segunda-feira, 9 de julho de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA



O lobisomem de Cardeal

Periferia do subdistrito de Cardeal, - Virtuália.
Xerequéia encheu o coxo de Libélula de lavagem que ganhou  no decorrer do dia:
-Nossa, Lili, como você cresceu neste último ano! Já deve de estar com mais de cinquenta quilos! Lembro-me quando o Paulinho Goró “me” deu você de presente... você era tão magrinha e frágil que coloquei o nome em você de Libélula! – conversava com sua porquinha de estimação e, continuava:
- Vem comer em paz que eu vou dormir hoje eu estou muito cansada! A noite já está alta e amanhã, apesar de ser sábado, tenho que sair à procura de sucata  recicláveis! Xerequéia fechou a porta da antiga cabine do DeSoto modelo 1952, deixada pelo amigo Goró. Apagou a vela e, em seguida, dormiu no surrado colchonete.
Por volta da meia noite, daquela sexta-feira treze de agosto, a sempre alegre Xerequéia, acordou de sobressalto com um rosnado horrível, mas não se atreveu a se levantar para ver; por uma fresta viu um vulto horrível passar correndo rumo à sanga.
Amanheceu e, a catadora de recicláveis, chama por Libélula:
- Cuch... cuch...cuch...cuch...cuch! – e nada de ela dar sinal de vida.
- Ah! Meu Deus! Foi o lobisomem que eu vi ontem à noite;  ele veio buscar a minha Lili! – chorava a Xeré.
Logo Paulinho Goró, ao ficar sabendo, veio para prestar ajuda à velha amiga:
- Tem razão “mana”, foi o lobisomem! Olha as pegadas dele; parece de porco, mas é bem maior! Acho que a porquinha “já era”! Estão dizendo, por aí, que em vários lugares do povoado, estão sumindo com porcas tipo a Libélula! Tem lobisomem na área “mana”!
...
Dois meses se passaram e, numa noite agradável de primavera, Xerequéia acorda assustada com algo fuçando e fungando os seus pés:
- LIBÉLULA! Você voltou? Onde é que você estava Lili? – realmente era a sua porca de estimação.
- Nossa como você está gorda, aliás, barriguda... ora...ora... você está prenha, não é? – falava isso cobrindo o focinho da suína de beijos e afagos.
No outro dia Paulinho foi o primeiro, a saber, da novidade e disse cheio de sapiência:
- Então não foi lobisomem - ou foi, mas a Lili conseguiu fugir assustada e só agora achou o caminho de volta! Olha “mana”, ouvi dizer ontem à noite, lá no meu carrinho de churrasquinho, que na fazenda do Timbó sumiram duas porcas de raça! Hoje vou ficar de campana, à noite, e pegar esse tal de lobisomem numa armadilha de laço, isto se ele aparecer! – e assim foi feito.
Na terceira noite, Paulinho sempre ia depois da meia noite quando encerrava seu expediente no seu serviço. Escondido e cochilando, perto do cercado da Libélula, acordou por volta das cinco da manhã com um barulho de alguém tropeçando na armadilha e caindo no laço:
- Peguei-te, lobisomem! – gritou Pulinho.
Paulinho deu uma única e certeira paulada na testa do lobisomem que morreu instantaneamente. Goró fez um dos seus costumeiros alvoroço e foi tão grande que em dez minutos já tinha uma multidão para ver o estranho animal. Foi Pauli, fumante aloprado, acostumado a caçar, que reconheceu o bicho:
- Isto não é lobisomem coisa nenhuma! É um javali ou queixada e é adulto! O tamanho enorme das presas dá para ver isto!
De repente:
- Ohhhhh... ohhhhhhh! – espantadas e com meiguices algumas senhoras soltaram esta exclamação. Era a porca Libélula que veio até ao javali e começou a esfregar seu focinho no do amado morto. Todos perceberam o acontecido. O javali veio visitar a sua amada e se deu mal.
Xerequéia levou a porca imensamente gorda de volta para seu cercado e Paulinho ficou de dar um sumiço na carcaça do animal morto. E deu. A partir da noite seguinte o espetinho com churrasquinho de carne de porco, vendido por ele, era especial e de carne exótica, mas ninguém notou a diferença na aparência da carne.  Ele também não falou para ninguém. Só o sabor que era mais delicioso.
Alguns meses depois Libélula deu cria a uma ninhada de nove leitõezinhos estranhos. A ninhada toda foi prometida ao Paulinho Goró pela sua amiga Xerequéia.
A população de Virtuália iria experimentar, em breve tempo, um novo churrasquinho no palito preparado pelo “expert” Paulinho Goró:
Churrasquinho de carne de javaporco.
 VVV

domingo, 8 de julho de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


VIDA EM VIRTUÁLIA


Tecnologia

Inverno de 2011, 20h15minh, temperatura -1º C, - a menor temperatura do ano em Virtuália.
- Tirzo, você não ouviu o interfone? Veja, na imagem da microcâmera, quem é! – gritou Lurdes enquanto calibrava o ar refrigerado central de última geração, de toda a casa, para 22º C.
- Está bem, vou verificar!
- O que a senhora deseja? Responda apertando o botão preto, perto desses números, aí, no painel! – explicou Tilzo à maltrapilha que tiritava de frio.
- O... o. senhor... te-tem sobras de comida ou... ou... um pão-dormido para matar minha fome?
- Não, não tenho! Passar bem! – respondeu rispidamente o marido de Lurdes que chegava, perto de Tilzo, perguntando:
- Quem era afinal?
- Era uma mendiga! – respondia e colocava o DVD do filme: Vinhas da Ira, de John Steinbeck, de 1940, originalmente em preto e branco, no Blu Ray para assistirem nas 55” da novíssima televisão 3D de LED.
Lurdes foi à janela e, entre as lâminas da persiana, viu a mendiga atravessar a avenida, indo até a praça, em frente a sua casa, aproximou-se de um grupo de moradores de rua que estavam se aquecendo e tostando pão preso na ponta de um galho fino nas chamas do fogo que colocaram num latão de lixo. Lurdes viu quando um dos maltrapilhos abriu um surrado embornal, tirou um pão velho, espetou numa varinha e entregou à velha, que sorrindo estendeu-o até às chamas para tostá-lo.  Balançando a cabeça horizontalmente para os lados, a dona da mansão, falou:
- Nossa, que coisa horrível, a lindíssima praça, recém-reestruturada está parecendo um acampamento pré-histórico!
- Pois é, querida, aquela dona queria pão velho ou sobras de comida; será que ela nunca ouviu falar em micro-ondas ou nos modelos novos de multi-grill e que com esses eletrodomésticos de última geração não desperdiçamos mais nenhum alimento? – falou Tirzo entre o som de um apito de alerta.
- Ouviu o apito da pipoqueira digital, Tirzo? Vai lá buscar as pipocas!- imperou Lurdes enquanto manipulava o display de cristal líquido fluorescente e que pode ser usado no escuro, de sua poltrona-massagista-relax importada e de tecnologia americana. 
 

VIDA EM VIRTUÁLIA


Fruta Verde

            Quando era pequeno, Thales achou caído, às margens da rodovia que liga Virtuália a Realópolis, uma plantinha enterrada dentro de um balde com terra vegetal. Levou para casa, com certa dificuldade e seu padrasto, o qual chamava de Padim, logo foi lhe perguntando:
            - Onde você achou isso, moleque?
            - Na rodovia, Padim, deve de ter caído de algum caminhão de mudança!
            - É bem provável! – falou Maneco arrancando uma folha, esfarelando e esfregando-a entre as mãos e continuou o diálogo:
            - Pelo cheiro da folha deve de ser de maçã; vou plantar lá no meio do quintal, daqui a uns três anos vai virar uma árvore cheia de maçãs! – e assim o fizeram.
            Passaram-se três anos e meio e Thales, agora com quase doze anos, chamou o padrasto lá embaixo da macieira:
            - Padim, corre, vem vê prôce vê! – seu Maneco, há dois anos aposentado, correu perante a insistência do enteado:
            - O que é moleque, viu um fantasma?!
           - Não Padim, é que achei uma maçã na árvore! Será que ela só vai produzir uma única fruta?
            - Não mexe nela, deixe como está daqui a um mês vai ‘tá vermelhinha! – disse o Maneco.
            ...
            Um mês depois:
            - Padim, a maçã que o Senhor falou que não era para tocá-la, caiu do pé, olha só! – falou Thales. A maçã havia caído e se esborrachado no chão e o Maneco, que tinha ingerido “umas e outras”, veio furioso:
            - Foi você quem a derrubou seu filho da @#*&%$#@#*#%$#@; ela cresceu e, agora que ia ficar vermelhinha, você a derrubou! – falava alto e esfregava o rosto do menino na maçã, caída no chão, e, ao mesmo tempo aplicava-lhe vigorosas palmadas no traseiro.
            - Pára Padim, não fiz nada, ela caiu sozinha! – chorava e tentava se desvencilhar o pequeno. O ignorante do padrasto fê-lo comer, à força, o que restou da fruta suja no próprio chão de terra e, na sua fúria, cortou a macieira, com um machado, rente à raiz.
            Thales nunca mais esqueceu o ocorrido: o cheiro da fruta suja de terra; o gosto azedo-adocicado da fruta; o barulho do pé de maçã caindo; o instante de fúria do perdoado padrasto e, nunca mais quis saber e maçã.
...
             Vinte e dois anos se passaram e às duas horas a manhã:
            - Thales, meu amor, eu estou com um desejo louco de tomar suco de maçã verde, por favor, vai buscar no supermercado vinte e quatro horas... por favor... eu...eu...
- Pô, querida, é o único suco que não temos em casa?!Eu vou, pois não quero ver meu filho nascer com a cara dessa... dessa... fruta!
- Ah! Como odeio maçã! – falou baixinho.
No supermercado, vinte minutos depois:
- Deu R$4,70 meu senhor! – falou o atendente. Thales deu-lhe R$10,00 e o senhor do caixa disse-lhe não ter os trinta centavos em moedas e, deu-lhe três balas.
             - Mas eu quero o troco em dinheiro, isto é um direito meu!
           - Senhor, pelo adiantado da hora é impossível eu conseguir três moedas de dez centavos; queres cancelar a compra? – disse lhe o caixa que era parecidíssimo com seu falecido padrasto, tanto na aparência, quanto na voz e na falta de humor.    
Thales pegou a sacola plástica com o suco industrializado, jogou as três balas dentro e acelerou para casa.
- Ah! Meu amor que delícia, eu e teu herdeiro lhe agradecemos!- disse a esposa no quinto mês de gestação, saboreando suco.
- Ok, mas dá licença que não suporto nem o cheiro desta fruta; tem três balas que trouxe de troco. Está dentro do pacote no qual veio a caixinha de suco, você quer?
            - Quero sim! – Rose pegou as balas e disse-lhe:
- Olha que coincidência, as balas são, também, de maçã verde?!
  A memória de Thales trouxe-lhe toda a cena vivida com o marido de sua mãe e aquele equivoco com o pé de maçã verde.
             No outro dia Thales chegou em sua casa com um pacote com 200 balas de maçã verde e Rose, espantada, perguntou:
          - Que é isso, amor, o meu desejo de maçã verde já passou, aliás, tantas balas assim tá me dando náuseas... eca!!
  No dia seguinte, ás duas horas e dez minutos, Rose cutucou seu marido que dormia profundamente:
- Benhêêê, estou doida de vontade de comer melão verde; rabanete; manga verde; pepino; milho verde; beterraba; banana verde; quiabo; tomate verde; inhame e maçã-verde, tudo isso, numa salada temperada com molho verde! Tô que não me aguento de desejo... por favor... benhêêê...por favor...por favor...por favor!
  Thales se levantou, pegou uma sacola com um pacote dentro e foi ao supermercado:
- São R$19,70! – disse-lhe o mesmo senhor do caixa da noite anterior, sósia de seu padrasto.
- Só um minuto que vou até meu carro pegar com o que pagar estas compras! – disse-lhe o Thales.
Retornou, pegou as compras e jogou o pacote com as duzentas balas no balcão do caixa dizendo:
- Aí tem duzentas balas de maçã-verde que, a R$0,10 cada uma, darão R$20,00; pode ficar com o troco!
           O senhor do caixa não tentou, sequer, questionar e Thales saiu com um estranho sorriso de satisfação no rosto.



segunda-feira, 2 de julho de 2012

VIDA EM VIRTUÁLIA


OSCARZINHO, O PROFESSOR  

"Cidade Virtuália.
Praça bem cuidada; canteiros repletos de flores diversas o que dava um efeito visual e uma mistura de perfumes indescritível.
O proprietário da universidade, localizada em frente, patrocinava os insumos, mudas e preço da mão-de-obra dos dois jardineiros. A prefeitura só fazia aguar todas as tardes as 17h00min h, regularmente.
Todos os bancos, da praça, dezenas deles, eram patrocinados e, nos encostos, tinham propagandas das várias lojas dos muitos bairros da cidade.
Num desses bancos estavam dois estudantes, por volta das nove horas da manhã, apavoradíssimos e preocupados, pois não conseguiam resolver um exercício de mecânica quântica e, este, valia a nota do mês além, de um prêmio estipulado pelo professor Oscarzinho. Este professor era um fanático pelo que lecionava Mecânica Quântica e Física Nuclear.
Um dos estudantes lia em voz alta o enunciado várias vezes e... nada! Os dois rabiscavam, rabiscavam e... nada!
Num banco próximo um senhor maltrapilho prestava atenção naquilo e como tinha problemas com a fala e ainda tinha o rosto torto, aliás, mais torto que os próprios braços, pernas e pés, gesticulava horrendamente:
     - Ãhn, ãhn, ô, ô, ô, ôoooooo! - balbuciava o coitado fonemas indecifráveis, aos jovens, apontando para os papéis e lápis que estavam ao lado deles no banco.
   - Pô! já está difícil de resolver este exercício e ainda esse sujeito fica nos importunando. Vamos sair daqui, Aarão!
     - Está certo, Abraão, vamos para outro canto!

Falaram isto e entraram no campus universitário deixando sobre o banco alguns papéis e um toquinho de lápis.
O mendigo mudou, com sacrifício, de seu assento para aquele banco. Pegou o lápis e papel e com tremenda dificuldade fazia anotações no pedaço de papel e, sorria desengonçado como se estivesse sentindo prazer no que rabiscava.
    - O que está rabiscando nesses papéis Stephen? - era um professor que sempre conversava com o maltrapilho; eles se entendiam muito bem e tinham assunto para horas infindas.
O Stephen mostrou o papel para o professor que pegou nas mãos, olhou e sorriu satisfeito:
    - Ah! Ah! Você é um gênio. Depois a gente almoça junto e conversamos. Agora tenho que dar uma aula. Até...
O Stephen balançou a cabeça afirmativamente e o professor entrou no campus levando os escritos do Stephen.
Adentrando na sala, confortável, de aula, todos se levantaram. Era praxe em Virtuália o respeito pelos mestres desde o pré-escolar. O professor disse:
     - Bom dia! Sentem-se, por favor, e, pela ordem alfabética de chamada, podem começar a entregar o exercício que mandei resolverem; entreguem de dois em dois!
      - Aarão e Abraão, podem vir!

Aarão levantou-se e disse:
     - Não conseguimos resolver, mestre. Nem eu, nem Abraão e ninguém da classe!
O professor pediu que Aarão se aproximasse do quadro de 70" touch de LED (último tipo de quadro negro - só em Virtuália), entregou o pedaço de papel do Stephen e disse:
      - Copie isto no quadro, é a solução; depois eu explico!
Aarão e Abraão se entreolharam, reconheceram o papel amarelo e não disseram nada. Não tinham o que falar.
E o professor Oscarzinho imperou:
    - Amanhã, prova de toda a matéria de Mecânica Quântica. Vou somar com a nota zero do exercício, que não fizeram e dividir por dois!”.

    - O invólucro da alma não reflete a essência do espírito! – Lefus o Anti-eu

Virtuália, e tudo que nela existe,  é uma localidade de realidade virtual e está nas fronteiras do real com o imaginário.

domingo, 1 de julho de 2012

Arizinho


           Ari estava encostado, quase sentado, no capô de um automóvel de luxo; era o modelo mais moderno daquele ano. Nisto chega um soldado e um sargento recém formado, responsáveis pelo trânsito naquela área e, este o intima:
          - Tire esse carro daí, tchê! Não vê que aí é estacionamento de carros oficiais?
 Ari, nascido em Mato Castelhano, - planalto médio gaúcho, perto de Passo Fundo-, sujeito gaiato, bem apessoado, maleva e criado a revelia, andava sempre muito bem vestido apesar de viver como autônomo no ramo de capina de pastos e limpando terrenos a quem lhe procurasse. As suas roupas eram lhes dada pelo irmão, dois anos, mais velho, - um juiz do trabalho na comarca de Virtuália. O cargo importante do irmão lhe dava uma falsa autoridade:
         - Eu não vou tirar e não tem ninguém que me faça tirá-lo daí, tchê! 
         - Ah é! - bradou o sargento enquanto ligava de seu telefone móvel para o guincho vir rebocar o carro e levá-lo ao depósito municipal. Em cinco minutos o guincho, que estava nas imediações, encostou-se à frente do luxuoso automóvel. Arriou uma parafernália para debaixo das rodas dianteiras e levantou a frente do carrão. O ajudante do guincheiro entrou debaixo do rebocado e cortou o cabo do freio de estacionamento liberando as travas das rodas traseiras. Ari, então, saiu de lado e o sargento já preenchendo a multa, pediu os documentos dele e do carro.
         - Estou sem meus documentos e o do carro eu não tenho! -respondeu-lhe Ari. O sargento resmungou um indecifrável palavrão e fez sinal para o guincheiro recolher o carrão. Quando o guincho já estava a uma quadra de distancia o sargento ouviu um grito firme, grave e raivoso:
         - Sargento, que diabos tu estás fazendo? Por que rebocou meu carro novo? Não vistes o símbolo da brigada no para-brisa? -era o coronel comandante de a Brigada Militar da região. Ele deixara seu carro, particular, na vaga de veículo oficial para ir ao banheiro de um bar, pois estava com uma doída e solta indisposição intestinal. O sargento, sem saber o que falar, olhou para os lados e viu o Ari se distanciando e acelerando uma antiga e surrada bicicleta Monark 60 - aro 28, numa trilha, mato à dentro.

sábado, 30 de junho de 2012


Guretinha

Tarde quente e seca na parte baixa da Rua Halfeld, na majestosa Juiz de Fora. Aliás, todo Minas Gerais passava por aquele clima esquisito em pleno mês de julho.
            Maria Gorete, carinhosamente chamada de Guretinha, lá vinha, a passos lentos, descendo tal rua. Roupa surrada, mas limpa; sapatos velhos, mas engraxados; sua inseparável sombrinha lilás desbotada, mas perfeita. Estava aflita para mudar da antiga e atual residência para os dois cômodos nos fundos da casa de seu neto, o Danilo. Por isso é que ela se aventurou a percorrer a pé até depois do movimentado calçadão da Halfeld, atravessou a passarela da ferrovia e foi até o largo da prefeitura. Ali, naquele trecho, ela conseguiria alugar um caminhão pequeno para carregar seus móveis. Móveis? não, não eram móveis e sim quinquilharias de quase setenta anos; mas eram seu tesouro.
            Guretinha escolheu o caminhão menor que por sinal era o mais novo. O dono, o Natal, estava sentado no estribo com a porta escancarada.
            - Boa tarde, meu jovem! Quanto você cobraria para levar a mudança de uma velha do bairro Bandeirantes até Filgueiras, - são uns quatro quilômetros, eu acho?
            - Para a Senhora... tome é  este preço que anotei no meu cartão. Nele tem meu telefone e é só me ligar marcando o dia. Ok! Minha senhora?
            Guretinha pegou o cartão, olhou o preço e não esboçou nenhuma reação e disse:
            - Está bem, meu filho, eu telefono!
            Virou as costas e quando foi dar os primeiros passos ouviu um enorme barulho de porta de caminhão fechando. Era o Natal que, sempre, batia as portas do caminhão.
            - Eh!.... por favor, moço, esse caminhão é propriedade sua? - perguntou Maria Goreti.
            - É sim, vovó! E ele ainda está sobre a garantia da fábrica! Algum problema?
            Guretinha pegou o cartão, com o telefone e o preço anotados, rasgou-o em vários pedaços e jogou num cesto de lixo que fica fixado nos postes de iluminação da rua. Falou em seguida:
            - Se tratas teu patrimônio assim...! - seguiu andando rumo a um caminhão velho aos extremos, mas bem limpo; o chassis era antigo, mas bem engraxado; a carroceria de madeira estava toda remendada e amarrada com arame, mas perfeita e nela algumas letras manuscritas com pirógrafo: “NÃO JURGUE PELA APARENÇA, FASSA VOCE O PREÇO”.  O “chauffeur”, seu André, era o proprietário, não  menos que cinquenta e cinco  anos, daquele tesouro.