sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

VIDA EM VIRTUÁLIA


ARRET
A NOVA MORADA

Stephen Skov

            Enquanto comia, Stephen narrava:
            - Eu estava vindo para o casório do meu amigo Goró e, quando passava pela estrada de chão batido, que margeia Bispo-Cardeal , um ser todo esverdeado e com cara de calango saiu do mato me estendeu a mão com uma garrafa de uísque doze anos. Como eu estava seco de vontade, de tomar umas doses, peguei a garrafa no ato. Quando segurei a garrafa ela tentou me agarrar com suas mãos de quatro garras afiadas. Como eu estava sóbrio e, ele era muitíssimo lento, me livrei dele, saí correndo e ele começou a soltar uns urros horríveis quase me acertando com uma arma que atirava umas bolinhas, que quando caiam no chão, fervia e abria um buraco.  Foi aí que corri até vir parar aqui. Teve uma hora em que vi umas luzes piscando na estrada e corri para o mato. Como conheço a região vim cortando caminho e bebericando uísque.
            - Essa criatura era lenta porque não está adaptada com a  gravidade terrestre; o planeta deles está perdendo a força de atração, que já era a metade da Terra, e eles andam em busca de outra morada, assim como os da raça de Kowauski. As luzes, que vistes, era do carro de polícia. Era o Carabina que ia fazer ocorrência a respeito do chupa cabras que está aparecendo na região – falei ao Stephen.
- Será que era o chupa cabras, moço – perguntou o Stephen e continuou:
- O uísque que ele me deu era genuíno; sequei a garrafa e não estou nem com dor de cabeça!
- Você tem que ir a Santa Casa Sem Misericórdia de Virtuália para tratar desses ferimentos, eles estão inflamados e pode  piorar. Eu e o Nhô vamos deixar você lá e depois vamos para o sítio, certo “véi”?
- Ôce é qui manda seu Lê – respondeu-me o meu amigo ancião e falou ao Stephen:
- Óia, misifiu, essis seus machucadu é cousa di ostru mundu. Minhas erva num dá conta dissu não!

Deixamos o Stephen internado na “Sem Misericórdia”, pois a febre estava aumentando e direcionamos-nos para o sítio.
Perto do sítio um táxi vinha pela estrada e parou do nosso lado:
- Boa tarde Nhô, seu Moço... deixei um gringo lá no teu sítio Nhô!
- Brigadu Firminu! Achu qui já sabemu quem é, né seu Lê?
- Com certeza!
- Então até outra hora, Nhô!
- Intão, inté Firminu!
- O Richard já está de volta! Deve estar entusiasmado com a possibilidade de ir para Arret!
- É memu, misifiu, mais só si u Kobausqui artorizá – completou o meu raciocínio o Nhô.

Quinze minutos depois e a penumbra da noite já dificultava de enxergar longe:
- Ôce consegui vê, daqui, u Ricu na frente du sítiu, misifiu?
- Eu vejo a frente do sítio, mas não vejo ninguém parado lá – respondi.
- Dédi tá lá nus fundu bebenu água du poçu ou comenu carambola; ieli gostô muntchu das minha carambola!
Entrando pela porteira lateral do sítio:
- Óia iele lá! Num falei, tá comenu carambola, eh! Eh!Eh!
- Hello my friends, olha eu de volta! – gritou Richard.
- Banoiti Ricu, ôce tá bão?
- Ótimo, mas não tanto como o velho Nhô Antônio – respondeu o gringo.
- Como vai, seu Lê, tudo ok?
- Tudo bem Richard! Foi providencial a tua vinda. Aqueles seres que te abduziu, creio eu, estão nesta região – informei ao gringo que arregalou os olhos de preocupação.
- Co... como as...assim? Tem certeza?
- Amanhã vamos à Santa Casa Sem Misericórdia para você conversar com o Stephen. Ele viu o ser e quase foi pego por ele. Talvez seja da mesma raça do que falastes.
- Será que estou sendo rastreado por eles, seu Lê?
- Talvez Richard! Depois de falarmos com Stephen vou tentar contato com o Kobauski em Arret. Pode ser que ele antecipe a vinda dele a Virtuália.

Na manhã seguinte acordamos com alguém chamando pelo Nhô. Era o Stephen que tinha fugido da Santa Casa:
- Não tinha porque eu ficar internado, eu não tenho nada! – dizia o sóbrio bebum.
- Como não tem meu amigo? Olhe os seus ferimentos, estão piorando as inflamações!
Nhô que preparava o café ouviu o relincho do seu pangaré e olhou pela janela:
- U qui ôce qué cavalu véi, ieu percisu terminá... - Nhô olhou para o lado do ribeirão e me perguntou:
- Seu Lê, ôce chamô o Kobausqui esta noiti? Vem vê u crarão lá pertu das pitanguera!
- Contatei sim, Nhô! Mentalizei do jeito que ele me ensinou! – respondi-lhe.
- Dédi sê ieli intão que tá querenu passá pelu portá. Vamu toma um café reforçadu qui hoji num vai sê fáci. U café tá prontu tem: pão doci, geleia di amora, brôa di míu, mandioca cuzida, ovu mixidu i sucu di tapereba; vamu forrá u istrongu, pessoá!

Meia hora depois na margem do ribeirão, perto dos pés de pitanga:
- Iei já tá vinu, seu Lê, u bríu armentô de craridadi – gritou o Nhô e de repente, passando pelo portal, entre as duas árvores:
- Bom dia, meus amigos! Aqui estou seu Lê, por que me chamou – perguntou o Kobauski.
- Bom dia, Kobauski! Vamos lá para a sede do sítio. Você toma café e conversaremos – sugeri.

Dez minutos depois, enquanto o alienígena se empanturrava de broa – ele adorava essa iguaria:
- Foi por isso que te chamei – falei ao habitante de Arret, expondo a situação.
- Vamos para Arret agora, mas tenho que examinar esses dois... senhores... quem são?
- Richard – apresentou-se o gringo.
- Stephen Skov, seu criado – identificou-se o sóbrio bebum.
- Cheguem aqui perto e sentem-se de costas para mim. Um do lado do outro – pediu o Kobauski.
Ambos obedeceram e o alien amigo retirou um aparelho - do tamanho de um controle remoto comum -, do bolso do macacão dourado e colocou dois fios, que saiam desse aparelho e, que nas extremidades opostas tinha cada fio, uma ventosa com um eletrodo. Kobauski ligou o aparelho e projetou na parede da varanda uma tela com duas imagens: uma do cérebro do Rick e outra do mesmo órgão do Stephen e, disse:
- Olhem, são dois chips semelhantes. Foram colocados com o mesmo padrão. Vou inutilizá-los, temporariamente, até chegarmos aos laboratórios de Arret. Lá os extrairemos e depois os analisaremos!
- Não vai doer, seu moço - perguntou o Stephen.
- Não, de jeito nenhum! Será simples. Tome essa cápsula, Skov e, passe esse líquido nas tuas feridas que em poucos minutos começarão a coçar e cicatrizarão!
Kobauski pediu-nos que o acompanhasse até ao portal e, posteriormente, até a esfera dourada. Mas, antes, com outro aparelho parecido com um GPS terrestre disse-nos;
- A criatura reptiliana está do outro lado de Serra Madre. Está desnorteada, pois desliguei os chips de vocês dois. Olhe aqui seu Lê, veja as imagens dela!
- Caramba, meu amigo, ele tem cabeça semelhante aos lagartos terrestre e o corpo humanoide! Como consegue essas imagens, Kobauski?
- Utilizo um micro satélite nosso, que está na órbita da Terra. Vamos rápido, não podemos perder tempo – apressava-nos o Kobauski.
Chegando em Arret, eu e o Nhô, ficamos na casa dos parentes de Kobauski conversando com o Etevaldo. Richard e Stephen ficaram no laboratório com os cientistas arreterianos e o Kobauski.
- Não trouxemos o Juliano e nem o Beijo porque se tratava de uma urgência, Etevaldo, mas o que foi tratado antes está valendo, ok! Já está quase tudo pronto lá em Virtuália. Depois do carnaval eles virão para a nova morada.
- Sei disso seu Lê, meu pai já me colocou a par da situação. E por falar nele, aí vem ele:
- Seu Lê, foi bom você ter me chamado, o chip que estava no Richard armazenava todas as informações do cérebro dele e continuava captando, inclusive, imagens – explicava-me o Kobauski.
- Imagens? Como?
- Através dos olhos de quem tem esse tipo de chip. É como que o espírito da pessoa estivesse sendo copiado paralelamente!- tentou explicar o Kobauski.
- Intão iele vai contra as lei du criadô. U ispirtu num pode sê copiadu, iele é únicu – intercedeu o Nhô.
- Foi uma maneira de falar Nhô. Copiam só as informações adquiridas, só isso – disse Kobauski.
- Mas Kobauski, por que tem um chip na cabeça do Stephen? Ele é só um humano que se desiludiu com o mundo – perguntei não entendendo direito.
- Isto é o que você pensa. O Stephen é um cientista de uma nação da antiga URSS, melhor dizendo, de Tadjiquistão. Ele desapareceu de seu país há muito tempo. Pensam, até hoje, que o antigo regime o tenha matado, pois era um arquivo vivo de conhecimentos e não concordava com a situação do seu povo diante da liberdade restrita. Ele fala vários idiomas e tem um QI altíssimo.
- Peraí, cientista? O Stephen?  - espantado ponderei.
- Isso mesmo! Um gênio em física nuclear, quântica, matemática, química e astronomia. O que ele sabe é universal. Em qualquer parte do infinito é aproveitado.
- Eh! Eh! Eh! Ninguém dava nadica di nada prá ieli, alinhais, dava sim: cachaça! – brincou o Nhô.
- Onde eles estão, Kobauski – perguntei preocupado.
- Estão em recuperação em um hospital da capital de Arret. Em algumas horas eles poderão ir para a Terra com vocês. Não vão estranhar o novo Stephen, hein? 
- Pru que, Misifiu – perguntou o Nhô.
- É que depois que removemos o chip de seu cérebro, todas as disfunções do sistema nervoso dele foram curadas. Era o chip que o deixava naquele estado lastimável!
- Então está explicada a abdução e a tentativa de quererem pegá-lo novamente falei e continuei com minhas perguntas:
- Mas, Kobauski, e as informações que os reptilianos, digamos assim, já conseguiram? Creio que a maior parte já está com eles, não é?
- Não, seu Lê, nossos amigos só sofreram a primeira abdução; seria na segunda captura que eles pegariam  os dados. Os chips foram apagados por nós. Eles usam um sistema antiquado. Os nossos... – interrompi o Kobauski:
- “Os nossos”? Então vocês usam o mesmo expediente? Vocês também fazem abdução?
- Fazíamos! Paramos com isso há muito tempo, aqui na Terra! Preferimos os contatos do tipo que fizemos com vocês. Nossas estruturas são semelhantes, ou seja, nossa cadeia de DNA é a mesma, tanto é que o Etevaldo é meu filho com uma asiática terrestre. Em seres inteligentes, de outras espécies, na maioria das vezes, fazemos esses implantes. Porém, os nossos, com o tempo é absolvido pelo organismo do abduzido. As informações nós conseguimos com uma espécie de “via satélite” intergaláctico. Só fazemos abdução uma só vez.
- Deu para entender- falei ao Kobauski.
- Ieu tô meiu boianu, mais ieu preguntu: - quandu podemu vorta pru meu sítiu seu Kobausqui?
- Daqui a pouco eles serão trazidos para cá, faremos uma refeição e voltaremos para seu cafofô, certo Nhô – respondeu pelo pai o Etevaldo.
- Intão tá, intão, Etevardu, nóis vamu isperá –disse nosso preto velho.
- Seu Lê, enquanto eles não chegarem, vamos dar uma volta no pomar, jardim e horta montados com os vegetais que trouxemos da Terra – disse Kobauski.
- Ótimo, vamos sim! O que achas da ideia, Nhô?
- Muintchu bão, patrão!
Passeamos por hora e meia (terráquea) e a diferença entre os vegetais terrestres plantados aqui não tem como comparar; parecem outros vegetais. São mais viscosos, maiores e de aparência superior.
- Seu Lê, o Rick e o Stephen já estão lá em casa. O Etevaldo já me contatou. Vamos voltar! Subam no flutuacar – meio que ordenou o alien amigo.
- Ok! Vamos lá – respondi.
- Seu Kobausqui, aquilu qui pareci uma melancia di pertu daquéias abobras giganti   é u que – perguntou o Nhô.
- É melancia Nhô! Na refeição que faremos teremos dela para vocês provarem – respondeu o pai do Etevaldo.
Alguns minutos depois, na varandona da casa de Kobauski:
- Sabe que carne é essa Nhô Antônio – perguntou o Kobauski.
- Pareci pêxe mais é muntchu saborosu – respondeu o preto velho.
- É surubim! E são de descendência dos do Rio do Peixe – disse o Kobauski.
- Muntchu bão! I a melancia é mais doci e mais vremeia du que as da Terra, mais as sementi são du memou tamanhu – observou o Nhô.
- Que bebida é esta Kobauski – perguntou o novíssimo Stephen.
- É suco de graviola terrestre com arifli, uma fruta natural de nossa antiga morada – respondeu o anfitrião.
- Não dá para falar com o que parece, mas lembra do gostinho da graviola, mas é diferente - completou o Stephen.
- Pai, o portal foi liberado e temos que ir, apressemo-nos – interferiu o Etevaldo.
- Ok, ok! Vamos andando pessoal – falava-nos o Kobauski.
- Como vamos lidar com os reptilianos que estão lá no Vale Virtualiano do Rio do Peixe – perguntei a um dos amigos arretianos.
- Não estão mais! Mandei uma tropa para expulsá-los do seu sistema solar. Através dos chips, retirados dos nossos amigos, foi fácil localizar cada uma das sete expedições deles na Terra. Podem ficar descansados.

Em algumas horas o portal entre as duas pitangueiras se abre e, dele, saem todos os terráqueos e também o Etevaldo.
- Ficarei aqui, pai! Retornarei após o carnaval com nossos amigos, conforme combinado, ok!
- Ok, meu filho! Trabalhe junto com Richard e Stephen nas pesquisas do ouro monoatômico que Rick supõe existir abaixo da jazida de plutônio. Se for do teor que o engenheiro me mostrou viremos buscar cada grama que essa grande jazida produzir – disse Kobauski.

Dezessete horas e onze minutos depois no sítio do Nhô:
- Nhô, eu tenho que retornar ao sítio do meu filho Thiago agora.  No carnaval retornarei para acompanhar a ida da turma para a nova morada, ok!
- Comu ieu semprei digu: ôce é qui sabi, Misifiu! É ingraçadu, pareci qui ôvi arguem ti chamanu! É uma vozinha de muié mais paricida cum vóiz de minininha. Vô lá na frenti oiá quem é! Tá bão seu Lê?
...

- Lê! Ôôôôô... Lêêê, daí dessa espreguiçadeira e volte comigo para a cama! São cinco e quinze da manhã. Venha, vamos aproveitar e dormir até as dez. Depois eu vou fazer surubim frito, arroz de alho,  salada de pepino e rabanetes. De sobremesa, aquela melancia que o Thiago colheu para nós. Veja só que imensa – falou com o pezinho direito, que calçava uma pantufa de pom pons, sobre a enorme e rajada fruta esverdeada.
- Tá certo, meu “pitéu”, afinal férias são para isso e... – fui interrompido:
- Olhe Lê, aquelas luzes que saíram de trás daquela serra? Elas de juntaram com a maior que estava parada e só piscando alternativamente entre vermelho, verde e amarela. Olhe, olhe... estão aumentando os brilhos e acererando... caramba, desapareceram numa velocidade incrível!
- Parece que eles foram embora, Rô. Acho que tem alguma raça superior nos protegendo! – falei.

Continua em:

Da TERRA
A ARRET

sábado, 2 de fevereiro de 2013

COISAS DA VIDA


Monólogo com um símio

BR-319, Manaus/AM – Porto Velho/RO, Km-171 (não é gozação ao código penal).  Meados de maio de 1979.
Estávamos há duas semanas naquele canteiro obras da Consag (Construtora Andrade Gutierrez) que mantinha a conservação daquela rodovia federal. Eu e outro técnico concluímos ¾ do inventário físico/patrimonial daquele canteiro:
- Hoje é terça-feira Lê, no ritmo em que estamos sexta, à tarde, vamos para Manaus e pegarmos o voo que nos levará para Belo Horizonte!
- Certo! Sexta à tarde, nós vamos para Manaus, mas eu vou ficar sábado lá; tenho uma lista de importados para comprar até estourar a cota de quinhentos dólares. Domingo eu embarco para a capital mineira – respondi ao José Carlos e levantei-me da mesa do almoço do, “saúnico” (cruzes, que palavra), refeitório e, o Zé me zombou:
- Já sei você vai lá admirar a onça ferida e dar sua maçã, da sobremesa, ao Chico! Estou certo?
- Acertou! Eu não suporto vê-los naquelas jaulas. Deveriam soltá-los, pois já estão quase curados!
...
            Parei defronte a jaula do Chico. Chico era um macaco-barrigudo da família dos cebídeos. Era um espetáculo de primata na sua cor alaranjado-ocráceo, apesar do olho esquerdo vazado:
            - Meu amigo Chico, deve ser difícil você ficar nessa jaula com esse paraíso e liberdade à nossa volta! Mas, fique tranquilo que é só até sua perna se curar, entendeu? – o macaco ficava só me encarando sem esboçar nenhuma reação ou sentimento. Espichei a mão para dar a ele a minha sobremesa – uma maçã argentina. O Chico continuava do mesmo jeito a me olhar e inerte sequer deu atenção à fruta que fiz rolar até ele.
...
Nos dias atuais, trinta e três anos após, com meu netinho de um ano no colo, no zoológico em Belo Horizonte, diante de um espécime da mesma família do Chico e:
- Incrível! Ele tem o olho esquerdo vazado – o macaco nos olhava quieto e fixo.
Nos dias de hoje, depois de muito tempo, me “toquei” e entendi que aquele símio, lá do interior do Amazonas, estava se comunicando comigo à sua maneira. Ele deve ter pensado:
            - “Gorilas me mordam”! Que “pelado” idiota! Não sabe que, por falta do 1% dos genes – os da inteligência ilimitada, da fala e do raciocínio lógico -, eu não posso lhe responder? Ah! Se eu pudesse, eu diria a ele onde enfiar essa fruta sem graça importada das terras dos gringos! Pare de me encher o saco e “VAI PENTEAR GUARIBA!” ou então “VAI ABRAÇAR UM TAMANDUÁ!”.



sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

VIDA EM VIRTUÁLIA


ARRET
A NOVA MORADA


 O Casório

            A patroazinha, após as festas de final de ano, me disse:
            - Não vou mais esquentar a cabeça com lojinha de especiarias culinárias. Vou dar de presente para a Ana Paula que trabalha comigo, neste negócio, há cinco anos!
            - Se é isso que você quer e, está decidida, eu farei toda a tramitação. Primeiro você faz a rescisão da Ana Paula e só depois você transfere tudo para ela – instruí a desencantada empresária.
            - Ana vai casar em meados de março com um fornecedor nosso e, este será nosso presente para ambos. Já que me aposentei este mês, dedicarei, exclusivamente,  o resto de minha existência a ti e a nossa família! – falou a Rô olhando-me fixamente.
            - Mais do que te dedicas? Isto que é presentão! Retribuir-te-ei com quarenta dias de férias, ou seja, dez dias no sítio do Thiago, como ele já prometera e autorizou, mais trinta dias na praia de Salinas no litoral paraense. Vamo-nos a partir de vinte e seis de Janeiro próximo.
            - Que ótimo! Em março temos que estar aqui na cidade, pois seremos os padrinhos de casamento da Aninha com o Wellington, ok?
            - Então está resolvido! Vou encerrar uma auditoria dia vinte e cinco de Janeiro e só voltarei à ativa depois do casamento da Ana Paula. Deixo os preparativos para as nossas férias contigo, pois vou ter que dedicar tempo integral para eu estar liberado em tempo hábil.

            Vinte e seis de Janeiro, sábado, oito horas da manhã; dentro da GMC 1955:
            - Tudo pronto, Rô?
            Tudo! É só colocar os cintos de segurança e rumarmos para o sítio perto do parque ecológico de Ibitipoca! – respondeu-me.
            - No dia trinta e um de Dezembro, último, quando passamos por aqui... – fui interrompido:
            - Eu me lembro! Vamos parar , pelo menos,  dez vezes até chegar ao sítio, não é?
            - Sim! Estamos de férias e com tempo. Vamos ver as mudas de atêmia que plantamos. Você concorda?
            - Claro! Não precisava perguntar; eu também quero ver como elas se desenvolveram – respondeu-me.
             No primeiro riacho paramos perto de uma goiabeira silvestre e minha cara-metade espantada me disse eufórica:
            - Olha Lê, lá está a primeira que plantamos. Meu Deus, como ela se desenvolveu!
-  Como é gratificante ver que cooperamos com a flora e a fauna, não é meu amor – com os olhos marejados disse-me a sentimental esposa.
            - É mesmo! Esta nós plantamos a trinta metros do riacho e ela está agora com quinze centímetros. Lembra que fomos reduzindo a distância ente as plantas e os cursos de água?
            - Sim claro! Foi no “olhômetro”, mas foi assim!
            Quando chegamos a uns três quilômetros da estrada do sítio, fomos até as últimas três mudas; esta cerca de cinco metros do riacho:
            - Viu Rô? Estas estão com quase vinte centímetros e estão mais vistosas!
            - É mesmo! Quanto mais perto dos cursos d’água, melhor se desenvolvem.
            -A natureza é sábia. Veremos quais frutificarão primeiro e a qualidade dos frutos.
            - É mesmo, mas teremos que esperar um bom tempo – pensativa falou-me a Rô.
            No sítio só eu e minha esposa. Só daqui a dez dias é que meu filho virá com sua família. Até o caseiro foi dispensado. Thiago deu-lhe vinte dias de férias - dez dias o funcionário quis vendê-los.
            Liberdade total e merecida. Eu, a Rô, o silêncio da humanidade, o som do ribeirão, o cheiro do mato, a sinfonia dos pássaros, as noites estreladas e límpidas. O que mais faltava? Nada! Nem tempo para desfrutar de tudo.
           
            Como sempre, às cinco horas acordei. Deixei a Rô esparramada na cama king size e fui à espreguiçadeira da  piscina e lá soltei meu corpo; fiquei a olhar o céu. Um brilho passava acelerado rumo ao nascente e não é meteoro porque parecia ser guiado por alguma inteligência, pois parava abruptamente e depois acelerava.
            - Só não acredita quem não quer, mas que eles existem, existem!- pensei alto.
            - Em breve estarei rumando para Arret com meus amigos. E por falar neles, como andarão os preparativos para a viagem? Como será que...

            - O que aconteceu seu Lê? Precisa de ajuda – perguntou-me o delegado Carabina Doze quando me viu parado com a GMC 1955 de capô levantado e olhando o motor.
            - Obrigado, Carabina, mas não aconteceu nada. Pensei ouvir um barulho estranho. Deve ter sido só uma pedra que bateu no cárter do motor.
            - Esta estrada que vem de Realópolis, passando pelo subdistrito de Bispo cardeal, indo para Virtuália, às vezes tem pedregulhos soltos. Como sabes é proibido, por lei municipal, asfaltá-la. Este local é preservado pelo IVTA – Instituto Virtualiano de Total Preservação. Por aqui transitam muitas espécies de animais silvestres – explicou-me o delegado (se bem que eu já sabia de tudo).
            - Tem razão o IVTA. Passo por aqui porque me dá prazer ver tantos animais livres sem medo dos humanos e também porque... – fui interrompido:
- Já sei: porque é mais perto do “cafofô” do Nhô Antônio Benzedô; não é isso?
- Acertou delegado!
- Só que há “essas horas” ele já deve de estar saindo de casa para ajudar, o Biliato e o Lezivo, a preparar as “comilanças” para o casório.
- Casório? De quem, Carabina? – perguntei-lhe.
- Do Paulinho Goró! Vai dizer que não sabia?
- Não, não sabia. Quanto à vida particular o Goró é muito reservado – respondi-lhe.
- Isto é mesmo, mas a noiva foi publicamente na rádio e falou:
“- Eu estou aqui na rádio para estar anunciando que vou estar me casando com o Paulo Di Pauli domingo dia vinte e sete de Janeiro doze horas. Estou convidando todos para o casório, na capela do CMV, onde vamos estar recebendo a cumprimentação.”
- Obrigado por avisar-me Carabina! Vou acelerar a GMC e pegar o Nhô saindo para a cidade!
- Passei em frente ao sítio e vi que tinha luz acessa. Ele deve de estar lá, ainda, porque vi o Bitencourt pastando perto do ribeirão e, eles, com certeza irão para Virtuália na carroça!
- Tá legal! Vou acelerar e, se mal lhe pergunto: - o senhor está indo aonde?
- Para Bispo - Cardeal! Ligaram para mim em minha residência falando que viram o chupa-cabras na periferia daquele subdistrito ontem há “essas horas” e que já matou cinco cachorros – respondeu-me o Carabina Doze.
- Ok, Carabina! Precisando é só me solicitar!
- Podes crê, seu Lê!

            Perto do sítio do Nhô Antônio, quinze minutos depois, eu toquei a buzina da GMC.
- Ah! Dei sorte, ele ainda não atrelou o Bitencourt na carroça – pensei e, realmente, lá estava ele na cozinha passando o café.
- Bom dia, seu Lê! Qui bão qui ôce chegô. Ieu tava ti isperanu, pois nóis  vamu sê padrim du Goró. Num vai dizê qui num sabia si foi ôce memu qui garantiu qui ielis iam fica juntu!
- É mesmo Nhô! Foi eu quem incentivei esse casório, ah! Ah! Ah!
- Quem diria que o Goró, de bebum inveterado passaria a empresário e agora um homem sério e formador de família.
- Ôce, misifiu! Ôce falô, iscrivinhô i aconteceu, eh! Eh! Eh! Eh! Ôce sempri apareci na hora certa. O café tá prontu i tem: broa, queju frescu, mé, mamão, melância, ovu mixidu cum erva e sucu di romã! Podi si servi, misifiu!
- Café da manhã cinco estrelas, Nhô! Como o senhor conseguiu suco de romã - indaguei-lhe.
- Si alembra das sementi qui ôce mi troxe a muntchu tempu?
- Sinceramente não me lembro “véi”!
- Poizé, nem ieu mi alembrava qui joguei ielas lá na mata fechada pertu da nascenti du ribeirão. Ostru dia fui atrais di uns nhambu qui vi vuandu prá lá e vi umas romãzera bem grandi e carregadinha di fruta. Coí argumas e fiz sucu. Ficô danadu di bão; cada sementi era cuberta pur muntchu líquidu vremeiu!
- Ah! Tô me lembrando! Eu trouxe umas romãs da casa da minha mãe lá da capital. O meu filho mais velho plantou dessas mesmas sementes no sítio dele. São descendentes da romãzeira lá de Muriaé-MG, do jardim da Dona Amélia. Como o senhor conseguiu fazer o suco, Nhô?
- Ieu ixplicu, seu Lê: ieu distrinchei as fruta; dibuiei as sementi i coloquei eielas num panu limpim i fui apertanu qui nem um torniqueti. Aí, fui ripitinu issu até inche esta jarra. Num ponhei nem açúca. Porva i senti qui maraviá – falou estendendo-me uma caneca cheia de um líquido avermelhado. Ao prová-lo:
- Ahhhhh! Nhô, veio à minha mente as tardes quentes de Muriaé quando saboreávamos dessas frutas. Eram: eu, Angelim, Ciro, Djalma...
- Eh!Eh!Eh! É bão si alembra das coisa boa, né patrão?
- Não resta dúvida, meu amigo.

Vinte minutos depois:
- Vô atrelá o Bitencourt na carroça; ôce podi dexá a vremeiona drentu du garpão; arrumei lugá prela lá!
- Obrigado, meu amigo! Só vou pegar um despolpador de frutas e um multiprocessador profissional que eu trouxe para o Paulinho incrementar o negócio dele.
- Taí u seu presenti di casamentu, eh! Eh!Eh!
- Coincidência, coincidência, Nhô, ah! Ah! Ah!

No caminho da cidade:
- Onde será a festa depois do casório, Nhô?
- Vai sê na casa du seu Zé das Frô – respondeu-me.
- Nos fundos do terreno do cemitério?
- Ué seu Lê, ôce si isqueceu qui a Cindy Corbéia é prima du Zé das Flô? I qui a famía deie é us únicu parenti vivu deia?
- É mesmo, “véi”, eu havia me esquecido, mas, Nhô, será que o pessoal vai lá ao cemitério para o casamento e a festa?
- Us convidadu, qui são us amigu vão, seu Lê, podi di tê certeza. Dus amigu, só quem naum vai intra na festa é u Bitencourt, eh! Eh! Eh!  - incrível, mas quando o Nhô terminou essa frase o pangaré deu um longo relincho e parecia entender o que foi falado.

            Na cidade, na casa do Juliano, sete horas;
- Bitencourt, vô dexá ôce aqui dibaixo desse carváio. Tem grama a vontadi, vô te sortá da carroça, mais ôce vigia iela, tá bão?  Despois ieu ti tragu um bardi di água i umas ispiga di mio verdi, tá bão? – o velho cavalo deu um relincho longo e outro curto e o Nhô prosseguiu:
- Êta cavalu bão, quantu mis véi mais ispertu!
Pegamos os presentes e adentramos no cemitério:
- Seu Lê, Nhô, que bom que já chegaram, nós já estávamos preocupados - falou o Juliano.
- Bom dia Juliano, cadê o Beijo, seu Flôres e o resto da família – perguntei-lhe.
- Eles estão enfeitando a capela. Nós, ou seja, eu, Biliato, Lezivo, a Xerequéia e o Delfino, ficamos para preparar a festa. Tá quase tudo pronto: os espetos de carne de boi, frango e Java-porco, as saladas de legumes; arroz de alho e carreteiro; bolo; salgadinhos e doces. Só faltam fazer os sucos e as caipirinhas!
- Eu farei os sucos – antecipei.
- Ieu as caipirinha – disse o Nhô.
- Beleza – disse o Biliato – então mãos à obra!
- Vou deixar os presentes onde, Juliano – perguntei.
- Deixe na varanda da sala. Já tem um monte, de presente, que chegaram – respondeu, pelo Juliano, o Lezivo.
- Bah tchê! Acho bom tu te apressar que tu e o preto velho são os padrinhos no casório!
- Tens razão Gaúcho, mas em uma hora os sucos estarão prontos e na geladeira – respondi-lhe.
-As caipirinha tamém – falou em seguida o Nhô. – Tá bom tchê, vou ascender a churrasqueira.

Dez horas e trinta minutos na capela do CMV, ouvem-se a marcha nupcial. Paulinho, os padrinhos, madrinhas e o padre Orestino Treviso esperavam a entrada da virginal Cindy.
Todos, na capela pequena e lotada dos amigos do futuro casal olhavam quando a pesada e antiga porta rangeu e Cindy lá vinha sendo trazida pelo Zé das Flores ao som da inesquecível obra prima de Gounod.
Tudo corria normalmente e o padre fez a habitual pergunta:
- Se tem alguém contra essa união que fale agora ou se cale para.. – o vigário foi interrompido por um nojento barulho:
- Arrôut!
- Ohhhhh... – foi o murmúrio geral quando olharam para a porta.
- Caramba! Será o chupa-cabras – pensei ao ver aquela figura entre o umbral da porta da capela contrastando com o brilho do sol da rua.
- Por favor, responda quem é você? Tens alguma coisa contra essas duas pessoas  - perguntou o Orestino.
A medonha figura percorreu o corredor até a metade da capela e com voz quase gutural tentou falar:
- Eu... ic ... ic ... escutei barulho de música de casório e ...ic ... ic... queria ... – não terminou a frase e:
- Vem cá vivente! Quem tu pensas que és prá interromper o casório do meu amigo Paulinho – era o Gaúcho que, pegando o pinguço e beiçudo galego, pelo pescoço, levou-o para fora e prosseguiu:
- Bah tchê! – tu interrompeste o casório e meu serviço de churrasqueiro. Vi quando tu entraste cambaleando no cemitério. O relincho do pangaré do Nhô me chamou a atenção.
- “Me” larga... ic ... ic... “me” solta que eu vô... blááááááá...
- Barbaridade! Que nojo cuera! Tu tá mais fedorento do que um zorrilho e quase que vomita nas minhas bombachas – o sujeito não respondeu, foi cambaleando e sentou-se embaixo de uma mangueira e ali ficou num profundo sono etílico. E só então o Gaúcho prestou atenção no sujeito:
- Ala bucha! Que cuera feio, tchê! Parece um catariana”, tem jeito de ser galego, mas não dá para ver como ele é embaixo de tanta imundície. Coitado, tá com uns arranhões profundos nos braços e no rosto. Vai ficar aí, quieto, até acabar a festança. Depois vamos descobrir quem ele é. Tenho que cuidar da churrasqueira.

Terminado a cerimônia do casório, todos foram para o varandão da casa dos Flores e, não contive a curiosidade e perguntei:
- Cindy, porque você quis casar na capela do cemitério? Qualquer moça preferiria casar-se na matriz da cidade?
- Seu Lê, os únicos parentes vivos que eu estou tendo moram aqui na casa do zelador do CMV; os que não estão mais vivos, também, estão aqui, só que enterrados!
- Meus parabéns, você é uma mulher de caráter e corajosa. Seja feliz e faça o Paulo feliz. Conte comigo no que precisarem – falei-lhe.
- Eu sei disso seu Lê, e obrigado por colocar o Paulo no meu destino!
- Cindy, você vai continuar na prefeitura – perguntei.
- Sim, mas após as dezessete horas vou ajudar meu marido nos espetinhos, vou cuidar dos refrescos, sucos e refrigerantes. Porém, vou deixar a Associação das Solteironas Sem Opção do Vale Virtualiano do Rio do Peixe. O estatuto não permite que uma mulher casada a administre - explicou-me a Cindy e nisto o prefeito se aproxima da secretária, agora casada:
- Meus parabéns, Cindy! Sejam felizes e aproveite os trinta dias de férias. Tenho que ir, pois vou participar de uma reunião com os outros prefeitos de nosso vale.
- Obrigada prefeito! Vou estar fazendo o impossível para ser feliz – respondeu Cindy
- Um... hum! – pigarreei e fui falando:
- Dr. Jairo, quem ficará no lugar da Cindy na “Sem Opções”?
- Será a Dona Elvicina Zero Kelvi. Ela é concursada e estava gerenciando a Associação dos Cegos de Um Olho Só, no subdistrito de Bispo - Cardeal – disse o prefeito.
- É aquela solteirona carrancuda que vive com problemas no baço, fígado e intestino – perguntei-lhe.
- É ela mesma! Sei que Dona Elvicina não tem perfil para o cargo, mas é a única solteirona concursada do município, além disso, tem um filho desempregado que mora com ela, e a nora está grávida. Ela é uma ótima pessoa e uma das melhores “obreiras” da IEVV.
- Mas se ela tem esse filho o estatuto... – fui interrompido pelo prefeito:
- Ela nunca foi casada e, esse filho, foi fruto de uma violência e... – foi minha vez de interromper:
- Muito bem, prefeito, precisando de mim é só solicitar-me!
- Sei disso, seu Lê, obrigado!

Por volta das dezessete horas a festa se esvaziou; ninguém queria anoitecer naquele local. Só ficaram eu, Nhô, o Gaúcho, os Flores e o bebum, que ainda dormia embaixo da mangueira. Biliato e Lezivo foram abrir o Boteco dos Caldos e os noivos foram para lua- de -mel num motel em Realópolis, foram no automóvel da Cindy.
- Patrão Lê, está vendo aquele bebum que está acordando, embaixo da mangueira – perguntou Delfino.
- Estou! O Paulinho me falou que ele é o Stephen Skov. Foram colegas de copo há muitos anos em Realópolis – respondi.
- Tu viste como ele está machucado, tchê?
- Não, Gaúcho! Vamos trazê-lo para comer alguma coisa e ao mesmo tempo conversaremos com ele!
- Como queiras, tchê! Olhe! Não precisamos chamar o cuera, lá vem ele – falou o Gaúcho.
- Bo...bo... boa ta...tarde eu...eu queria...me desculpar pe...pelo...
- Esqueça Stephen, o Paulinho já te apresentou para a gente! Vamos preparar um prato para você, mas antes, vais tomar um bom e demorado banho, fazer essa barba e usar essa roupa que te dou – falou o Juliano que se aproximo de nós.

Meia hora depois, um novo homem, pelo menos na aparência, adentrou na varanda, saindo do banheiro:
- Melhorou muita a tua aparência Stephen; venha comer que ainda tem churrasco e conta-nos a razão desses ferimentos – falei-lhe.
- Dêti tê sido feridu pur argum animá grandi! Foi onça, misifiu – perguntou o Nhô.

Continua em:  Stephen Skov