sábado, 2 de fevereiro de 2013

COISAS DA VIDA


Monólogo com um símio

BR-319, Manaus/AM – Porto Velho/RO, Km-171 (não é gozação ao código penal).  Meados de maio de 1979.
Estávamos há duas semanas naquele canteiro obras da Consag (Construtora Andrade Gutierrez) que mantinha a conservação daquela rodovia federal. Eu e outro técnico concluímos ¾ do inventário físico/patrimonial daquele canteiro:
- Hoje é terça-feira Lê, no ritmo em que estamos sexta, à tarde, vamos para Manaus e pegarmos o voo que nos levará para Belo Horizonte!
- Certo! Sexta à tarde, nós vamos para Manaus, mas eu vou ficar sábado lá; tenho uma lista de importados para comprar até estourar a cota de quinhentos dólares. Domingo eu embarco para a capital mineira – respondi ao José Carlos e levantei-me da mesa do almoço do, “saúnico” (cruzes, que palavra), refeitório e, o Zé me zombou:
- Já sei você vai lá admirar a onça ferida e dar sua maçã, da sobremesa, ao Chico! Estou certo?
- Acertou! Eu não suporto vê-los naquelas jaulas. Deveriam soltá-los, pois já estão quase curados!
...
            Parei defronte a jaula do Chico. Chico era um macaco-barrigudo da família dos cebídeos. Era um espetáculo de primata na sua cor alaranjado-ocráceo, apesar do olho esquerdo vazado:
            - Meu amigo Chico, deve ser difícil você ficar nessa jaula com esse paraíso e liberdade à nossa volta! Mas, fique tranquilo que é só até sua perna se curar, entendeu? – o macaco ficava só me encarando sem esboçar nenhuma reação ou sentimento. Espichei a mão para dar a ele a minha sobremesa – uma maçã argentina. O Chico continuava do mesmo jeito a me olhar e inerte sequer deu atenção à fruta que fiz rolar até ele.
...
Nos dias atuais, trinta e três anos após, com meu netinho de um ano no colo, no zoológico em Belo Horizonte, diante de um espécime da mesma família do Chico e:
- Incrível! Ele tem o olho esquerdo vazado – o macaco nos olhava quieto e fixo.
Nos dias de hoje, depois de muito tempo, me “toquei” e entendi que aquele símio, lá do interior do Amazonas, estava se comunicando comigo à sua maneira. Ele deve ter pensado:
            - “Gorilas me mordam”! Que “pelado” idiota! Não sabe que, por falta do 1% dos genes – os da inteligência ilimitada, da fala e do raciocínio lógico -, eu não posso lhe responder? Ah! Se eu pudesse, eu diria a ele onde enfiar essa fruta sem graça importada das terras dos gringos! Pare de me encher o saco e “VAI PENTEAR GUARIBA!” ou então “VAI ABRAÇAR UM TAMANDUÁ!”.



sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

VIDA EM VIRTUÁLIA


ARRET
A NOVA MORADA


 O Casório

            A patroazinha, após as festas de final de ano, me disse:
            - Não vou mais esquentar a cabeça com lojinha de especiarias culinárias. Vou dar de presente para a Ana Paula que trabalha comigo, neste negócio, há cinco anos!
            - Se é isso que você quer e, está decidida, eu farei toda a tramitação. Primeiro você faz a rescisão da Ana Paula e só depois você transfere tudo para ela – instruí a desencantada empresária.
            - Ana vai casar em meados de março com um fornecedor nosso e, este será nosso presente para ambos. Já que me aposentei este mês, dedicarei, exclusivamente,  o resto de minha existência a ti e a nossa família! – falou a Rô olhando-me fixamente.
            - Mais do que te dedicas? Isto que é presentão! Retribuir-te-ei com quarenta dias de férias, ou seja, dez dias no sítio do Thiago, como ele já prometera e autorizou, mais trinta dias na praia de Salinas no litoral paraense. Vamo-nos a partir de vinte e seis de Janeiro próximo.
            - Que ótimo! Em março temos que estar aqui na cidade, pois seremos os padrinhos de casamento da Aninha com o Wellington, ok?
            - Então está resolvido! Vou encerrar uma auditoria dia vinte e cinco de Janeiro e só voltarei à ativa depois do casamento da Ana Paula. Deixo os preparativos para as nossas férias contigo, pois vou ter que dedicar tempo integral para eu estar liberado em tempo hábil.

            Vinte e seis de Janeiro, sábado, oito horas da manhã; dentro da GMC 1955:
            - Tudo pronto, Rô?
            Tudo! É só colocar os cintos de segurança e rumarmos para o sítio perto do parque ecológico de Ibitipoca! – respondeu-me.
            - No dia trinta e um de Dezembro, último, quando passamos por aqui... – fui interrompido:
            - Eu me lembro! Vamos parar , pelo menos,  dez vezes até chegar ao sítio, não é?
            - Sim! Estamos de férias e com tempo. Vamos ver as mudas de atêmia que plantamos. Você concorda?
            - Claro! Não precisava perguntar; eu também quero ver como elas se desenvolveram – respondeu-me.
             No primeiro riacho paramos perto de uma goiabeira silvestre e minha cara-metade espantada me disse eufórica:
            - Olha Lê, lá está a primeira que plantamos. Meu Deus, como ela se desenvolveu!
-  Como é gratificante ver que cooperamos com a flora e a fauna, não é meu amor – com os olhos marejados disse-me a sentimental esposa.
            - É mesmo! Esta nós plantamos a trinta metros do riacho e ela está agora com quinze centímetros. Lembra que fomos reduzindo a distância ente as plantas e os cursos de água?
            - Sim claro! Foi no “olhômetro”, mas foi assim!
            Quando chegamos a uns três quilômetros da estrada do sítio, fomos até as últimas três mudas; esta cerca de cinco metros do riacho:
            - Viu Rô? Estas estão com quase vinte centímetros e estão mais vistosas!
            - É mesmo! Quanto mais perto dos cursos d’água, melhor se desenvolvem.
            -A natureza é sábia. Veremos quais frutificarão primeiro e a qualidade dos frutos.
            - É mesmo, mas teremos que esperar um bom tempo – pensativa falou-me a Rô.
            No sítio só eu e minha esposa. Só daqui a dez dias é que meu filho virá com sua família. Até o caseiro foi dispensado. Thiago deu-lhe vinte dias de férias - dez dias o funcionário quis vendê-los.
            Liberdade total e merecida. Eu, a Rô, o silêncio da humanidade, o som do ribeirão, o cheiro do mato, a sinfonia dos pássaros, as noites estreladas e límpidas. O que mais faltava? Nada! Nem tempo para desfrutar de tudo.
           
            Como sempre, às cinco horas acordei. Deixei a Rô esparramada na cama king size e fui à espreguiçadeira da  piscina e lá soltei meu corpo; fiquei a olhar o céu. Um brilho passava acelerado rumo ao nascente e não é meteoro porque parecia ser guiado por alguma inteligência, pois parava abruptamente e depois acelerava.
            - Só não acredita quem não quer, mas que eles existem, existem!- pensei alto.
            - Em breve estarei rumando para Arret com meus amigos. E por falar neles, como andarão os preparativos para a viagem? Como será que...

            - O que aconteceu seu Lê? Precisa de ajuda – perguntou-me o delegado Carabina Doze quando me viu parado com a GMC 1955 de capô levantado e olhando o motor.
            - Obrigado, Carabina, mas não aconteceu nada. Pensei ouvir um barulho estranho. Deve ter sido só uma pedra que bateu no cárter do motor.
            - Esta estrada que vem de Realópolis, passando pelo subdistrito de Bispo cardeal, indo para Virtuália, às vezes tem pedregulhos soltos. Como sabes é proibido, por lei municipal, asfaltá-la. Este local é preservado pelo IVTA – Instituto Virtualiano de Total Preservação. Por aqui transitam muitas espécies de animais silvestres – explicou-me o delegado (se bem que eu já sabia de tudo).
            - Tem razão o IVTA. Passo por aqui porque me dá prazer ver tantos animais livres sem medo dos humanos e também porque... – fui interrompido:
- Já sei: porque é mais perto do “cafofô” do Nhô Antônio Benzedô; não é isso?
- Acertou delegado!
- Só que há “essas horas” ele já deve de estar saindo de casa para ajudar, o Biliato e o Lezivo, a preparar as “comilanças” para o casório.
- Casório? De quem, Carabina? – perguntei-lhe.
- Do Paulinho Goró! Vai dizer que não sabia?
- Não, não sabia. Quanto à vida particular o Goró é muito reservado – respondi-lhe.
- Isto é mesmo, mas a noiva foi publicamente na rádio e falou:
“- Eu estou aqui na rádio para estar anunciando que vou estar me casando com o Paulo Di Pauli domingo dia vinte e sete de Janeiro doze horas. Estou convidando todos para o casório, na capela do CMV, onde vamos estar recebendo a cumprimentação.”
- Obrigado por avisar-me Carabina! Vou acelerar a GMC e pegar o Nhô saindo para a cidade!
- Passei em frente ao sítio e vi que tinha luz acessa. Ele deve de estar lá, ainda, porque vi o Bitencourt pastando perto do ribeirão e, eles, com certeza irão para Virtuália na carroça!
- Tá legal! Vou acelerar e, se mal lhe pergunto: - o senhor está indo aonde?
- Para Bispo - Cardeal! Ligaram para mim em minha residência falando que viram o chupa-cabras na periferia daquele subdistrito ontem há “essas horas” e que já matou cinco cachorros – respondeu-me o Carabina Doze.
- Ok, Carabina! Precisando é só me solicitar!
- Podes crê, seu Lê!

            Perto do sítio do Nhô Antônio, quinze minutos depois, eu toquei a buzina da GMC.
- Ah! Dei sorte, ele ainda não atrelou o Bitencourt na carroça – pensei e, realmente, lá estava ele na cozinha passando o café.
- Bom dia, seu Lê! Qui bão qui ôce chegô. Ieu tava ti isperanu, pois nóis  vamu sê padrim du Goró. Num vai dizê qui num sabia si foi ôce memu qui garantiu qui ielis iam fica juntu!
- É mesmo Nhô! Foi eu quem incentivei esse casório, ah! Ah! Ah!
- Quem diria que o Goró, de bebum inveterado passaria a empresário e agora um homem sério e formador de família.
- Ôce, misifiu! Ôce falô, iscrivinhô i aconteceu, eh! Eh! Eh! Eh! Ôce sempri apareci na hora certa. O café tá prontu i tem: broa, queju frescu, mé, mamão, melância, ovu mixidu cum erva e sucu di romã! Podi si servi, misifiu!
- Café da manhã cinco estrelas, Nhô! Como o senhor conseguiu suco de romã - indaguei-lhe.
- Si alembra das sementi qui ôce mi troxe a muntchu tempu?
- Sinceramente não me lembro “véi”!
- Poizé, nem ieu mi alembrava qui joguei ielas lá na mata fechada pertu da nascenti du ribeirão. Ostru dia fui atrais di uns nhambu qui vi vuandu prá lá e vi umas romãzera bem grandi e carregadinha di fruta. Coí argumas e fiz sucu. Ficô danadu di bão; cada sementi era cuberta pur muntchu líquidu vremeiu!
- Ah! Tô me lembrando! Eu trouxe umas romãs da casa da minha mãe lá da capital. O meu filho mais velho plantou dessas mesmas sementes no sítio dele. São descendentes da romãzeira lá de Muriaé-MG, do jardim da Dona Amélia. Como o senhor conseguiu fazer o suco, Nhô?
- Ieu ixplicu, seu Lê: ieu distrinchei as fruta; dibuiei as sementi i coloquei eielas num panu limpim i fui apertanu qui nem um torniqueti. Aí, fui ripitinu issu até inche esta jarra. Num ponhei nem açúca. Porva i senti qui maraviá – falou estendendo-me uma caneca cheia de um líquido avermelhado. Ao prová-lo:
- Ahhhhh! Nhô, veio à minha mente as tardes quentes de Muriaé quando saboreávamos dessas frutas. Eram: eu, Angelim, Ciro, Djalma...
- Eh!Eh!Eh! É bão si alembra das coisa boa, né patrão?
- Não resta dúvida, meu amigo.

Vinte minutos depois:
- Vô atrelá o Bitencourt na carroça; ôce podi dexá a vremeiona drentu du garpão; arrumei lugá prela lá!
- Obrigado, meu amigo! Só vou pegar um despolpador de frutas e um multiprocessador profissional que eu trouxe para o Paulinho incrementar o negócio dele.
- Taí u seu presenti di casamentu, eh! Eh!Eh!
- Coincidência, coincidência, Nhô, ah! Ah! Ah!

No caminho da cidade:
- Onde será a festa depois do casório, Nhô?
- Vai sê na casa du seu Zé das Frô – respondeu-me.
- Nos fundos do terreno do cemitério?
- Ué seu Lê, ôce si isqueceu qui a Cindy Corbéia é prima du Zé das Flô? I qui a famía deie é us únicu parenti vivu deia?
- É mesmo, “véi”, eu havia me esquecido, mas, Nhô, será que o pessoal vai lá ao cemitério para o casamento e a festa?
- Us convidadu, qui são us amigu vão, seu Lê, podi di tê certeza. Dus amigu, só quem naum vai intra na festa é u Bitencourt, eh! Eh! Eh!  - incrível, mas quando o Nhô terminou essa frase o pangaré deu um longo relincho e parecia entender o que foi falado.

            Na cidade, na casa do Juliano, sete horas;
- Bitencourt, vô dexá ôce aqui dibaixo desse carváio. Tem grama a vontadi, vô te sortá da carroça, mais ôce vigia iela, tá bão?  Despois ieu ti tragu um bardi di água i umas ispiga di mio verdi, tá bão? – o velho cavalo deu um relincho longo e outro curto e o Nhô prosseguiu:
- Êta cavalu bão, quantu mis véi mais ispertu!
Pegamos os presentes e adentramos no cemitério:
- Seu Lê, Nhô, que bom que já chegaram, nós já estávamos preocupados - falou o Juliano.
- Bom dia Juliano, cadê o Beijo, seu Flôres e o resto da família – perguntei-lhe.
- Eles estão enfeitando a capela. Nós, ou seja, eu, Biliato, Lezivo, a Xerequéia e o Delfino, ficamos para preparar a festa. Tá quase tudo pronto: os espetos de carne de boi, frango e Java-porco, as saladas de legumes; arroz de alho e carreteiro; bolo; salgadinhos e doces. Só faltam fazer os sucos e as caipirinhas!
- Eu farei os sucos – antecipei.
- Ieu as caipirinha – disse o Nhô.
- Beleza – disse o Biliato – então mãos à obra!
- Vou deixar os presentes onde, Juliano – perguntei.
- Deixe na varanda da sala. Já tem um monte, de presente, que chegaram – respondeu, pelo Juliano, o Lezivo.
- Bah tchê! Acho bom tu te apressar que tu e o preto velho são os padrinhos no casório!
- Tens razão Gaúcho, mas em uma hora os sucos estarão prontos e na geladeira – respondi-lhe.
-As caipirinha tamém – falou em seguida o Nhô. – Tá bom tchê, vou ascender a churrasqueira.

Dez horas e trinta minutos na capela do CMV, ouvem-se a marcha nupcial. Paulinho, os padrinhos, madrinhas e o padre Orestino Treviso esperavam a entrada da virginal Cindy.
Todos, na capela pequena e lotada dos amigos do futuro casal olhavam quando a pesada e antiga porta rangeu e Cindy lá vinha sendo trazida pelo Zé das Flores ao som da inesquecível obra prima de Gounod.
Tudo corria normalmente e o padre fez a habitual pergunta:
- Se tem alguém contra essa união que fale agora ou se cale para.. – o vigário foi interrompido por um nojento barulho:
- Arrôut!
- Ohhhhh... – foi o murmúrio geral quando olharam para a porta.
- Caramba! Será o chupa-cabras – pensei ao ver aquela figura entre o umbral da porta da capela contrastando com o brilho do sol da rua.
- Por favor, responda quem é você? Tens alguma coisa contra essas duas pessoas  - perguntou o Orestino.
A medonha figura percorreu o corredor até a metade da capela e com voz quase gutural tentou falar:
- Eu... ic ... ic ... escutei barulho de música de casório e ...ic ... ic... queria ... – não terminou a frase e:
- Vem cá vivente! Quem tu pensas que és prá interromper o casório do meu amigo Paulinho – era o Gaúcho que, pegando o pinguço e beiçudo galego, pelo pescoço, levou-o para fora e prosseguiu:
- Bah tchê! – tu interrompeste o casório e meu serviço de churrasqueiro. Vi quando tu entraste cambaleando no cemitério. O relincho do pangaré do Nhô me chamou a atenção.
- “Me” larga... ic ... ic... “me” solta que eu vô... blááááááá...
- Barbaridade! Que nojo cuera! Tu tá mais fedorento do que um zorrilho e quase que vomita nas minhas bombachas – o sujeito não respondeu, foi cambaleando e sentou-se embaixo de uma mangueira e ali ficou num profundo sono etílico. E só então o Gaúcho prestou atenção no sujeito:
- Ala bucha! Que cuera feio, tchê! Parece um catariana”, tem jeito de ser galego, mas não dá para ver como ele é embaixo de tanta imundície. Coitado, tá com uns arranhões profundos nos braços e no rosto. Vai ficar aí, quieto, até acabar a festança. Depois vamos descobrir quem ele é. Tenho que cuidar da churrasqueira.

Terminado a cerimônia do casório, todos foram para o varandão da casa dos Flores e, não contive a curiosidade e perguntei:
- Cindy, porque você quis casar na capela do cemitério? Qualquer moça preferiria casar-se na matriz da cidade?
- Seu Lê, os únicos parentes vivos que eu estou tendo moram aqui na casa do zelador do CMV; os que não estão mais vivos, também, estão aqui, só que enterrados!
- Meus parabéns, você é uma mulher de caráter e corajosa. Seja feliz e faça o Paulo feliz. Conte comigo no que precisarem – falei-lhe.
- Eu sei disso seu Lê, e obrigado por colocar o Paulo no meu destino!
- Cindy, você vai continuar na prefeitura – perguntei.
- Sim, mas após as dezessete horas vou ajudar meu marido nos espetinhos, vou cuidar dos refrescos, sucos e refrigerantes. Porém, vou deixar a Associação das Solteironas Sem Opção do Vale Virtualiano do Rio do Peixe. O estatuto não permite que uma mulher casada a administre - explicou-me a Cindy e nisto o prefeito se aproxima da secretária, agora casada:
- Meus parabéns, Cindy! Sejam felizes e aproveite os trinta dias de férias. Tenho que ir, pois vou participar de uma reunião com os outros prefeitos de nosso vale.
- Obrigada prefeito! Vou estar fazendo o impossível para ser feliz – respondeu Cindy
- Um... hum! – pigarreei e fui falando:
- Dr. Jairo, quem ficará no lugar da Cindy na “Sem Opções”?
- Será a Dona Elvicina Zero Kelvi. Ela é concursada e estava gerenciando a Associação dos Cegos de Um Olho Só, no subdistrito de Bispo - Cardeal – disse o prefeito.
- É aquela solteirona carrancuda que vive com problemas no baço, fígado e intestino – perguntei-lhe.
- É ela mesma! Sei que Dona Elvicina não tem perfil para o cargo, mas é a única solteirona concursada do município, além disso, tem um filho desempregado que mora com ela, e a nora está grávida. Ela é uma ótima pessoa e uma das melhores “obreiras” da IEVV.
- Mas se ela tem esse filho o estatuto... – fui interrompido pelo prefeito:
- Ela nunca foi casada e, esse filho, foi fruto de uma violência e... – foi minha vez de interromper:
- Muito bem, prefeito, precisando de mim é só solicitar-me!
- Sei disso, seu Lê, obrigado!

Por volta das dezessete horas a festa se esvaziou; ninguém queria anoitecer naquele local. Só ficaram eu, Nhô, o Gaúcho, os Flores e o bebum, que ainda dormia embaixo da mangueira. Biliato e Lezivo foram abrir o Boteco dos Caldos e os noivos foram para lua- de -mel num motel em Realópolis, foram no automóvel da Cindy.
- Patrão Lê, está vendo aquele bebum que está acordando, embaixo da mangueira – perguntou Delfino.
- Estou! O Paulinho me falou que ele é o Stephen Skov. Foram colegas de copo há muitos anos em Realópolis – respondi.
- Tu viste como ele está machucado, tchê?
- Não, Gaúcho! Vamos trazê-lo para comer alguma coisa e ao mesmo tempo conversaremos com ele!
- Como queiras, tchê! Olhe! Não precisamos chamar o cuera, lá vem ele – falou o Gaúcho.
- Bo...bo... boa ta...tarde eu...eu queria...me desculpar pe...pelo...
- Esqueça Stephen, o Paulinho já te apresentou para a gente! Vamos preparar um prato para você, mas antes, vais tomar um bom e demorado banho, fazer essa barba e usar essa roupa que te dou – falou o Juliano que se aproximo de nós.

Meia hora depois, um novo homem, pelo menos na aparência, adentrou na varanda, saindo do banheiro:
- Melhorou muita a tua aparência Stephen; venha comer que ainda tem churrasco e conta-nos a razão desses ferimentos – falei-lhe.
- Dêti tê sido feridu pur argum animá grandi! Foi onça, misifiu – perguntou o Nhô.

Continua em:  Stephen Skov
           



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

PROJETO DE UM LIVRO EPÍLOGO

Peripécias de 
MOLEQUES
EPÍLOGO:
 Galo na CABEÇA

        " Aquele foi o dia mais logo da minha vida. Qualquer garoto com quem conversava me perguntava
         - E aí, Lê, vai ver o filme?
         - Depende do galo – rebatia.
Eles riam e deviam pensar que eu estava ficando maluco.
Enfim, dezoito horas! Fui até a casa da Dona Geralda e não deu outra coisa: a dezena do GALO NA CABEÇA e cinquenta cruzeiros no bolso. A Dona Geralda, como era camarada, me antecipou o dinheiro do prêmio. Voltei para casa, troquei de camisa, calcei os sapatos e falei para minha mãe que iria ver o filme da sessão das dezoito horas e que já estava atrasado. Em Muriaé, essa sessão era comum nos períodos de férias de verão.
Ao retornar para casa, por volta das vinte horas, esperavam-me minha mãe, meus irmãos, meu pai e a Dona Maria Perereca; e, foi o seu Nelson quem, com tom autoritário de voz, quem abriu o diálogo:
- Lê, esta senhora disse que um menino mexeu com ela e ela o acertou com uma velha panela na cabeça. E está afirmando que o menino parecia contigo,  que levava gibis nas mãos,  e depois de acertado, saiu correndo, gritando  se esvaindo em sangue!
-Que é isso, pai, vê se eu tenho, pelo menos, um GALO NA CABEÇA?
Claro que não tinha e a história ficou por isso mesmo, mas antes tive que explicar ao meu pai onde arrumara dinheiro para ir ao cinema:
-Fale, Lê, onde você arrumou o dinheiro do cinema?
- Eu vendi alguns gibis pai e uns alumínios velhos que encontrei inclusive aquela bacia velha que deixaram no quintal. O senhor não se lembra?
Meu pai resmungou alguma coisa que eu não entendi e foi tomar seu atrasado e merecido banho.”

- E o pai às vezes chama a gente de arteiros, não é Thiago?
- É mesmo Felipe – respondi.
O diálogo foi interrompido pela única voz feminina da nossa família, a de minha mãe:
- Meninos,  é tarde e o lanche já está pronto; venham comer, escovar bem os dentes e direto para a cama. Está muito bonita a conversa de vocês, mas já estão a três horas conversando!
- Mas mãe, nós estamos de férias e as histórias do pai são muito divertidas – tentei ponderar.
- Vocês estão de férias, não é mesmo? Eu e seu pai amanhã, às seis horas, teremos que estar em pé, ok? Vamos logo e não demorem – completou a Dona Rosângela, minha mãe, sem dar-nos outra chance.

Meu pai levantou-se de sua poltrona predileta e foi colocar um filme no DVD. Começamos a assistir, pelo menos enquanto terminávamos o lanche. E era, justamente, o filme mencionado na história que ele acabara de contar. No seu desenrolar, os olhos do meu pai brilhavam como os de um menino e percebi que ele estava ali, na nossa infância, mas seus pensamentos se encontravam no dia de sua infância em que ele vira, pela primeira vez, aquele filme. Às vezes fico pensando que a amizade e liberdade que meu pai tem com a gente, eu e meus irmãos menores, é a mesma que ele gostaria de ter vivido com meu avô Nelsão.
           
Fim


sábado, 12 de janeiro de 2013

PROJETO DE UM LIVRO CAP.: VI

Peripécias de 
MOLEQUES
CAPÍTULO VI :
O FABRICANTE DE BALAS
              “Enfim, sexta-feira! Todos os meninos só falavam no filme.
            - Puxa vida, esse filme eu não posso perder, o que faço só com quinze cruzeiros - pensava enquanto ia à padaria buscar pão, fiado, que meu pai pagava religiosamente todo dia onze, para o desjejum. Ao passar em frente da casa da Dona Geralda, mãe do meu amigo Maurílio...”

            - Ah, o meu amigo Maurílio!
         - O que tinha ele, pai – perguntei.
         - Ele era um sujeito magérrimo, tinha os olhos azuis – como os da mãe dele, Dona Geralda. A cor da pele era alvíssima; branca que dava dó. Ele era bem mais velho que o pessoal da turma, tinha vinte e cinco anos, mas suas  ideias eram de um menino de treze.
         O pai dele, seu Ananias, era encarregado de transporte na mesma empresa em que meu pai trabalhava. Eles, meu pai e o pai do Maurílio, tinham uma amizade muito antiga.
         Este meu amigo, já trabalhava há três anos na padaria da Dona Cilene, no bairro em que morávamos. O seu Ananias tirou-o de lá e arrumou emprego na mesma empresa em que trabalhava. Só que lá, o Maurílio, começaria sua carreira, como peão, o cargo mais baixo na cadeia produtiva da empresa e ainda seria distante de sua família. O Maurílio foi enviado para trabalhar numa estrada no interior do Pará, numa outra obra da empresa.
         Certa noite, no canteiro de obras – que ficava a duzentos quilômetros da cidade mais próxima -, os peões já se preparavam para dormir quando o engenheiro, chefe da obra, adentrou no alojamento e falou alto:
         - Atenção, o padeiro pegou malária e foi para Belém; quem já trabalhou em padaria entre vocês?
         - Eu! Eu já trabalhei três anos em padaria- gritou o Maurílio todo alegre por já se sentir aliviado do serviço pesado de peão de obras.
         - Ok, ok! Amanhã, de madrugada, às quatro horas tu podes ir direto para a padaria – falou o Dr. Érico com seu carregadíssimo sotaque gaúcho.
         No outro dia, já era sete horas e todos no refeitório reclamavam porque só tinha café puro ou com leite e nada de pão.
         O engenheiro chegou, viu aquilo e pediu ao encarregado de recursos humanos para chamar o Maurílio. Cinco minutos depois ele chegou ao refeitório e todos os peões olhavam e aguardavam a bronca no coitado:
         - Bah, tchê! Tu não fizeste os pães, por quê?
         - Por que eu não sei fazer pão, doutor Érico – respondeu o Maurílio na ponta da língua.
         - Mas, cuera, tu dissestes que trabalhou três anos numa padaria – já, nervoso, berrou o engenheiro.
         - Trabalhei sim, mas carregando lenha para o forno – respondeu-lhe.
         Todos no refeitório caíram na gargalhada e saíram para o trabalho.
         O engenheiro ficou sério e, em consideração ao pai dele, seu Ananias, não lhe dispensou, porém o colocou para trabalhar de ajudante de lubrificação. Esse tipo de função era a de ajudar o oficial de lubrificação a manter as máquinas e equipamentos da obra, todos, devidamente lubrificados;  prontos para os trabalhos pesados. Este tipo de serviço ia desde lavar, engraxar os rolamentos, molas, trocar os óleos dos motores, caixas de marchas, diferenciais, transmissões automáticas e abastecimentos de combustíveis de todos os veículos e demais equipamentos de terraplenagem.
         Num certo sábado, à tarde, já se passavam quase três meses em que o Maurílio era este tipo de ajudante, um peão veio correndo ao escritório do engenheiro da obra aos gritos:
         - Dr. Érico... Dr. Érico, o senhor precisa ver o que eu encontrei lá perto da pedreira!
         - O que foi "seu" Sobreira, o que tu encontraste – perguntou o engenheiro  ao peão, com mais de vinte e cinco anos de serviços na empresa – "o maior puxa saco de patrão!" – diziam dele.
         - Só o senhor vendo, vamos lá...
      O engenheiro chamou o encarregado dos peões, o chefe de oficina, o almoxarife e, com o Sobreira subiram numa caminhonete e rumaram para a pedreira.
         Lá chegando, ainda caminharam uns cinquenta metros onde, longe do riacho, em meio a uma grande quantidade de pedras, havia uma cratera no chão e esta estava cheia de um líquido de cor, entre o azul escuro e o preto, cheirando a óleo queimado e graxa ao mesmo tempo.
         O almoxarife, Geraldo Manoel, que sempre era o mais afoito e metido a saber de tudo, graças aos vários e de diversos tipos de cursos feitos por correspondência, com altivez de um conhecedor, se abaixou, enfiou a mão no líquido da cor de petróleo e gritou:
- É petróleo, Doutor Érico, é petróleo!
- Deixe ver isso, tchê..., mas bah! É mesmo! Barbaridade!
         Encheram um galão que sempre levavam na caminhonete e voltaram ao acampamento. Na segunda-feira, bem cedo, o Doutor Érico não pensou duas vezes e fez contato com os chefões da empresa, via rádio, na capital mineira e contou o ocorrido, falou sobre o ‘achado’.
         - Mande-nos uma amostra para análise, Dr. Érico – foi a ordem de um dos donos da empresa.
         O alvoroço foi geral no acampamento e durante a semana toda só se falava que era segredo e que a empresa iria comprar aquelas terras e que todos iriam ganhar um bom dinheiro.
         Na sexta-feira daquela mesma semana, o Dr. Érico foi chamado na sala de rádio do acampamento para atender a um chamado urgente. Era mais de dezoito horas e quase todos os trabalhadores estavam por perto da sala de rádio e, ficaram com a atenção voltada ao som do rádio amador. O pobre do gaúcho levou a maior bronca dos donos da empresa. Foi assim o diálogo:
         - Dr. Érico, é o Dr. José Lúcio Pingente, estás na escuta? Câmbio!
         -Sim, na escuta, prossiga, câmbio!
         - O petróleo da sua descoberta e que mandaste para análise, é apenas óleo de motor queimado. Não é petróleo bruto não. Que brincadeira foi essa? Explique-se!
         O Dr. Érico ficou vermelho de raiva e vergonha e se desculpou com os chefões e disse que iria averiguar melhor.
         O que aconteceu foi o seguinte: o Maurílio, ajudante responsável em descartar os óleos queimados dos motores das máquinas e veículos, não achou certo jogá-los num igarapé que passava ao lado do acampamento, como mandara seu chefe e descobriu aquela cratera e lá fazia o descarte todas as manhãs bem cedo e por isso ninguém o vira fazendo isso. O Dr. Érico só ficou chateado na hora, porque entendeu a boa intenção do Maurílio, mas decidiu mandá-lo de volta para perto do seu Ananias em Muriaé. O pobre do Maurílio demorou quase uma semana para chegar em casa e ainda levou um sermão do seu Ananias de quase duas horas.

         Mas, continuando...
         “Passando defronte a casa do Maurílio, deu-me um estalo nas ideias e pensei em voz alta:
            - É isso! Para quem precisa de cinquenta cruzeiros e só tem quinze, o jeito é comprar um bilhete de loteria aqui na Dona Geralda e, quando for dezoito horas, saberei se vou ao cinema ver o filme ou não!”

            Dona Geralda era uma batalhadora. Num cômodo de sua casa, que dava para frente da rua, montou uma banca de jornais, revistas e também vendia bilhetes de loterias. A Maria Emília, filha dela que tinha uns quinze anos, era quem ficava na banca, quando não estava na escola.

         “Chamei por Dona Geralda e ela veio prontamente me atender:
            -Entre Lê! Como vai a sua mãe?  O que você quer?
            - Dona Geralda, a mãe me mandou comprar um pedaço de bilhete da Loteria de  Minas que corre hoje. A senhora tem algum?
            - Tenho sim, Lê, qual você quer?
            Eu não tinha nenhum palpite. Fiquei por alguns segundos olhando para ela quando ouvi o galo índio do seu Tião Igreja cantar tão alto e bonito que até parecia que era para mim:
            - Foi no galo, Dona Geralda, ela pediu para eu comprar um pedaço do bilhete do número do galo!
- Estás com sorte, Lê, eu ainda tenho uma tirinha desse bicho; são quinze cruzeiros!
- Se der estes números quanto eu, quer dizer, quanto a minha mãe ganha, Dona Geralda?
        - Se der a unidade final ela ganha os quinze cruzeiros de volta; se der a dezena, ganha cinquenta cruzeiros; se der a centena ela gan... - interrompi.
            - Tá bom, a minha mãe só precisa de cinquenta cruzeiros – paguei , peguei o bilhete e guardei, com todo carinho, no bolso da camisa e retornei ao meu trajeto rumo à padaria."

            - Mas espere aí, pai, o senhor mentiu quando falou que o bilhete tinha sido a vovó Rosa que pediu para o senhor comprar; e isso não é certo! O senhor tá ‘careca’ de nos pedir para não mentirmos?
         - Eu sei Felipe, mas se eu falasse que era para mim a mãe do Maurílio não me venderia e eu estava desesperado – falei meio querendo dar razão ao que eu fizera.
        - O Felipe tem razão, pai – retruquei como que não aceitando a justificativa do meu velho, mas ele insistiu:
         - Ambos estão certos, meninos eu... - interrompi meu velho:
         - Continua com a história, pai, já deu para entender!
- Está certo, Thiago, eu continuo...
- Espera aí pai, antes nos diga quem era o Tião Igreja, o dono do galo índio – interrompendo a narrativa, o Felipe perguntou.
- O Tião igreja era um senhor com seus setenta e cinco anos; era meio surdo e bastante míope. Gostava muito de gibi de terror. Eu e a meninada estávamos sempre trocando esse tipo de gibi com ele. E foi com ele que aumentávamos nossas coleções. Outros meninos nos davam dois gibis de terror por um de aventuras de selva ou de faroeste e depois o seu Tião nos dava dois gibis que não eram de terror por um de terror. Por isso, e porque ele contava umas histórias engraçadas de sua juventude, nós gostávamos dele.
Certa vez fui à vendinha dele, comprar massa de tomate em lata para minha mãe e, antes de eu entrar na porta do estabelecimento, um dos irmãos Ton, o Helton, passou na minha frente e no balcão gritou ao Tião:
- "Me" dê dois cruzeiros de balas das que o senhor faz!
- Está bem, meu filho, toma – disse Tião enchendo as mãos do moleque e, este, deixou o dinheiro todo enrolado sobre o balcão e saiu correndo.
Seu Tião pegou o dinheiro, desenrolou e, nós vimos que era golpe do moleque. O dinheiro era só a metade de uma nota. Seu Tião sorriu sem graça e me falou:
- É a segunda vez que esses irmãos fazem isso. Eu não posso correr atrás deles; fico no prejuízo. Acho que eles fazem isso em outro lugar também, pois veja as metades das notas não se ‘casam’ – falou isso colocando as duas metades das notas que recebera lado a lado.
Eram três os tais irmãos: Hamilton, Helton e Hilton – filhos de um policial de Polícia Rodoviária Federal. A família deles era a única a ter televisão no bairro, além é claro, da do dono da fábrica de doces. Todos os meninos tinham receio deles, pois diziam que eles aprendiam luta livre assistindo estes tipos de programa na TV.
Vendo a impotência do meu amigo da vendinha falei-lhe:
- Posso dar uma ideia, seu Tião?
- Claro que pode, Lê!
- O senhor me arruma os papéis que são embalados suas balas? Vou fazer umas balas da mesma cor das suas e quando eles vierem aqui de novo comprar balas, o senhor entrega das que eu vou te trazer, ok?
- Sei não... , mas toma, pode levar!
No outro dia, à tarde, o seu Tião tinha ido para Juiz de Fora fazer uma consulta médica e a mulher dele ficou na vendinha e entreguei as balas falsas a ela, que já sabia do plano. Eu e o Angelim pegamos uma pequena caixa de papelão e colocamos uma pedra dentro e ficamos perto da casa dos Ton. De repente vimos um dos irmãos, o Hilton, o maior deles indo em direção à venda. Esse Hilton era metido a bater as faltas nos jogos de futebol das tardes no campinho. Nenhum dos meninos gostava dele, mas todos concordavam que ele chutava bem forte a bola.
Na espreita, sem sermos vistos, eu falei ao Angelim:
- Olha lá, ele viu que é a Dona Cotinha que está na venda e entrou; daqui a pouco ele sai de lá correndo com as balas!
O Angelim pegou a caixa com a pedra e colocou no meio da calçada perto da casa deles. Não deu outra, o Hilton saiu correndo, e quando tomou distância da vendinha, seguiu andando, calmamente,  rumo a casa dele. Ao ver a caixa de papelão no meio da calçada segurou as balas firme nas mãos e começou a narrar, como um locutor esportivo de futebol, na hora em que o jogador ia bater a falta:
- Atenção! Hilton, o craque da torcida, vai bater a falta; preparou, correu e... pimbaaaaaaiiiiiiii!
A sequência do lance foi de gritos de dor e um estalido:
-Aiii, caramba, machuquei o dedão, ai, ai, ai...
Ele não quebrou nada, só destroncou o dedão e rasgou toda, a Conga azul e novinha – um antecessor do tênis atual. Saiu mancando, desenrolou uma bala e colocou na boca. Quando ele sentiu o gosto disse um palavrão e cuspiu longe a bala. E não é que o idiota provou todas as balas antes de jogá-las fora!
No dia seguinte fui eu e o Angelim na venda do seu Tião Igreja e rimos até doer o queixo e falei:
- Esses não fazem mais  maldade contigo, meu amigo!
- Mas Lê, de que eram as balas que você fabricou – perguntou-me.
- Era barro, sabão e titica de galinha, seu Tião!
- Aí foi que ele riu para valer.

- Eca, pai – falou o Mateus.
            Mas continuando...

EPÍLOGO:
 Galo na CABEÇA