e um pedaço de cristal. Ele colocava o cristal diante dos olhos e sorria vendo os tamanhos das formigas, que estavam tirando nacos das folhas secas do galho, com o qual brincava aumentarem seus tamanhos. Num determinado momento o sol, a pino, fez com que sua incidência sobre o cristal, provocasse fogo na planta seca. Hingh começou a gritar e seu pai veio acudi-lo:
            - Hingh up ag ting fog ig?   (traduzindo: - Hingh, o que houve?)
            - Hingh fex lux fol id fum!  (- Hingh fez luz e fumaça!)
Hungh pegou o galho que queimava e produzia muita fumaça e a aspirou. Ao inalá-la deu um grito:
            - Iiiiiiiiiiiiçá! Ist it meg masc! (- Içá! Isto é melhor do que mascar a planta!)
Hingh explicou ao pai como havia conseguido por fogo na plantinha seca; e a partir daquele momento foi inventado o isqueiro natural e uma moderníssima ideia veio à cabeça de Hungh: Trocar pequenas porções da planta seca por pedaços de carnes, frutas, raízes, peixes, peles e, etc... Ele fornecia, ainda, um caquinho do isqueiro natural e ensinava a usá-lo.
            Espalhou-se pela planície, daquela região, a mágica que Hungh trocava por víveres e isto o tornou poderoso.
            Fungt, um pretensioso a tomar o lugar do chefe dos nômades e com inveja, roubou uma grande quantidade das plantas secas de Hungh e fugiu para o outro lado da planície. Fornecia a quatro amigos enormes, que o acompanhou, quantidades da planta e deu a cada, um pedaço do cristal mágico, isto, em troca de sua proteção.
            A seca prosseguia e já durava um ano. Fungt e Hungh entraram em guerra tentando tirar um do outro o que ainda restava da planta seca.
Os indivíduos se matavam por um galhinho por mais pequenino que fosse. Estavam dependentes da fumaça que ele produzia quando queimado; porém não existia sequer um ramozinho em lugar nenhum conhecido por eles.
            Não chovia a mais de um ano e nada brotava naquela região do planeta e o que existiu esturricou-se pelo infernal calor. Todos que habitavam aquela região pereceram e com eles o segredo da planta que, queimada, produzia uma fumaça que, ao ser inalado, dava uma ilusão idiota que os tornavam “imortais senhores de si mesmos”.

            Será que a mágica descoberta pelos aborígenes pereceu com eles? Será que a ideia de Hungh, assim como a planta, se alastrou?

(*)AEM = Antes da Era Moderna