sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ARRET
A NOVA MORADA

Rô &  Lê:

Virtuália FOREVER



No caminho de volta ao sítio:
- Ocê reparô qui num tem lua hoji, seu Lê?
- Sim, “Véi” e o céu está lindíssimo!
De repente uma chuva de meteoritos cortou o céu no sentido nascente para o poente. Durou quase um minuto.
        - Isto não é normal! Pensei que já tivéssemos nos livrado dos  fragmentos do cometa Swift-Tutle.
- Eh! Eh! Eh! Mai qui é bunitu é, num é Misifiu?
- Muito Nhô! Mas preocupante! Penso em contatar o Kobauski para tirar uma dúvida, mas por ora deixe como está.
- Nhô, já que está tudo “engatilhado”, tenho que retornar ao meu irreal mundo em Minas Gerais!
- Ocê é qui sabe, seu Lê!
De repente, como se tivesse surgido do nada, um carro pequeno surge em nossa frente, uns trezentos e trinta e um metros; perde o controle; sai da estrada de terra e cai numa ribanceira:
- Você viu Nhô! Aquele motorista se acidentou!
- Vi sim, Misifiu, vamu lá vê si ieli percisa de ajuda!
Paramos a GMC, descemos e eu com uma lanterna que sempre trago na boleia da Vermelhona, foquei o veículo acidentado a dez metros barranco abaixo e dei um grito:
- Nhô, é o Fiat 147 da Rô!
- É memu, Misifiu? Tem certeza? Muntcha carma nessa hora, seu Lê, mai muntcha memu, oviu?
Desci correndo a ribanceira e a Rô estava desacordada ao volante. O pequeno carro marrom tinha um dos pneus dianteiro estourado e, possivelmente, foi isso que fê-la perder o controle da direção:
- Meu pitéu, você está muito ferida?
Ela chacoalhou a cabeça – ato que eu adoro ver, pois balança os lindos cabelos amarrado como “rabo de cavalo”-, disse-me:
- Não... e não estou entendendo nada! Eu estava indo ao grande hospital da Zona da Mata, atendendo ao chamado do Dr. José Walter, pois você dava sinal que estava saindo do estado de coma, quando um pneu dianteiro  da SUV sul-coreana estourou, perdi o controle e só me lembro de que descia uma ribanceira e desmaiei. E, de repente, te encontro aqui me socorrendo em um acidente com o 147 marrom?
- Calma Rô! Tente sair do carro, por favor – falei segurando-a pelo braço e ouvi o grito do Nhô:
- A patroinha tá bem, seu Lê?
A Rô deu um gemido doído e me disse:
- Acho que fraturei a perna! Tá doendo muito eu... – ela perde os sentidos. Peguei-a no colo, subi a ribanceira por um lugar menos íngreme e disse ao Nhô:
- Nhô, assuma o volante da GMC e vamos “voando” para o Hospital Sideral de Virtuália. Acho que a Rô quebrou uma perna, aliás, espero que seja só isso!
Nhô virou um exímio piloto e acelerou. Em poucos minutos estávamos no HSV: 
- E então Dr. Fabrício? Houve fratura– perguntei.
- Só trincou o osso da canela, seu Lê! Vou engessar para evitar danos piores. Pode ir  vê-la.
Na cabeceira do leito da Rô:
- Você vai ficar bem Pitéu! Agora procure descansar. Amanhã o Nhô vai trazer a Margarida Flores para ficar contigo. Tenho que ir para Minas Gerais, pois algo me empurra para isto e volto logo, OK?
- OK, meu amor! Aconteça o que acontecer por lá se lembre de que eu estou aqui te esperando e muito bem, OK? Eu agora estou com muito sono e... – Rô entra em sono profundo.
Saindo do quarto e na recepção do HSV o Nhô, aflito, me esperava:
- I aí, Misifiu, i a patroinha?
- Ela vai ficar boa Nhô! Só trincou a canela esquerda. Está engessada por precaução. Daqui a três dias ela estará bem. Vamos para o sítio. A Xerê deve estar preocupada. Amanhã o senhor trás a Margarida Flores para ficar com ela, OK? Estou sabendo que ela não terá expediente amanhã na prefeitura e...
- Dêxa cum ieu, Misifiu! Mai puruquê ocê num fica mais a patroinha, seu Lê?
- Tenho que ir para Minas ainda hoje, “Véi”!
- Num vai mi dizê qui ocê discubriu um buracu di minhoca casêro, Misifiu?
- Vou lá pro meu cafofo, “Véi”! Vou dormir um pouco e de madrugadinha me “pirulito” pras Minas Gerais! “Buracu di minhoca casêro”, ah! Ah! Ah! Essa é boa Nhô! Só o senhor mesmo!

Madrugada. Três horas e trinta e um minutos eu acordei falando comigo mesmo:
- Vou agora lá para Minas – entrei na GMC e acelerei...

No Grande Hospital da Zona da Mata Mineira:
- Dr. José Walter, o seu Lê está saindo do coma – gritou a linda enfermeira.
Em poucos minutos depois  o doutor me colocou a par de minha situação:
- Senhor Lê, é esta a tua situação clínica: Tiveste duas paradas cardíacas durante a sua segunda operação e seu estado é bastante crítico. Sua saída do estado de coma foi um milagre.
- Eu... eu... sinto um cansaço muito grande doutor, doe-me o peito, meu braço esquerdo e pernas estão dormentes. O pior é essa  dor de cabeça terrível eu... – fui interrompido pelo meu filho mais velho:
- Calma “Véi”, ocê vai sair dessa!
- É isso aí, mano! Ocê tem muito que aproveitar desta vida ainda, paiê – disse o Felipe meu outro filho.
- Vamos sair manos! Vamos deixar o pai só com os médicos – disse o Mateus, o caçula.
- O Mateus tem razão pessoal! Por favor, vamos até à sala ao lado que eu quero falar com os três -  interrompeu-nos o Dr. José Walter.
Na sala:
- A situação do seu Lê é muitíssimo grave. Já fizemos o que é humanamente possível. Talvez ele só tenha essas poucas horas de vida. Seria bom colocá-lo à par do que aconteceu com a mãe de vocês há três dias.
- Eu falo com ele doutor! “O que tem que ser, será!” Como ele sempre nos dizia quando enfrentávamos períodos difíceis – falou o Thiago.  
- Vai lá mano que eu não tenho essa coragem – disse o Felipe.
- Nem eu – emendou o Mateus.
- Vamos lá Thiago, eu te dou suporte – disse o doutor José Walter.
A porta do meu quarto, onde eu estava se abriu. O relógio digital que ficava acima dela marcava oito horas e trinta e um minutos daquela quarta-feira e vi os semblantes tristes de meu filho e do doutor e, o Thiago, como querendo medir as palavras, abriu o diálogo:
- Pai ... o que temos que te falar é muito triste e esperamos que o senhor... -  interrompi meu garoto:
- O houve com a Rô? Por que ela não está aqui? Ela sofreu um acidente de carro quando vinha para cá?
- Cruzes pai, como o senhor sabe disso?
- Ela não está mais neste mundo – perguntei.
- Não pai! Há três dias, exatamente às vinte horas e trinta e um minutos, ela se foi. Capotou com a SUV importada e não resistiu aos ferimentos. Ela... interrompi novamente meu filho mais velho:
- Eu acho que já sabia disto! Podem ficar tranquilos que ela está bem para onde ela foi. Ela está lá me esperando. Eu... – uma dor horrível no peito fez-me perde os sentidos e...

- Engraçado, estou me sentindo muito bem depois daquela dor! Sinto-me como se estivesse livre de algum fardo pesado e flutuando! Peraí, peraí... peraê! Eu estou fora do meu corpo! Meu corpo está inerte naquele leito hospitalar! Que será que...os meus três filhos choram em redor do meu corpo. A imagem está se dissipando! Mas que luz forte é esta eu...
De repente, uma mãozinha bate no vidro da janela da GMC e eu abaixo o vidro e uma vozinha, que eu adoro, me disse:
- Venha Lê! Venha ver o que floriu no pomar do nosso cafofo neste Vale Virtualiano do Rio do Peixe!
- Rô? Você já está andando novamente? E a sua perna?
- Perna? Ah, sim! A perna trincada  no acidente com o 147? Isto já faz quase três meses que sarou, Lê! Por que demorou tanto em voltar?
- Não sei! Não me lembro! É como a minha mente nunca tivesse saído daqui! Eu...
- Eu não! Nós! Nós vamos ficar para sempre nesta fresta do tempo, Lê! Este vale é um verdadeiro paraíso!
-Olhe só como os três pés de atamoa estão carregados de flores – disse-me apontando para as três árvores que ela queria me mostrar.
- É mesmo, Pitéu! A natureza parece saber que adoramos atamoa, não é mesmo?
- Com certeza! Olhe, também, os pés de abiu que margeiam o caminho que desce para a casa do Nhô! Está carregadinho de frutos!
- Ahhhhhh! Como é lindo este vale, não Lê?
- Sim, uma dádiva da natureza!
- Rô, é impressão minha ou você rejuvenesceu?
- São os seus olhos, meu amor! Você está me vendo com os olhos do espírito ou talvez seja a água mineral que brota da Serra Madre!
- Aquela água que ia ser engarrafada pela família Flores?
- "Ia ser", não! Já está sendo engarrafada há dois meses. Vamos lá para o complexo das indústrias para você ver que coisa mais perfeita – falou-me isso e abriu a porta do 147:
- Siga-me! Vamos deixar o 147 lá no cafofo e iremos na GMC, OK?
- OK! Sempre mandona, hein! Ah! Ah! Ah!
- É a força do hábito e acho que isso será eterno entre nós dois!
- O 147 está parecendo que saiu da fábrica agora; você vai eternizar, também, esse carrinho mantendo-o sempre original?
- Sim, assim como você faz com a tua GMC ano 1955!
- Vamos então – disse-me a Rô.
- Sim! Eu a sigo.
No cafofo, a Rô guardou o carro na nova garagem e me disse:
- Você reparou? Mandei fazer uma nova garagem. Agora os dois carros, de nossos sonhos, vão ficar lado a lado tal como nós dois.
- Que coisa linda essa frente do cafofo, Rô! Você plantou todos os tipos de roseira que existe na Terra?
- Talvez sim! Qualquer muda de rosa vinga aqui neste paraíso.
- Que ótimo Pitéu! E, por falar em “sempre juntos”, que tal se a gente... - a Rô me interrompeu:
- Só se for agora! Nesse tempo que te esperei eu fiz um jogo de roupa de cama para esse nosso primeiro encontro para a vida definitiva neste paraíso!
Um hora e trinta e um minutos depois daquele início de tarde, batem na porta. Era a Ritinha:
- Tia Rô! Ô tia Rô! A vovó pediu para chamar a senhora e o tio Lê para virem almoçar!
Acordamos de sobressalto:
- Caramba Rô, perdemos a hora!
- Esqueça esse negócio de contagem de tempo, Lê! Agora o tempo é eterno para nós!
- Noooosa! Como você continua romântica, Pitéu!
- Tia Rô! Tia Rô – continuava a chamar a Ritinha.
- Já vamos Ritinha – falou a Rô.
No varandão da cozinha do sítio:
- Ieu vi quandu us dois carru subiru lá prô cafofu di oceis. Agora oceis num vão mai fugi pelu buracu di minhoca casêru, eh! Eh! Eh!
- “Véi”, acho que o senhor tá com minhocas na cabeça, ah! Ah! Ah!
Continua em 12/10/2013 em:
De Virtuália ao Universo

sábado, 28 de setembro de 2013

ARRET
A NOVA MORADA
Águas
dos
Deuses

Por volta das três horas e trinta e um minutos eu acordei:
- Caramba, eu ainda estou num leito hospitalar? E essa agora, a narina direita está sangrando – falei passando a mão esquerda, que estava livre, no nariz.
- Rô! Rô! Onde você... – minha gritaria foi interrompida:
- Estou aqui paixão eu...  - Rô arregalou os olhos e começou a gritar:
- Enfermeira! Enfermeira! Corra, por favor, o meu Lê está mal!
Vieram enfermeira e o médico do plantão e começaram os procedimentos para estancar a hemorragia nasal.
Alguns minutos depois:
- A hemorragia cessou! Vamos fazer outra bateria de exames e tirar radiografias em 3D de toda a cabeça, assim que o Dr. José Walter chegar. Já mandamos chamá-lo.
Sete horas e trinta e um minutos:
- Dona Rô, talvez tenhamos que operar o teu marido novamente. Há outro coágulo no lado oposto onde ele bateu a cabeça no acidente do avião – expôs o doutor José Walter e continuou a falar:
- Vamos mantê-lo sedado por mais setenta e duas horas enquanto aplicamos medicamentos para tentar dissolver o coágulo; caso não o consigamos, teremos que operá-lo novamente!
- Ah! Meu Lê, você vai ficar bom eu...
- Calma Rô, tudo vai dar certo e... espere doutor! Deixa-me conversar um pouco mais com a minha... – o sedativo de dose cavalar fez efeito...

Na estrada para o sítio do Nhô:
- Caramba, parece que faz um tempão que não dirijo por esta estrada. Talvez seja este caminhão, Saurer-diesel, do tempo da segunda guerra, no qual adaptei um baú térmico-frigorífico, me faça ver diferente, ah! Ah! Ah! Quem vai gostar dele será o Nhô, pois este caminhãozinho, para três mil quilos de carga, é a cara dele, ou seja, antigo e forte para qualquer tipo de serviço. Porém a alma, digo, o motor e a caixa de marcha são de veículo do mesmo porte e do ano retrasado.
- Como é bonito esta hora do dia o Vale Virtualiano do Rio do Peixe. Vou encostar lá na curva do mirante. De lá vejo todo o vale e o sítio.

Em alguns minutos no mirante: 
- Olha só como corre aquele potrinho puro-sangue! Ele está indo em direção daquela égua..., mas... mas, é a Cachoeira! E o Bittencourt está perto dela. Caramba, o potrinho é cria dos dois! Ah! Ah! Ah! O pangaré não é tão velho assim – falei direcionando meu olhar para sede do sítio:
- Aquela fumaça entre as árvores do sítio, mas espera aí! Não, não é fumaça... é vapor de uma caldeira. Vou acelerar este possante e ver de perto. Parece que a indústria vai de vento em popa.
Trinta e um minutos depois buzinei no portão do sítio:
- Vovô, tem gente buzinando no portão – disse uma moreninha de mais ou menos seis anos de idade e tão linda que dava gosto ficar olhando para ela. Os olhos cor de mel, cabelos negros anelados e a pele morena e reluzente.
- Ritinha – perguntei.
- O senhor me conhece, moço ?– respondeu-me.
- Olha só quem chegou Antônio, o seu Lê – gritou a Xerê da janela da sala.
- Ôce num morri tão cedu, Misifiu! A Xerê falô im ocê indagorinha inquantu disenfromava umas broas prô café da tardi du pessoa du friguríficu – olhei para o relógio antigo do caminhão e vi que eram quinze horas e trinta e um minutos.
- Misifiu, ieu nunca vi um caminhão du tempu da guerra tão bunitin – observou o Nhô.
- É mesmo daquele tempo com mecânica atual, “Véi”! Você gostou? É para o frigorífico, isto é, ele é teu!
Os olhos do meu velho amigo marejou e ele disse:
- Ansim ocê mata essi negu véi, Misifiu! Ieu andei muntchu nessi tipu di viatura.
- É para substituir a Vermelhona que deixei contigo até agora, com a minha volta ao Vale.
- A Vremeiona tem nus ajudadu muntchu, seu Lê! Ieia i a carroça. I ocê num sabe da maió: - u Bitenciurt pidiu prá fazê uma viagi di carroça prá matá a sodadi.
- Ah! Ah! Ah! Essa não, “Véi”, como ele te pediu?
- Ostro dia ieu coloquei uns sacu di café prá levá lá prá coperativa i inhantis di arriá u Salzanu, u Bitencurt entrô nu meiu dus varão da carroça, bateu c'ás pata diantêra nu chão i relinchô umas quatru veis. I ieu qui num sô burru entendi u qui ieli quiria.
- Ah... Tá! Entendi Nhô, ele mesmo achou que estava muito gordo e precisava de exercícios, não é?
- Eh! Eh! Eh! Vai vê qui é, né memu? Ocê viu o potrin, fiu deie nu pastu, seu Lê?
- Sim, vi! É uma maravilha!
- Já ofereceru centu i cinquenta mil dinheiru pur ieli i ieu tava ti esperanu prá dá a resposta prô chujeitchu qui feis a oferta. O potrin já tá prontu, vacinadu i dismamadu.
- Quem é o cara que quer comprar?
- U Liberatu! Alembra deie? Ieie as veis vem aqui nu sítiu dá umas vorta na Cachuêra prá matá a sodadi. Ieli dissi qui nunca mais achô uma égua iguá essa cumpanhêra du Bitencurt. Quandu viu u potrim ficô alegri iguá uma criança feliz.
- Pode vender se quiser Nhô! Ele lhe pertence.
- Vô vendê i guardá u dinheru na porpança da Ritinha, Misifiu!
- Sábia decisão “Véi”! E o frigorífico? O Massa e a Regina, como estão?
- Tão muntchu bão! Eies i tamém u Celinu.
- Celinu? Quem é? Não conheço!
- É u fioti deies qui nasceu anu passadu. Eies ia colocá u seu nomi, mai u Cilão acho qui u sinhô podia num gostchá i colocô as mema letra du seu nomi, só qui invertida, eh! Eh! Eh!
- Caramba! Já se passaram mais de dez meses que eu me ausentei daqui?
- Num fais deis méis não, seu Lê, fais é treis anu, um méis i um dia, eh! Eh! Eh! Ocê si isqueceu qui u tempu é mêi doidu entri u seu mundu irreá i u mundu di Virtuáia? I óia qui num tô nem falanu nus buracu di minhoca!
- Tem razão “Véi”, às vezes eu “viajo” e esqueço-me desse detalhe, ah! Ah! Ah!
- Como a bisnetinha de vocês está bonita, heim? Estão de parabéns. Ela tem tudo para ser uma ótima pessoa além, é claro, de toda essa beleza que cresce com ela.
- Si ocê tá falanu, intão tá faladu!
De repente senti uma dor aguda na cabeça que tive que me apoiar no ombro do Nhô.
- Qui é qui ocê tem Misifiu?
- É a dor de cabeça, Nhô! Ela tem piorado muito. Agora deu uma dor tão aguda que escureceu até a visão.
- Vamu inté u varandão da cunzinha qui vô perpará um chá forti qui iela vai sará rapidim, é dois palitu!
Feito isso e dez minutos depois:
- Que remédio milagroso foi esse Nhô? A dor foi embora como que cortada pela raiz?
- Eh! Eh! Eh! São raiz qui ieu misturei i fiz u chá! A dor pareci qui é tirada c’ as mão, ah! Eh! Eh!
      - Antônio, o lanche do pessoal tá pronto – falou a Xerê!
- Ótimo Xerê – intrometi-me. - Vamos juntos Nhô e, no Saurer. O caminhão já está a serviço dos Produtos Nhô!
- Intão tá intão, Misifiu!
Carregamos o lanche para dentro do bauzinho e entreguei-lhe as chaves do possante e falei:
- Toma Nhô, agora só você e o Massa o dirigirão – Nhô pegou as chaves, subiu na cabine, ligou o motor, deu uma acelerada e gritou:
- Vamu qui vamu, pessoá! “Senta a pua” qui hoji a cobra vai fumá!”
Se eu não conhecesse o meu amigo diria que ele estaria tendo um delírio de guerra.

No galpão onde está instalada a indústria dos Produtos Nhô. Lá estava o Cilon todo de branco dos pés até aos cabelos. Até com a máscara no rosto dava para reconhecê-lo devido o seu porte avantajado:
- Seu Lê, a quanto tempo, aliás, a quantos anos não nos vemos, heim?
- Como vai meu amigo? E a Regina? O Celino?
- Estamos ótimos! Então já sabe que temos um pimpolho?
- Eh! Eh! Eh! Intonsi ocê num sabi qui u seu Lê sabi das coisa, Massa - brincou o Nhô.
- Sei sim, Nhô e sei, também, que o seu Lê é nosso anjo da guarda!
- Pessoal, chega de rasgação de seda! Pelo que vejo tudo funciona perfeitamente, não é Massa?
-Sim seu Lê! Não aumentamos a fábrica e nem a produção. Temos os mesmos dez funcionários sem contar comigo, Nhô e a Regina. Optamos por aprimorarmos sempre a qualidade e manter o padrão dos Produtos Nhô. Temos tudo que precisamos para vivermos bem e tranquilos. Ajudamos todos os nossos funcionários a ter suas casas próprias, fornecemos bolsas de estudos para os filhos deles e esperamos mantê-los até quando se formarem numa faculdade.
- Vamos até a cozinha de testes para o senhor provar nossos produtos, seu Lê – convidou o Massa.
Na cozinha equipada e muito limpa do frigorífico, enquanto uma funcionária prepara uns petiscos para degustarmos, eu perguntei ao Nhô:
- Nhô, essa água toda que desce por essa enorme valeta e vai desaguar no Ribeirão Limpo vem daquele local da Serra Madre?
- É sim, Misifiu! Um mêis despois du ocorridu na serra, danô a descê água pela aquela bica lá da minha cunzinha qui tivi, cum a ajuda dus nossus amigu, a fazê um disviu para u Riberão Limpu. A quantidadi qui vai lá prá casa é a mema.
- Caramba Nhô, essa água é puríssima. Vamos colher amostras e levá-las à USV e pedir ao Oscarzinho para mandar analisar. Talvez pudéssemos aproveitá-la em lugar de jogá-la em no ribeirão!
- Si alembra, seu Lê, qui us Flô usava deia prá fazê a cerveja – perguntou-me o Nhô.
- Lembro, é claro! Mas, peraí... o senhor falou usava?
- É falei sim! Eies parau di fabricá a cerveja  i issu já tem um tempão. Acabaru as árvis di bosda. Eies substituiru a bosda por lubul...lubulu...ieu num sei fala a palavra, seu Lê!
- Lúpulo, Nhô!
- Issu! É essi u nomi, mai num ficô bão i aí fecharu a fabriquinha.
- Tive uma ideia Nhô! Mas, vamos conversar sobre ela depois de termos a análise desta água, OK?
- OK, Misifiu!
- Senhores, a mesa com os produtos para degustação está posta – disse-nos Prieta, a funcionária e técnica em alimentos e, que por coincidência, é sobrinha da Maria Prato Feito.
- Brigadu, Prêta! Esti é u seu Lê! Ieli é lá di Minas tamém – apresentou-me a ela o “Véi”.
- Prazer Prieta! Você veio de onde?
- De Ponte Nova, seu Lê. Minha tia havia me falado deste frigorífico e vim trabalhar aqui.
- E está gostando – perguntei-lhe.
- Aqui é o paraíso, seu Lê! É tudo que uma técnica em derivados de carnes sonha em trabalhar.
- Prove esta fatia de presunto defumado, meu amigo – falou o Massa.
Provei:
- Divino, Cilon! Não conhecia presunto defumado! Está ótimo!
- Não esqueça que tudo o que produzimos é de carne de java-porco, OK? – disse o Cilon.
- E por falar nesses animais, como vai a criação deles, meus amigos?
- Proporcional ao que produzimos, seu Lê. Os “cachaços” que “vieram do céu” como diz dona Xerê, são muitos eficientes e o tempo de engorda dos descendentes deles é menos da metade de um porco comum e a carcaça é duas vezes maior.
- Misifiu, porvi essa linguiça pura di pernil qui é temperada cus meus temperu – falou Nhô me estendendo um pratinho com linguiça frita e espetadas no palito.
Provei:
- Eitaaaaah! Conseguiram juntar o que era ótimo com o melhor ainda! Sensacional!
Ficamos ali até por volta das dezessete e trinta e um minutos saboreando aqueles petiscos feitos para os deuses da culinária quando o Nhô me perguntou:
- Misifiu, u qui ocê achô das imbalagi?
- Muito, mas muito criativas mesmo, Nhô! Elas foram feitas onde?
- Vem di fora du Vali mai foi u Julianu qui desenhô prá nóis, eh! Eh! Eh! Ieli feis u desenho só da minha barba, zóio i chapéu i fico iguazin ieu.
- Muito criativa! Só podia ser ideia de um ótimo carnavalesco. E, por falar nele, no Juliano, vamos coletar amostra da água para levar à USV. Vamos lá agora, Nhô.
- Eu vou trazer recipientes apropriados para isso, seu Lê. E, se quiser, eu coleto para os senhores – ofereceu-se a técnica Prieta.
- Ótima ideia, garota! Vamos lá então!
Feito a coleta, montamos na Vermelhona e falei ao Nhô:
- Eu vou dirigir Nhô! Tô morrendo de saudade desta GMC!
- Eh! Eh! Eh! Teji a vontadi, Misifiu.
Liguei o motor, acelerei só para ouvir o ronco do motor e falei da janela:
- Cilon e Prieta, os Produtos Nhô será consumido até em outros mundos! Até logo e parabéns!
- Tá bom seu Lê, sempre brincalhão, heim? Até logo! – respondeu pelos dois o Massa Bruta.

No caminho do frigorífico para Virtuália:
- U qui ocê pertendi com essa amostra da água minerá qui sai da Serra Madri, seu Lê?
- Vamos ver se a qualidade compensará Nhô, por isso é bom a análise. Se compensar... - fui interrompido:
- U qui é qui tem Misifiu?
- Antes me responda Nhô: - o que o Juliano e a família Flores estão fazendo, depois que pararam com a produção da Flor da Bosda, além é claro, do serviço público?
- Só cuidam da horta i du pomar qui ielis fizeru nu lugá das árvi di bosda i, memu ansim, duas veis pur semana.
- Se a água compensar vamos ajudar esses nossos amigos a engarrafá-las, Nhô!
- Ingarrafá a água? Modiquê, seu Lê?
- Para exportar para fora de Hy –Brasil. O senhor sabe o que fizeram com o maquinário da cervejaria?
- Sei! Ieis limparu i vedaru tudu cum lona preta.
- Ótimo!

Chegando à USV por volta das dezoito horas e trinta e um minutos:
- Em três horas a resposta da análise estará pronta, senhores.  – falou o Oscarzinho enquanto entregava as amostras ao professor e engenheiro químico da USV.
- Agradeço Oscarzinho, mais esta ajuda!
- Nós é que agradecemos o teu apoio financeiro para nossos projetos de pesquisas, seu Lê – respondeu-nos o reitor e amigo Oscarzinho.
Despedimo-nos e fomos para a casa dos Flores.
- Já são quaji seti hora da noiti, seu Lê. U pessoá dus Flô já dedi tá todu im casa – disse-me o “Véi”.
- Então vamos conversar com todos ao mesmo tempo. Depois vamos passar no Boteco, cumprimentar nossos amigos e aí retornaremos na USV para pegarmos o resultado da amostra da água com o Oscarzinho. Tenho certeza que ele vai estar nos esperando para entregá-la pessoalmente, OK?
- Tá certu, Misifiu!

No CSV, na casa dos Flores, depois de verificar todo o maquinário e matar a saudade que parecia de séculos dos meus amigos:
- Então está combinado, Juju, vamos engarrafar a água mineral que jorra da Serra Madre. Tenho certeza que é muito boa. Já falei com todas as partes que se envolverão para a instalação da engarrafadora e...
- Mas seu Lê, como faremos? A mina fica lá no sítio do Nhô?
- Vamos levar todo o maquinário para lá, Hibisco. Faremos um galpão para isso e usaremos o espaço, para estocagem, do sistema de distribuição do frigorífico. Quase toda a água será exportada de Hy-Brasil já que a água potável, do Vale do Rio do Peixe, que é distribuída pelas cidades é puríssima e não temos mercado aqui para esse produto.
- A engarrafadora de água funcionará na parte da manhã nas segundas, quartas e sextas-feiras  para que todos possam continuar com seus empregos públicos na prefeitura na parte da tarde, certo? Às onze horas vocês param tudo, almoçam no frigorífico e depois seguem de ônibus urbano, que passa por aqui as onze e cinquenta ou vão na Variant do Juju à prefeitura. Terão registro em carteira do trabalho, salário de oitocentos e cinquenta dinheiros cada e participação no lucro de cinco por cento no final do balanço financeiro  de cada ano. Finalizando:
- O que vocês me dizem, membros da família Flores?
- Aceitamos! – foi a resposta em coro.
- Então está acertado, OK?
- OK, seu Lê, estaremos torcendo para que dê tudo certo – falou o Zé das Flores.
- Vai dar sim, seu Zé – respondeu o Juju ao “sogro”.
- Seu Lê e Nhô, jante com a gente. A Begônia fez frango com quiabo, angu e couve cortada bem fininho.
- Ieu aceitchu – antecipou o Nhô.
- Mas antes, seu Lê, vamos saborear umas Flor da Bosda. Ainda temos aquela reserva que guardamos para quando o senhor vier nos visitar – disse o Beijo.
- Caramba, como posso resistir a um convite destes? Nhô, iremos visitar nossos amigos no Boteco outro dia. Depois de sairmos daqui passaremos na USV para pegar o resultado da análise e retornaremos ao sítio, OK?
- Certu Misifiu!

Por volta das vinte horas e trinta e um minutos:
- A prosa tá muntchu boa mai temu qui í, pessoa! U Bittencurt num godtcha di viajar di noiti... – interrompi o Nhô:
- Que Bittencourt, “Véi”? Esqueceste que estamos com a GMC?
- Eh! Eh! Eh! A veíci já tá mi afetanu, misifiu!
Na USV:
- Aqui está o resultado da análise, seu Lê! Pedi que ele os aguardasse até esta hora porque o resultado é sensacional. Vou pedir ao doutor em química, Geraldo Taufik, para te explicar, OK?
- OK, doutor Geraldo! Muito prazer em conhecê-lo!
- Idem, idem, meu caro jovem. Esta água é tão cristalina e composta com todos os elementos químicos que nosso organismo precisa para se manter saudável e rejuvenescido. Eu diria que essa água é uma água dos deuses.

Continua em 05/10/2013 em:
Rô & Lê:
Virtuália
FOREVER 


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

ARRET
A NOVA MORADA
Produtos
NHÔ
     - Paréci qui tá tudu normá, Misifiu!
- É mesmo, Nhô! Ainda bem que não afetou em nada e...
- Bom dia seu Lê – cumprimentou-me a Xerê.
- Bom dia – respondi à bisavó mais amável do universo, que trazia a risonha Ritinha  no colo.
- Antônio, nós temos que arrumar alguém para cuidar da criação de java-porco. Depois de amanhã temos que entregar uma carcaça para o açougue, umas partes nobres para o Boteco de Caldos, para o Restô e para Maria Prato Feito. Não vamos conseguir. Nós não temos mais idade para tanto esforço, meu Nêgo!
- É diveras, minha preta, ieu...- resolvi interromper o diálogo dos dois:
- Tive uma ideia, “Véi”! Vamos para Virtuália resolver este assunto e ao mesmo tempo trazer a carroça, OK?
- Vocês vão agora? Já tá quase na hora do almoço. Em meia hora o assado estará pronto. Só falta picar os legumes e lavar a chicória e a radite.
- OK! Convenceu-nos, Xerê, vamos depois do almoço! Não é Nhô?
- Cum certeza, Misifiu! Inquantu nóis fais a salada, nóis toma uma Flor da Bosda, eh!Eh!Eh!
- Santas palavras, Nhô!

Depois do almoço , logo após lavarmos a louça para a patroa do Nhô, a caminho de Virtuália:
- O lombo assado de java-porco estava divino, não é Nhô?
- Ôôôô...si tava! A Xerê aprendeu a cunzinhá venu ieu cunzinhanu. Iela é uma cabocra isperta pur dimais, eh!Eh!Eh! Mai seu Lê, qui indeia qui é a sua sobri a criação di  java-porcu?
- Vamos conversar com o Cilon Massa Bruta. Ele tá morando na casa que herdou da mãe dele. Dizem que ele está até casado, Nhô!
- Eh! Eh! Eh! Vai vê qui foi a muié qui colocô ieli nu prumu – disse sabiamente o Nhô!

Chegando ao bairro Cardilândia, periferia de Virtuália:
- É aqui nesta rua! Rua Nelson Ferreira número quatrocentos e oitenta e quatro. Lá está ele!
- Ieli tá parrudão du memu jeitchu. Ieli é capais di  mata um java-porcu criadu cum um biliscão, eh! Eh! Eh!
- É bem capaz, Nhô, ah! Ah! Ah!
Paramos e descemos da GMC e, que a meu pedido, o Nhô veio dirigindo e muito bem, por sinal:
- Ô Cilão, ôce tá bão, Misifiu?
- Grande Nhô Antônio, o senhor parece mais jovem a cada vez que te encontro!
- Massa, essi aqui é u seu Lê. Ieli é u mió amigu, linhais, ieli é um pai prá todu mundu di Virtuáia.
- Prazer senhor Lê, já ouvi falar muito da vossa pessoa – falou o Cilon espichando a enorme mão direita em cumprimento.
- Em que posso servi-los. Só não reparem, pois estou arrumando minha mudança. Vou tentar a sorte lá no Mato Grosso – disse-me o Massa.
- Mato Grosso? Em que cidade Cilon – perguntei-lhe.
- Em Várzea Grande, senhor Lê, num frigorífico. Eu e minha esposa estamos só esperando a resposta de emprego de um amigo meu, de quando estava no presídio, e que está morando lá. Minha mulher, com certeza vai conseguir, pois sabe fazer todos os tipos de embutidos e derivados de carnes. Vamos juntar a fome com a vontade de comer, ou seja, o útil ao agradável.
- Misifiu, ôceis num vai percisá í tão longi prá trabaiá. Ieu i u seu Lê temu uma porposta prôceis!
- Nhô, prá falar a verdade, até minha propriedade já aluguei. Meus móveis já estão quase todos embalados. Se a resposta do meu amigo for negativa, nós vamos assim mesmo, ou seja, na cara e na coragem.
- Posso falar da proposta, Cilon? – insisti.
- Por favor, senhor Lê, sou todo ouvidos. Mas, espere um pouco que vou chamar a minha outra metade – disse-me isso e gritou:
- Regina, por favor, meu doce, venha até aqui na varanda!
- Já vou Ci, estou terminando de passar café!  Quantos amigos teus tem aí?
- Dois, minha paixão!
Regina surge na porta da sala com uma bandeja, uma garrafa térmica vermelha, quatro xícaras e um recipiente com diversos biscoitos caseiros. Ela é uma jovem mulher, talvez com seus vinte e oito anos. Forte, sorriso perfeito e enfeitado por um par de olhos azuis indescritíveis.
- Boa tarde senhores – disse a mulata exuberante.
- Rê, estes são Nhô e o senhor Lê! Eles têm uma proposta para nos fazer. Podem falar, seu Lê!
- Prazê dona Regina - disse educadamente o Nhô; fiz o mesmo e comecei a falar:
- O Nhô está precisando de um casal para ajudar ele e a Xerê a continuar com o negócio de java-porco. A criação está muito grande e a procura por este tipo de carne aumentou assustadoramente. E os dois não estão dando conta dos serviços. Para resumir: nós contratamos vocês dois como funcionários do frigorífico que abriremos no sítio do Nhô. Terão todos os direitos trabalhistas, uma casa de alvenaria com todo o conforto da cidade e um salário de um mil dinheiros para cada um e...
- O que você acha Regina – perguntou o Massa me interrompendo.
- Negócio fechado! Quando começaremos senhor Lê?
- Hoje mesmo – disse e continuei falando e tomando o delicioso café:
- Vou com o Nhô lá no Descampado dos Moleques buscar um pangaré e colocá-lo na carroça do Nhô que ficou no estacionamento do Boteco dos Caldos. Separem as malas de vocês que o Nhô virá em meia hora, nesta caminhonete, para levá-los ao sítio. Eu seguirei depois de carroça.
- Seu Lê, ôce num qué invertê? Ieu cuidu da carroça i u sinhô leva ieis?
- Nhô, eu quero que o senhor vá se habituando com a  Vermelhona e a dirigi-la com mais frequência. 
- Já qui ôce qué, intão tá quistu, eh! Eh! Eh! Falanu divera, ieu adoru dirigi essa belezura.
- Então vamos lá, Nhô! Cilon, em meia hora, OK?
- OK, seu Lê, em vinte minutos estaremos prontos!

No Descampado dos Moleques:
- Este é o pangaré, senhores! Eu o chamo de Salzano, mas ele nem abana o rabo para esse nome! Podem levá-lo.
O Nhô colocou nele um cabresto, jogou um pelego no lombo do cavalo e montou em cima e falou, acariciando o pescoço do pangaré:
- Num si preocupa não viu, Salzanu; ôce vai ficá mai é discansanu nu pastu. Vai cumê só capim novu, aveia di pimêra i bebê só água minerá.
- Nhô, não sei se o senhor reparou que esse pangaré não vai correr atrás de égua nenhuma? E que nem vai atrapalhar o casal Bittencourt e Cachoeira?
- Eh! Eh! Eh! Foi a premêra cousa qui oiei, Misifiu!
Incrível! Parece que o cavalo entendeu. Deu um relincho e o Nhô seguiu em seu dorso apreciando a marcha troteada do animal. Eu os segui na GMC.

No estacionamento do Boteco dos Caldos:
- Nhô, pode ir levar a Regina e o Massa. Vou mais tarde! Tenho que conversar com o prefeito Jairo Edson sobre uns projetos que tenho em mente. Depois coloco você e a Xerê por dentro dos assuntos, OK?
- Tá bão, Misifiu! Ansim qui acomodá u Cilão i a dona Regina nu quartu di óspidi, ondi ieis vão ficá inquantu a mudança deies num chegá na casa di arvenaria, ieu vô mostrá prô Cilão u jeitchu di sangrá i distrinchá um java-porcu lá nu nossu matadô. Nóis vamu dá conta das intrega urgenti, eh! Eh! Eh! 

Pouco depois, no sítio:
- Bão, já qui ieu apresentei a dona Regina prá Xerê, nóis vai lá pru matadô, Massa. A Xerê i ôce já si conhecia há muntchu tempu, num é memu?
- É sim Nhô, desde os tempos em que eu vivia nas ruas. A Xerê muito me ajudou!
Regina, que estava com a risonha Ritinha no colo, se prontificou:
- Se precisarem de mim para separar os miúdos dos “porcões” é só chamar, tá bom?
- OK, Rê – respondeu Massa.

No Matadouro, o Massa sugeriu:
- Nhô, vamos sangrar aquele de tamanho médio e que está muito agitado. Devido ao adiantado do horário, só vai dar tempo, ainda hoje,   de limpar, destrinchar, separar o sangue e os miúdos para fazer chouriço. Aquele grandão eu preparo amanhã cedo. Por volta das cinco horas eu já estarei aqui e, até às seis e meia já estará pronto para levar para os clientes. O senhor levava como as carnes para a cidade, Nhô?
- Di carroça, Misifiu. Ieu i u Bittencourt.
- E amanhã, como vamos levar?
- Na Vremeiona du seu Lê. Ieli já otorizô. Vô colocá uma lona preta na caçamba déia i levá. Vai sê dois palitu, eh! Eh! Eh!
- Essi qui ôce abatê hoji, i perpará as parti, ficará naquéia geladerona qui tá pertu da pia, tá bão, Massa?
- Ótimo Nhô! O seu matadouro é muito limpo, azulejado, arejado e tem água mineral em abundância. As pocilgas de confinamento são perfeitas, Nhô! Quem deu a ideia de fazê-las assim?
- U seu Lê! Ieli trôxi a indeia lá di Minas Gerais. Diz ieli qui im Ponti Nova é ansim qui si trata di porcu para abati.
Por volta das dezenove horas, tudo já estava limpo, a carne na geladeira e a Rê cozinhava os quase três quilos de chouriço, quando cheguei:
- Caramba, é a primeira vez que sinto um cheiro de “morcilla” tão bom – falei aos meus amigos que estavam na cozinha do mini-frigorífico do sítio.
- O chouriço já está quase no ponto seu Lê! É uma receita especial criada pela minha Rê. É Uma iguaria dos deuses!
- Eh! Eh! Eh! U Kobausqui é qui vai gostcha, seu Lê!
- Talvez nós o convidemos num futuro próximo; ele e o Etevaldo para vir aqui saborear os quitutes da dona Regina, OK?
- Quem são essas pessoas, seu Lê – perguntou o Massa.
- É difícil de te explicar, Cilon! Só apresentando-lhes. E farei isto logo, logo!
- Pessoal, vou dar a janta da Ritinha e fazê-la dormir. Daqui a pouco eu volto!
- Tá bom minha amiga. Em trinta e um minutos o chouriço estará pronto – disse a Regina.
- Estou louca para provar. Vou trazer uns pães, que assei hoje, para acompanhar – disse a Xerê.
- Num percisa trazê Xerê! Nóis vamu levá u churiçu lá prô varandão da cunzinha di casa, tá bão? Daqui mai um pôcu nóis vamu tá lá. Vamu tomá umas branquinha i bebê umas Frô da Bosda juntu.
- Esse é o meu amigo Nhô – falei salivando.
- Eu e a Rê não ingerimos nada que contenha álcool, meus amigos. Foi nosso pacto de casamento – disse o Massa.
- Parabéns, Cilon e Regina, há muito também sou adepta ao não-álcool – disse Xerê e prosseguiu:
- Vou fazer um suco de laranja com cenoura para a Ritinha e para vocês, OK?
- Nossa, Xerê, como adivinhou que gostamos desse tipo de suco – perguntou surpresa a Rê.
- Pela pele de vocês e a disposição para a vida!

Meia hora depois no varandão:
- Regina, o Cilon tem razão, isto é uma iguaria divina. Nunca tinha comido chouriço tão saboroso e, além disso, é de java-porco!
- É porque o senhor não provou o presunto, linguiça e os defumados que a Rê sabe fazer, seu Lê!
- Não vai faltar oportunidade já que permanecerão com a gente, não é Nhô?
- É deveras, seu Lê! Mali pregunti Misifiu, u qui ôce conversô cum u prefeitu?
- Fui dar-lhe a ideia de fazer um ponto turístico onde caiu o meteorito. A cratera vitrificada que ficou no chão é exuberante. O parque de exposição poderá ser reconstruído no Descampado dos Moleques já que o terreno é da prefeitura e há muito tempo os meninos preferem as quadras de esportes das escolas e as municipais. Outra coisa  que conversei, também, foi sobre a venda de derivados de java-porco para as merendas da rede pública da educação, asilos e creches de Virtuália e vou conversar com os prefeitos das outras cidades do Vale Virtualiano do Rio do Peixe.
- Mas que boa ideia, seu Lê, além de atender toda a rede de comércio no varejo dos nossos produtos vamos fornecer às prefeituras – falou o Cilon.
- Nhô, para as entregas o senhor vai usar a GMC. Vou deixá-la contigo até trazer uma preciosidade que vi em Belém do Pará para o senhor. Vai ser uma surpresa e tanto. A carroça ficará para outros tipos de serviços. Talvez eu retorne para Minas amanhã à noite e na minha próxima visita, trarei a surpresa, ok?
- Nossa, seu Lê, qui maravia!
- Mais um detalhe que ficou faltando acertar com o Massa e a esposa dele... é o seguinte: - assim que estabilizarmos no mercado de todo o Vale, o Cilon e a Regina terão participação nos lucros, OK?
- Ieu i a Xerê já ia propô cousa paricida, seu Lê. Foi bão u sinhô toca nu assuntu. Ieu i minha véia num percisamu di mai nada, pois temu tudu aqui. Tarveis pru futuru da Ritinha ieu tinha pensadu... – interrompi o Nhô:
- Já falei com o prefeito e iniciei a abertura do frigorífico como uma empresa de fato. A Ritinha será a sócia com cinquenta por cento da empresa, trinta por cento ficarão com o Cilon e a Regina e os outros vinte por cento diluídos entre os funcionários.
- Pelo amor de deus, senhor Lê! Por que o senhor está fazendo isso por mim, quer dizer, pela gente – perguntou o Massa admirado.
- Não tem explicação, meu amigo! Para ajudar os amigos não é preciso de muitas explicações – disse-lhe e continuei:
- Fazendo assim estaremos todos nos ajudando, ou seja, eu ajudo vocês e vocês ajudam a família do Nhô, OK?
- Perfeitamente – disse o Cilon e a Regina ao mesmo tempo.
- Nhô, eu não vou poder ficar para o rodeio, pois sinto que terei que voltar para Minas. Tudo, no tocante ao frigorífico, já está acertado com o prefeito, secretário de obras, meio ambiente e com a secretaria de higiene, saúde e sanitária. Quando eu retornar por aqui, tenho certeza, vou encontrar tudo funcionando. Já encomendei todo o maquinário para a empresa. O fornecedor entregará tudo instalado e funcionando.
- Eu tenho a minha sugestão para o nome do frigorífico... e vocês, o que sugerem?
- Ieu num tenhu nem indeia – disse o Nhô.
- Eu sugiro: Frigorífico do Nhô – disse a Regina .
- Ótimo nome – disse a Xerê e prosseguiu:
- Os produtos poderão simplesmente chamar: Produtos Nhô, ou seja: Presuntos Nhô; Linguiças Nhô, Apresuntados Nhô; Bacon Nhô e... – interrompi a Xerê:
- Impressionante como o universo está conspirando a favor! Foi exatamente a ideia que me surgiu!
- Eh! Eh! Eh! Virei nomi de cumida feita cum carni di java-porcu! Eita porquêra de indeia porreta, sô!
- Ah! Ah! Ah! – gargalhamos geral.
A prosa e trocas de ideias foram até altas horas até que a Xerê falou:
- Vou me recolher que estou pregadona!
- Ieu vô cocê, minha preta! Oji ieu tô mortim, eh! Eh! Eh!
- Vamos Cilon, amanhã cedo temos muito que fazer – disse Regina ao marido.
- Eu também vou me recolher. Vou lá para o meu cantinho descansar um pouco e lá pelas três e trinta e um minutos da manhã eu “me pirulito”, OK, pessoal? Boa noite para todos!
- Boa noite - responderam.
Continua em 28/09/2013 em:
Água
dos
Deuses