sábado, 23 de março de 2013

VIDA EM VIRTUÁLIA


ARRET

A NOVA MORADA

ISON COMET
Por uma hora fiquei olhando o céu até que um clarão se fez longe, no horizonte, e seguido de um distante trovoar, pensei alto:
- Só deu para ver raríssimos e rápidos rastros de luzes, nada fora do natural. Aproxima-se uma tempestade de verão; vou levar a cadeira de praia para a varanda e esperar a borrasca chegar. Nesta época do ano, os temporais,  são muito pesados e bonitos – coloquei a espreguiçadeira no varandão e...

- Caramba, o Jairo Edson deveria mandar jogar saibro nessa estrada. Poxa, a GMC  atolou de vez! Vou esperar esta tempestade passar para sair da cabine e te  desatolar! Ok, Vermelhona? Não vou forçar sua mecânica e nem os pneus. Já que você  não ficou  no leito da estrada, vou tirar um cochilo. São quatro horas dessa madrugada chuvosa. Vou deitar neste banco macio e, lá pelas seis horas a chuva deve parar e, com o dia amanhecendo, fica mais fácil – disse em um monólogo com minha GMC '55 e procurando no dial do rádio, a Sideral AM de Virtuália:
- Incrível, às quatro horas da manhã a rádio, que é, dizem, propriedade do prefeito, transmite um programa gravado da IEASV onde o pastor Jairo fala e agradece a honestidade ferrenha dos fiéis em relação ao dízimo de sua igreja. E  o pior é que, aqui nesta região, só ela é sintonizada - desliguei o rádio e fiquei a ouvir o ritmo da chuva batendo na caminhonete.
Às sete horas acordei com alguém batendo no vidro da porta:
- Seu Lê, seu Lê,  o senhor está bem?
Assustei realmente com a cara encostada no vidro da porta. Era o Carabina Doze que deixou crescer barba e bigode.
Ajeitei-me no banco e baixei o vidro e respondi:
- Bom dia, delegado! Eu estou bem! Ficamos atolados ontem à noite e resolvi dormir na caminhonete!
- Ontem, desde cedo, choveu muito aqui no Vale do Rio do Peixe. Estou indo ao sítio do Nhô para ver se o ribeirão e o rio saíram de seus leitos e se ele precisa de ajuda – disse-me o delegado.
Desci da GMC e, por incrível que pareça, a estrada estava sequinha. O que aconteceu foi que a caminhonete derrapou e foi parar, com a roda traseira, em um buraco no acostamento. Foi só ligar o motor, engatar a primeira marcha que a possante saiu do buraco.
- Já que a senhor vai ao sítio do  Nhô, eu o acompanho, Carabina!
- Ok, seu Lê! O senhor veio para o aniversário do Paulinho Goró?
- Sim! Ele faz quarenta e cinco anos nesta sexta-feira da paixão. Faz aniversário, também, que ele deixou o álcool. Foi a cinco anos que ele, numa sexta-feira “santa”, fez a promessa de nunca mais ingerir bebida alcoólica e a está cumprindo até hoje. Faz, também, um ano em que ele a Cindy se casaram, não é isso?
- É sim! Eles casaram na última páscoa, e hoje tenho outra novidade para o senhor, seu Lê!
- Qual Delegado, o senhor conseguiu prender o chupa-cabras?
- Não, seu Lê, isso eu não consegui, pois eu tenho quase certeza que esse bicho não existe. A novidade é que a Cindy, com seus quarenta e três anos está grávida!
- É mesmo, Carabina? Então o Paulinho está quatro vezes de parabéns – disse-lhe.
-Vai haver um festão lá no Boteco dos Caldos hoje à noite. Em plena sexta-feira “santa” vamos fazer um “auê” para o Paulo.
- Essa eu não perderei de jeito nenhum. Vamos então até ao sítio do Nhô? Vai à frente, Carabina, eu o sigo!
- OK, vamos lá!

Ao chegar ao sítio:
- Nhô... ei Nhô, cadê você,”véi”- eu gritava, buzinava e nada dele responder.
- Não estou gostando seu Lê, o Nhô deveria estar na horta a esta hora do dia – falou o Carabina.
- Vamos lá perto do rio e ribeirão ver se o localizamos – disse o delegado.
- O Bittencourt está pastando perto da bica de água que vem da mina. É sinal que ele não saiu do sítio – acrescentei.
- Tens razão, seu Lê.
Na beira da junção rio e ribeirão:
- Nem o rio e nem o ribeirão saíram do leito, não  houve enchente e nem ele esteve por aqui, Delegado!
- É mesmo seu Lê – respondeu o Carabina e se espantou ao olhar para o topo da serra Madre:
- Olhe lá em cima da serra, seu Lê – falava e apontava aquela fumaça escura na mata, - com certeza o Nhô está lá. Vamos lá rápido!
Em meia hora lá estávamos ofegantes e fomos recepcionados:
- Bãodia, Delegadu! Bãodia patrão Lê! Ôceis percurava ieu?
- Sim, Nhô e lavamos um susto enorme não o encontrando no sítio. O que houve – perguntei.
- Hoji cedu, era cincu hora, quandu u tempu limpô i parô di chuvê ieu vi um crarão descê du céu qui alumio toda a serra Madri i, despois, deu um istrondu. Ieu tava peganu água fresca na bica prá fazê café i vi quandu u clarão desceu na serra i cumeçô a pegar fogu: ieu curri prá cá com uma inxada prô modi di apagá u fogu, mai u fogu num espaiô só ficô essi buracu nu chão. Tão venu?
- Estamos sim Nhô, deve ter sido um pequeno meteorito. Vejam só, ele bateu no granito, logo depois da camada de terra e, ainda tem fragmentos dele. Mais tarde voltaremos aqui para pegar uma amostra para análise, ok? – falei com uma curiosidade sem tamanho.
- Intão tá, intão, Misifiu! Vamu lá prô sítio qui deixei a vazia d’água nu fogu; a essa artura já dédi tá frevenu – disse-nos o Nhô.
No varandão da cozinha do cafofô:
- Ah! Nhô, esse teu café com broa eu só encontro igual lá em casa, quando a patroinha prepara para mim.
- É memu seu Lê? Quandu a patroinha vai vim cunhecê a genti aqui im Virtuaia – perguntou o Nhô.
- Breve, Nhô, muito breve!
- Nhô e seu Lê, a conversa e o café estão ótimos, mas tenho que voltar à delegacia e relatar o que vi e arquivar para justificar a minha ausência, pois já são quase nove horas!
- Tudu bem Carabina!  Ostru dia ôce vorta i trais a sua patroa, pois fais um tempão qui iela num vem buscá erva prá gastrite – falou o Nhô.
- Ela não tem mais se queixado de azia, Nhô; vai ver se curou com as ervas – respondeu Carabina.
- Carabina, quando for de  noite a gente se encontra lá no Boteco de Caldos, ok – falei-lhe.
- Ok! Ok! Então, tchau para vocês – disse o Delegado indo para Virtuália.
- Nhô, o senhor sabe que a Cindy está grávida – perguntei.
- Sei! Ieu sabia qui iela ia ficá prenha. Uns tempu atrais iela mi percurô i pidiu uma garrafada prá continuá férti i despois di ieu cunversá co’iela, fiquei sabenu qui iela cumeçô a tê as regra cum catorzi anu. A idade déia, hoji, é di quarenta i treis anu i despois das garrafadas era fáci iela prenhá.
- E tem outra, o Paulinho é um caboclo forte que nem um touro, não é Nhô?
- É memu, e ieli usa garrafada das mema erva qui ieu perparu i qui é muntchu percurada. Ôce sabi qualé misifiu?
- O senhor me falou há muito tempo que já não me lembro. Pode repetir para eu escrever, Nhô?
- Eh! Eh! Eh! Tá percisadu seu Lê – debochou o velho.
- Nunca é demais se precaver, não é “véi”, ah! Ah! Ah!
- Intão tá, intão! Iscrivinha  aí:
- Uma garrafa di pinga pura ô di vinhu tinto suavi; um punhado de nó-di-cachorru du Matu Grossu – só servi dessi lugá -; catuaba; simenti di melancia torrada i muída; tribulu terretri – issu é difici di achá nu matu, só tem im farmácia; cipó cravu i marapuana. Coloca tudo drentu da garrafa i dêxa uns seti dia i despois tomá uma talagada todo dia inhanteis du armoçu i janta. É tiru i queda, misifiu.
- Mas Nhô, o Paulinho não bebe álcool!
- Ieu sei, seu Lê! Ieli pegô todo us ingredienti, soco tudu num pilão, despois moeu nu muedô di café i coloca nu fejão quandu ieli perpara u pratu di cumida. Taí u segredu dus dois, eh! Eh! Eh!
- Ah! Ah! O senhor é sábio Nhô, ah! Ah! Ah!

- Mudando de assunto, o senhor está ouvindo falar dos meteoros que choca com nossa estratosfera; das chuvas de meteoritos que caem na Terra e do enorme meteoro que passou raspando a este planeta, Nhô?
- Ovi falá dessas istrela cadentis i ieu veju issu toda noiti, seu Lê. Onti memu ieu vi um monti deias rasganu u céu i até acumpanhei c’us meus zóius essi qui quase caiu na minha cabeça, eh! Eh! Eh!
- O que estará acontecendo, hein “véi”?
- Misifiu, ieu achu qui a véia morada du Kobausqui já tá vinu na nossa direção – falou o meu sábio amigo.
- Será, Nhô? Mas os grandes observatórios da Terra não detectaram nada até agora!

- Pois é seu Lê dessas istrela cadenti, qui anda cainu quaji nas nossas molêra, eis só ficam sabenu despois du istragu! Fica dificulitosu aquerditá nu qui eis fala i u pió: u qui iscondi, i num fala!
- Mais uma vez tens razão. Mas, por outro lado, o que adiantaria saber que estamos em rota de colisão para a destruição total com qualquer objeto que seja? Não poderíamos fazer nada, não é mestre?
- Pois é seu Lê, o mió é oiá prá frenti e si disviá das pedras du caminho pruquê as qui vem di cima, mandadu pela natureza, num tem jeitu!

- Falou e disse “véi”! E por falar em “coisas que caem do céu” vamos lá onde caiu aquela “estrela cadente” para ver se conseguimos algum pedacinho para análise!
- Vamu sim, misifiu! Ieu só vô porvá e corrigi o tempêru dessa fejoada qui tá nu fugão de lenha, deisdi a meia noiti di onti i nóis vai, tá bão?
- Tá bom! São nove e meia, até as onze horas estaremos de volta – e assim fizemos.

Perto da pequena cratera, onde caiu o meteorito:
- Deve ter sido pequeno! Não devia pesar nem cem gramas, Nhô!
- Veja, ele bateu no granito e se espatifou! Foi, como se pulverizado, por todos os lados!
- Ói u qui ieu incontrei, misifiu, um pedacim di um metá que tem umas pintinha amarela. Veja comu ieli bría – falou o Nhô.
Peguei o minúsculo pedaço de metal e falei:
- Parece ouro! Seria ouro, Nhô?
- Só inu lá nu perfessor Oscarzim, seu Lê. Ieli vai vê naquêies  apareiu i ti dá a certeza – respondeu o Nhô.
- Tens razão! Vou lá mais tarde, na Universidade Sideral de Virtuália, o senhor quer ir junto, meu amigo?
- Ô, Craro misifiu! Ieu ia na cidadi memu. Hoji é sexta-fêra i u meu fumu di corda acabô. Ieu num ficu sem pitá meu paiêro di jeitu manêra. Mai nóis vai só despois da sesta du armoçu di hoji. Num isqueça qui a fejoada já dédi tá pronta, seu Lê!
Olhei para meu antiguíssimo relógio ômega de pulso, herança de meu pai e falei:
- São quase onze horas, vamos descer de volta para o sítio; lá pelas três da tarde o Bittencourt nos levará para a cidade, ok Nhô?
- Tá certu, vamu descê pela tria ondi prantei uns ananais. Achu qui já dédi tê arguns maduru, seu Lê!
Quinze para o meio dia, no rancho, eu descascava um dos suculentos ananás:
- Que fruta cheirosa, não é Nhô?
- É memu! Nóis levamu déia para Arret, lembra misifiu? Tô imaginanu u tamanhu déias  lá na nova morada – disse –me o Nhô enquanto refogava a couve.
Alguns minutos depois, durante o almoço:
- Caramba, Nhô, essa feijoada está muito, mas muito saborosa , caramba!
- Eh! Eh! É memu misifiu, tresantonti a Xerê matô uns java-porcu  prá vendê as parti nobri pru Butecu di Cardu; prô Restô; pru Pratu Feitchu da Maria i iela sempre separa umas parti qui ieu usu nas minha  fejoada. Ieu vô aproveitá, qui vô na cidade, i vô levá um tantu prá iela. Iela disse qui adora a minha fejoada i sempri copera cum inheu. Mas achu qui é isperteza deia, ô cheja, iela mi dá essas parti di java-porcu, uns pedaçu di linguiça i  um nacu di jabá, aí, ieu ficu sem jeitu di num reservá um tanticu di fejoada p’réla.
- A Xerequéia é uma boa pessoa, não é Nhô?
-É sim, Misifiu, é boa cunzinhêra tamém, mais u qui iela num gosta é di cunzinhá, eh!Eh! Eh!



Por volta das quinze horas, depois de sestearmos por duas horas:
- Vamu seu Lê, u Bittencourt já está atreladu na carroça – sacudiu-me, na rede, o Nhô.
- Vamos sim, meu amigo! É prá já!

No caminho para Virtuália:
- Óia seu Lê, aquéia luiz cortanu u céu, óia cumu bría, cumu é rápida!
Ao olhar, só deu tempo de ver a silenciosa explosão na estratosfera:
- Nhô, a coisa está ficando preocupante; já estamos vendo essas explosões até à luz do dia !
- Issu sempri acunteceu, Misifiu, ieu sempre vi. Inté quandu estava nus campu de batáia, na Itáia, na sigunda guerra mundiá, ieu via i sabia qui num era bomba pruque espocava muntchu artu e num fazia baruiu; íngua a esta di agorinha!

Na USV, no laboratório de ciências:
- Seu Lê e seu Antônio, com uma análise rápida detectei vários metais neste fragmento e entre eles, tem um, que não deveria estar junto – falou Oscarzinho.
 - Qual é este metal professor – perguntei.
- Se ele existe neste fragmento é porque alguém, que não foi a natureza, o colocou aí. Trata-se de ouro monoatômico.
- Interessante não é Oscar – falei trocando de olhares com o esperto Nhô.
Ao sairmos do laboratório falei ao reitor:
- Pode ficar com esse fragmento, depois o Nhô lhe mostra o lugar onde ele foi encontrado, ok?
- Ok, senhores! A USV lhes agradece!
- Então até mais tarde no Bar dos Caldos. O Senhor vai ao aniversário do Goró, não vai?
- Vou, claro que vou! Encontrar-nos-emos lá – respondeu-nos.

Do lado de fora da Universidade Sideral de Virtuália:
- O senhor entendeu, não é “Véi”?
- Craro, Misifiu, u oru monatoncu qui tava naquéia pedrinha foi colocadu pelus pessoá du Kobausqui, num é issu?
- Quase isto, esperto! Esse meteorito é parte de um meteoro que passou pela atmosfera da velha morada e a partícula de ouro, que estava fugindo da atmosfera, se agregou a ele. O senhor tem razão, o que está “chuvendo” na Terra já indica que a antiga morada se aproxima.
- Mai issu demorará muntchu num é , seu Lê – perguntou ancião.
- Ninguém pode dizer isso com certeza Nhô, ninguém!
- Mais seu Lê, cum tanta tenicologia, será qui essi pessoá, das ciênça, das grandi cidadi, já num tá venu ieli atravéis dessas máquinas qui vê longi?
- Talvez Nhô, mas mesmo que soubessem não falariam. Já imaginou a baderna que ia virar a humanidade?
- É memu, Misifiu, ia virá uma boiada estorada, eh! Eh!Eh!
- Mas acho que ninguém ainda sabe se a antiga morada está perto do nosso sistema solar. Se tivesse próximo, com certeza, algum astrônomo amador já a teria visualizado e colocado a “boca no trombone”. Mais tarde, quando o Oscarzinho nos procurar para ver a cratera do meteorito, vamos conversar com ele a respeito, ok?
- Comu ieu sempre digu: ôce é qui manda Misifiu!
- Nhô, antes de irmos lá no Goró, vamos lá na Xerê deixar a feijoada e aproveitarmos para visitá-la – sugeri -lhe.
- Ieu tava pensanu nissu, misifiu; ôce adivinhô meus pensamentu!

No casebre da Xerequéia:
- Até que enfim vocês vieram me visitar! Como vai seu Lê? E você, “véi” gente boa? – disse Xerê e acariciando o focinho do Bittencourt lhe perguntou:
- E você, pangaré, sempre bonito e forte! Como está? - o cavalo eirado deu um longo relincho; foi de assustar.
- Eu estou ótimo, Xerê – falei e prossegui – você está com excelente aparência!
- Óia aqui u qui ieu truxei p’rôce, véia assanhada – Nhô destampou a grande vasilha e o cheiro da iguaria fez-nos salivar e Xerê falou:
- Nossa, Nhô, o senhor é um anjo, aliás, um deus da culinária!
- Eh! Eh! Eh! Num ixagera, misifia!
- Vamos entrar gente, vou terminar de colocar ração nos coxos dos java-porcos e passar um café. Ainda tenho café colhido lá no seu sítio Nhô.
- É memu, misifia, quandu percisar di mais é só mi avisá. Tem uma coieta toda lá secanu. Sumana qui vem já tá bão. Dédi tê uns treis saco di sessenta quilu – disse o Nhô à Xerê.
- Eu aviso  sim, “véi”, e vou reservar uns miúdos de java-porco. Semana que vem tenho mais encomendas do pessoal de Virtuália e também de Analogicópolis.
- Intão tá, intão!


Meia hora depois:
- Esse café é bom mesmo, Nhô e esses biscoitos de polvilho estão ótimos – disse aos amigos.
- Os biscoitos de polvilho eu comprei na padaria do Portuga, ih! Ih! Ih!
- Como vai a criação de java-porco, Xerê – perguntei-lhe.
- Está indo mais ou menos, seu Lê. Eu precisava de um cachaço mais potente; o Reni Porquinho já não está bom como antes, aliás, ele já era um macho "meia-boca", ih! Ih! Ih!
- Nós vamos arrumar  dois bons e bem grandes. Em breve nós lhe os entregaremos. Conhecemos um lugar onde eles crescem bonitos por demais, não é Nhô?
- Nem mi fali, Misifiu, us animá di Arret, qué dizê, daquéa terra são uns bitelão!
- Bem Xerê, a conversa está muito boa, mas temos que ir que já está quase na hora da festa do Goró! Você vai?
- Vou, mas só que depois do culto na nova congregação que estou frequentando: Los Sobrevivientes de Nibiru. A pessoa que ministra essa nova verdade é um sujeito esquisito, tem a pele que não é branca, nem negra, nem morena é... só vendo! Ele é cego, ou pelo menos parece, mas enxerga dentro de nossas mentes. Ele não sai para “canto” nenhum, só fica dentro de onde o seu tablado está instalado. Ele não fala em dízimo e diz que tudo que estava escrito antes é uma farsa. Ele, outro dia, falou que... – interrompi a Xerequéia:
- Onde fica o templo dessa nova religião Xerê?
- Não tem templo igual às faraônicas religiões que conhecemos; ele tem uma enorme tenda, onde ele mora e a armou na periferia da cidade. Sabe aquele descampado enorme que tem depois daquela castanheira centenária na saída para Analogicópolis? Fica lá!
- I tem idu muntcha genti nessis curtu, amiga? – perguntou Nhô.
- Olha, no começo éramos dez catadores de recicláveis e alguns mendigos que dormem ali naquela região perto do ferro-velho do Péchato, mas agora tá indo até dondoca aposentada lá. Tá beirando umas trezentas pessoas. Amanhã tem culto às dezessete horas e um minuto. Os cultos nunca atrasam e vai até quando a luz da enorme fogueira – que ele acende – estiver acesa; lá pelas dezenove horas! Nesses trinta dias, em que ele apareceu, só está preparando os nossos espíritos para a revelação e, como ele mesmo diz: “- Vocês vão me chamar de louco, mas é a pura e cristalina verdade!”
- Ele fuma ou bebe alguma coisa? Você pode informar isto, Xerê – perguntei.
- Eu não vi, mas o Tatá Bispo-Cardeal, aquele seminarista que doou toda a fortuna para a ONG - Los Sobrevivientes de Nibiru -, e não se tornou padre e sim um obreiro da IEVSV (Igreja Eva-angélica Sideral de Virtuália), é quem está acompanhando e ajudando ele. O Delfino, do Restô, para quem eu vendo carne de java-porco, dias atrás, me perguntou se aquele piazito crente tinha virado pinguço, pois ele vive comprando aguardente lá no restaurante dele.
- Ingraçadu, tem uns vinti dia qui u Gaúchu mi tem compradu muntcha das pinga qui ieu fabricu. Inté istranhei mai num preguntei nadica di nada u pruquê di ieli tá compranu tanta purinha. Inhantes era trinta i cincu litru por méis i, hoji, é essa mema quantidadi, só qui di seti im seti dia – acrescentou o Nhô.
- Que eu saiba, esse delicado piazito não ingere bebida alcoólica – completei
- É para o tal sujeito, seu Lê – disse a Xerequéia.
- Como assim – perguntei.
- Ele não bebe outra coisa a não ser cachaça. E parece que não fica embriagado. Ele, quando inicia o culto, sentado como um Buda, já toma um copo liso. No começo achei que era água, mas era aguardente.
- Nhô, vamos indo lá para o Boteco dos Caldos; já são quase dezessete horas e talvez possamos ajudá-los em alguma coisa. Xerê, amanhã nós passaremos aqui à tarde para acompanhá-la ao culto, podemos? – perguntei.
- Claro, meus amigos, amanhã esperarei vocês!
- Intão tá, intão, Xerê!
- Até , “véi” – respondeu a Xerê.
-Tchau Xerê!
- Tchau seu Lê!
Desatrelamos o Bittencourt da carroça e o deixamos no quintal gramado do casebre da Xerequéia.

No Boteco de Caldos:
- Seu Lê, Nhô que prazerão em vê-los – alegre nos abraçava o Goró.
- Oi gente, espere um minuto que vou estar abraçando vocês – falou alegremente a Cindy, com sua peculiar “perfeição” gramatical.
- Meus parabéns, Paulo; tu és um homem de caráter – cumprimentei-o.
- Obrigado amigo Lê, te agradeço por tudo – respondeu-me.
- Ôce tá corado, misifiu! I ôce, Cindy, tá cum uma barriga muntchu grandi prá treis méis. Ôce já sabi u secçu du bebê?
- Já sim, Nhô! Sabem da novidade: é uma menina e um menino – respondeu a Cindy Corbélia.
- Mais qui maravia, misifiu, qui notícia boa, sô!
O Paulinho era só felicidade e arrastou-nos para uma mesa reservada para nós, pois ele tinha certeza que viríamos. Pegou um copo com água de coco e propôs um brinde no qual todos concordaram. Estavam no Boteco, além de nós e os proprietários: o técnico do Gauchito FC – seu Jorjão; o técnico do Brasinha de Virtuália – seu Sid Ney Pena e este me intimou:
- Lê, nos te convidamos para amanhã  dar o pontapé inicial do clássico amistoso - Brasinha de Virtuália versus Gauchito. Comemoraremos os quarenta e sete anos do nosso Brasinha de Virtuália Atlétic Club  . O jogo será num campo neutro, no Mauazinho Futebol Club, e terá um troféu patrocinado pelo Boteco dos Caldos. O nome do troféu é Paulo di Paulli! O senhor e o Nhô irão, estou certo?
- Eu irei com certeza, mas faço-te uma pergunta: - os irmãos Roberto e Régis; Barriga; Edson Véia; Flávio Tadinha; Zé Beiço; Fortaleza; o goleiro vesgo Jonatah irão jogar para o Brasinha?
- Com certeza, Lê, são titulares – falou o Sid Ney.
- Lá estarei amigos – confirmei o convite, por minha parte.
O Boteco estava reservado aos amigos do Goró e estava lotado. Caldos, churrasquinhos, caipirinhas e refrescos eram em abundância e tudo ao som da melhor dupla sertaneja do Vale Virtualiano do Rio do Peixe: João Peroba e Sucupira acompanhada pelo sanfoneiro Bico Doce.
Às dez horas em ponto cessou toda a barulheira e nos despedimos de todos.
- Seu Lê, ieu vô drumi lá na casa da Xerê. Iela mi convidô. Já qui amanhã cedu u sinhô vai vê o crássico du futibó virtualianu é mió nóis ficá puraqui está noiti; num é memu?
- Está certo Nhô, vou pernoitar no hotel União do Vale. Vou ver o jogo que começa as dez horas e depois almoçar com o Oscarzinho no Restô. Vou verificar com o professor o que ele sabe sobre as chuvas de meteoritos que está ocorrendo e, conforme o desenrolar da conversa, falo para ele sobre Arret. Depois vou tirar um cochilo até a hora do culto.
Uma hora e trinta minutos depois de eu dar o pontapé inicial, o Brasinha estava ganhando de dois a zero do Gauchito. Barriga fez os dois gols. O interessante é que o goleiro, do Brasinha, Jonatah Vesgo defendeu dois penaltes e, os dois, chutados pelo Everton. Após uma hora e, com a entrega do troféu ao Sid Ney Pena, todos foram festejar no churrasco na vala, isto é, fizeram uma valeta e dentro colocaram carvão e a carne era colocada em estacas ao lado desta vala, armado nos fundos do campo do Gauchito. Fiquei por ali uma hora e pasmei pela harmonia e amizade do pessoal das duas equipes. Isso não se vê mais na realidade.

Duas horas da tarde no Restô:
- “Buenas” tarde patrão, quer experimentar um bom vinho tinto suave lá dos meus pampas enquanto espera o Oscar – sugeriu Delfino, proprietário do restaurante.
- Quero sim, obrigado! Pode trazer uma jarra e duas taças que o Oscar já está chegando – respondi ao Gaúcho.
- Boa tarde Delfino; boa tarde seu Lê! Estou atrasado – perguntou-nos o reitor.
- Boa tarde - respondemos e eu continuei a falar:
- Cheguei ainda agorinha! O Gaúcho vai trazer um vinho enquanto esperamos o peixe à moda da casa ficar pronto!
- Ótimo, adoro vinho tinto suave! E peixe então? É tudo de bom – disse Oscar.
Conversamos por todo o tempo em que saboreamos o surubim com arroz branco, pirão e saladas. E cheguei à conclusão e pensei:
- Não devo falar nada sobre Arret, antiga morada, raça do Kobauski, viagens transitórias, choques de planetas... nada! Não acho seguro, visto que, o que falado pelo Oscar, sobre as chuvas de meteoritos, não passava de conhecimentos teóricos, nada mais.
- Bem professor, foi um prazer almoçar contigo, porém tenho que ir encontrar com o Nhô e voltarmos ao sítio dele!
- Está bem seu Lê, qualquer dia desses vou ao sítio ver onde caiu o meteorito, por favor, avise o Nhô, ok?
- Falarei com o Nhô a respeito – respondi e fui me retirando, após acertar as despesas com o Gaúcho.

No Boteco dos Caldos, dezesseis horas e quarenta minutos:
- Boa tarde, seu Lê! Está procurando o Nhô? Ele está na cozinha proseando com o Lezivo e o Biliato – falou-me o Paulinho.
- Boa tarde Paulo! Obrigado, vou até lá.
Na cozinha o Nhô termina uma “aula” de como fazer uma super feijoada de java-porco para os donos do Boteco.
- Boa tarde, meu povo – cumprimentei-os.
- Boa tarde, seu Lê – responderam os dois empresários do ramo de alimentos.
- Ôce já tá prontu, seu Lê – perguntou-me o Nhô.
- Já estou pronto, Nhô, vamos para o culto?
- Vamu sim! U Bittencourt já tá inté atreladu na carroça!
- Eu vi a carroça ali na frente, aliás, eu e o pangaré nos vimos – respondi.
Despedimos de todos e, no meio do percurso para o culto, na saída para Analogicópolis:
- Ingraçadu, misifiu, tô achanu u tempu mêi isquisitu – comentou o Nhô.
- Também estou achando alguma coisa estranha, que não sei o que é, “véi, será que... – Nhô me interrompeu:
- Óia nu céu, seu Lê, que cores mais bunita e dançanu! O qui qui é issu?
- É um tipo de crepúsculo boreal ou austral, Nhô! É um fenômeno que acontece quando o Sol expele muito plasma em suas explosões!
- Num intendi nadica di nada, mais é muntchu bunitu!
O fenômeno terrestre, no céu, foi extinguindo; a escuridão foi se acentuando, pois não era noite de lua cheia e Nhô me perguntou:
- Seu Lê, u qui tá fartanu acontecê? Será que vai sê brevi qui a veia morada vai acertá a Terra?
- Pode ser Nhô, pode ser! Mas, que está tudo esquisito, isso está!

Na tenda, na saída de Analogicópolis:
- Óia só, misifiu, quanta genti! Óia o dotô Fabrício e a noiva deie– disse o velho amigo surpreso.
- Qual será a nova ideia desse sujeito? Estou curioso, Nhô!
- Ieu tamém, seu Lê!
Fomos recebidos pelo Tatá que quis nos colocar próximo ao pastor, mas preferimos ficar afastados , só observando.
O ser estranho usava um capuz negro da cor da túnica, não mostrava o rosto e ao aproximar-se da imensa fogueira, para sentar-se numa pequena plataforma acima do nível do chão, houve um repentino aumento das chamas da fogueira.
- Ohhhhhh! – foi o murmúrio da plateia.
- Ôce viu issu, misifiu – perrguntou-me o Nhô.
- Vi sim “véi”, e vi, também, um sujeito todo de negro – meio escondido -, jogando um produto no meio da fogueira. Faz parte do show para impressionar.
Houve um sepulcral silêncio até que o ser se sentou à moda Buda, ingeriu um copo americano de um líquido transparente e falou guturalmente:
- Boa noite irmãos! Em nome da Mente Toda Poderosa eu vos saúdos!
- A que Mente Toda Poderosa você se  refere senhor... senhor...senhor, como posso lhe  chamar – perguntou uma obreira , imensamente gorda, da IEASV que estava acompanhada de outras dezenas de seguidora da igreja do pastor Jairo Edson. Todas estavam ali, visivelmente, intencionadas a tumultuar o culto da "nova ideia".
O ser ergueu a cabeça e fitou aquela senhora e vociferou:
- Eu sou Ison Comet e falo daquela Mente Superior que criou a partícula bosônica, aquela que a ciência chama de bóson de Higgs e, com ela, construiu tudo o que existe: incluindo você, minha senhora!
- Se não falas do meu deus és um enviado do gramulhão. E eu te amarro em nome do filho do meu deus – respondeu Rolecina da IEVSV.
- Tu adoras um deus criado pelo homem e venera a figura de uma lenda criada pela imponente igreja que detém uma fortuna incalculável. Não tens noção de como é essa Mente Poderosa que criou tudo que existe e... Ison Comet foi interrompido pela obreira:
- Vai-te “de retro” satanás eu te... eu te... Cof!...Cof! – a senhora obreira abriu os enormes braços na esperança de respirar e caiu durinha para frente. O tumulto foi geral:
- Você a matou filho das trevas – gritou uma das amigas de Rolecina.
Corremos para atendê-la, mas o doutor Fabrício adiantou-se e constatou óbito dizendo:
- Foi infarto fulminante; já chamei a ambulância da Santa Casa Sem Misericórdia!
O estranho levantou-se e foi se retirando apressado e houve a mesma arte pirotécnica na sua saída.
- Chamemos  a polícia, esse demônio matou nossa colega – gritou outra obreira.
- Eu sou da polícia! Sou o cabo Tição. Não houve crime nenhum. Ela morreu do coração. Se as senhoras quiserem acompanhem a dona Rolecina até a Santa Casa e chamem o delegado para fazer um BO!
A senhora calou-se e com as outras entoaram cânticos Eva-angélicos da pop star gospel, a cantora, Donamala.
- Venha Nhô, vamos conversar com esse sujeito. Parece que ele tem realmente outra ideia das coisas – falei puxando o velho amigo pelo braço e saímos do tumulto.
- Vamu sim, misifiu, inté ieu fiquei curiosu.  As ideia deie mêi que pareci c' as minha.
Na entrada da tenda fomos barrados pelo Tatá Bispo-Cardeal:
- Desculpe seu Lê, mas o pastor Ison está em retiro espiritual e não pode... – ele foi interrompido:
- Quem é obreiro?
- É o seu Lê e o Nhô Antonio Benzedô eles...
- Deixe-os entrar, quero conhecê-los!

No interior da luxuosa tenda o pastor esta de costas para um sofisticadíssimo computador conectado a outros tipos de aparelhos inclusive um pequeno telescópio. Na tela do monitor, de 32” de HD, estava o mapa mundial com áreas assinaladas nos diversos continentes - inclusive em HY-BRAZIL -, cidade de Virtuália.
- Sentem-se senhores, já vou atendê-los!

Pensei comigo:
- Êpa, peraí, peraí...peraê, a Xerê  acha que o sujeito é deficiente visual! Não é o que parece!
O pastor despejou, de uma garrafa em um copo, um líquido branco e virou de um gole só garganta abaixo e o Nhô exclamou:
- Eh! Eh! Essi chêru é das branquinha qui ieu façu lá nu meu sítio! Dá prá senti u chêru da caiana di longi, eh! Eh! Eh!
- Em que posso ajudá-los senhores?
- É a respeito do que vimos e ouvimos nós...
- O que viram foi o que viram, e o que ouviram de minha parte, é a minha verdade! Eu trago, assim como outros iguais a mim espalhados pelos quatro cantos da Terra, a verdade sobre tudo e também o que está por vir em breve! Esta humanidade vive na mentira desde quando o homo - sapiens foi manipulado geneticamente. Eu sou um dos enviados para esclarecer: doa a quem doer!
De repente o pastor tirou o capuz, os óculos escuro e fitou-nos dizendo:
- Por favor, queiram se retirar, outro dia conversaremos e...
- Ieu só queria ti fazê uma pregunta i... – Nhô foi interrompido:
- Seguranças, por favor, acompanhem esses dois senhores até a saída do nosso acampamento!
Não teve como dialogar e fomos levados até a saída por dois enormes mulatos que não eram da região.
- Nhô, vamos à delegacia falar com o Carabina!
- Tá bão, misifiu!
- Nhô, o que o senhor ia perguntar para aquele pastor?
- Ieu ia preguntar prele de que praneta iele vêi! Ieli num pareci dêssi mundu!

Na delegacia as, exatamente, vinte e uma horas e um minuto:
- Seu Lê, eu já estive lá na Santa Casa e registrei o BO; amanhã cedo vamos buscar o pastor para conversar com ele. Já que vocês viram o que aconteceu, gostaria que estivessem aqui! Vai ser por volta das nove horas!
- Estaremos aqui, Delegado – falei-lhe.

Na volta para o sítio:
- Si u sinhô pudesse entrá im contatu cum u Kobausqui tarveis ieli arresolvessi issu!
- Já mentalizei uma mensagem para ele, Nhô, se ele sentir que ocorre algo estranho, ele deverá nos contactar. Lembra que ele falou que seria bom evitar as viagens enquanto não diminuíssem as tempestades solares?
- É memu, misifiu, ieli falô"qui seria bão evitá" i não qui num faria, eh! Eh! Eh!
Perto do sítio, por volta das vinte e duas horas e trinta minutos:
- Olha Nhô, aquele clarão lá pelos lados do ribeirão será que...
- Ieu nun vi nada seu Lê! Foi impressão du sinhô. Dédi sê reflexu de arguma coisa!
- Acho que não “véi”, já vamos saber quando chegarmos ao sítio!
Paramos a carroça no galpão e o Nhô conversava com o Bittencourt enquanto o desatrelava da carroça:
- Ôce mi descurpa viu pangaré! Sei qui ôce num gosta di puxá carroça di noiti, mais foi uma necessidadi, tá bão – o cavalo deu um relincho e saiu em direção ao seu reservado.
Ao chegarmos à varanda da cozinha:
- Olá seu Lê! Como vai Nhô Antonio?
- Banoite, Kobausqui! Eh! Eh! Eh! O seu Lê tinha razão, ele viu um crarão nas bandas du riberão.
- Se o senhor me chamou, sabendo dos riscos, deve ser alguma coisa muito grave. O que acontece, seu Lê?
- Boa noite Kobauski! Gostaríamos de saber sobre a trajetória da antiga morada; está acontecendo fenômenos estranhos em nosso planeta e...
- Calma, seu Lê! A antiga morada sofreu uma colisão com um meteoro que passou por este sistema solar há mil novecentos e cinquenta e dois anos terrestres. Esse meteoro viajava a 80.000 Km/ht (ht = hora terrestre) e chocou-se inteiro com a velha morada acontecendo uma imensa explosão. A luz dessa explosão não foi vista aqui na Terra, porém fragmentos dessa hecatombe já estão colidindo com a sagrada atmosfera terrestre.
- O que você está me dizendo é que a velha morada explodiu – perguntei-lhe.
- Quase isso. Partiu-se em três grandes pedaços e o menor deles, do tamanho de vossa Lua, está vindo para este sistema solar.
- Chiiiii, seu Lê, achu mio nóis si pirulitá para Arret – disse Nhô.
- Não há o que temer, por enquanto. Temos muitos anos terrestres antes de qualquer tragédia.
- Tem outra coisa Kobauski; acho que tem mais gente controlada pelos reptilianos aqui na Terra – expliquei o que aconteceu e o Kobauski pediu que o levasse até ao pastor naquele momento e, assim o fizemos. Coloquei, na caminhonete,  a capota, que sempre trago desmontado na carroceria da GMC e Kobauski se acomodou na trazeira da Vermelhona.
Em meia hora lá estávamos perto da barraca. Era quase meia noite e só o clarão do monitor do computador do pastor iluminava o interior da tenda. Eu vi e falei:
- Olha Kobauski, tem dois seguranças, vai ser difícil chegar nele!
Kobauski pediu para o Nhô ficar na caminhonete e pediu que eu o acompanhasse. Apontou na direção dos seguranças uma espécie de pistola e dela, após acioná-la, saiu um feixe de luz e os dois morenos caíram, lentamente, por terra sem emitir nenhum som.
Entramos de supetão dentro da tenda. O pastor estava distraído, sem capuz e sem óculos especial e ao nos ver foi paralisado pelo flash emitido pela arma do Kobauski e, caiu ao chão.
O arretiano tirou do bolso do macacão um aparelho que eu já o vira usar e o  encostou na cabeça do pastor e disse-me:
- Olhe aqui, seu Lê, o chip entre o cérebro e o cerebelo! Foi abduzido pelos reptilianos. O que vai nos ajudar é que este chip está ligado em rede com outros seis chips em cérebros de terráqueos em diversas partes do globo terrestre. Nossa tecnologia permite que copiemos todos os dados de todos eles e depois os inutilizamos sem causar nenhum dano aos abduzidos.
- Mas Kobauski, você não vai remover os chips das cabeças deles – perguntei.
- Não será necessário! Eles são tão minúsculos que não influenciará em nada – explicando-me isto, falou:
- Pronto, já copiei todos os dados dessa rede e queimei os circuitos dos chips. Vamos aproveitar que aqui nessa tenda tem um computador e analisar rapidamente o resumo do que eles pretendiam!
- Mas, como, meu amigo? Como vai passar, desse seu equipamento,  os dados em reptiliano  para a tecnologia do computador terrestre?
- Seu Lê, depois de tanto tempo afugentando esses outros aliens e  participando da rotina terráquea, foi facílimo fazer um conversor de nossas tecnologias para a de vocês e vice versa.
- Hummm..., entendi!

Depois de quase duas horas assistindo o resumo do projeto reptiliano Kobauski concluiu:
- Entendeu, seu Lê, eles estavam criando uma anti-religião. Esta seria exatamente o contrário da que usam na Terra há milênios. Era um projeto ousado e criativo.
- Depois do que vi fico na dúvida: “Qual, das duas, será a anti religião com certeza?” Eu sempre vou ter as minhas dúvidas sobre as verdades dessas crenças. É um fato a pensar e pensar muito à fundo.
- Os reptilianos, que implantaram esses chips nos abduzidos, são da mesma expedição que expulsamos para fora do seu sistema solar na última vez que estivemos aqui. Eles já haviam implantado essa rede antes de abortarem a expedição.
- Então essa missão deles está encerrada?
- Com certeza seu Lê, estejam onde estiverem não vão conseguir nada com os chips implantados em rede.
- O que vai acontecer com este pastor quando voltar ao estado normal – perguntei ao Kobauski.
- Vai voltar a ser o que ele era antes, não vai se lembrar de nada que o chip o induzia a fazer.  Apagamos, também, os programas incluídos no computador dele só ficando o que já existia antes, só os programas de fábrica e emiti uma frequência que destruiu qualquer cópia dos arquivos que, por ventura, tenha sido gravado em qualquer tipo de backup guardados num raio de dez quilômetros.
- Se é assim, dá para ver o que ele era na realidade. Deixe-me dar uma pesquisada, Kobauski, vai ser rápido – falei.
- Ok! Enquanto isso vou lá prá caminhonete falar com o Nhô; ele deve estar cansado de nos esperar, certo?
- Certo, tá ok!
Ao verificar os dados do IP do micro do pastor deu para ver que ele, na verdade, é um “esperto” que ganhava a vida como pastor e era de uma seita chamada: “Los Sobrevivientes de Nibiru”, cuja matriz, dizem, ficava localizada perto de Puno no Peru, próximo ao Lago Titicaca.   
- “Tenho certeza de que o pastor Jairo Edson vai correr com ele daqui da região!” – pensei alto.
Verifiquei e tive a certeza que na memória do micro não havia ficado resquício de nada. Tinha, agora, só os programas normais de fábrica.
O pastor mostrou sinal de que estava voltando a si e ao sair da tenda vi que os seguranças também estavam se recuperando e corri para a caminhonete e rumamos para o sítio do Nhô.

Continua em:
UMA NOVA VIAGEM 


sábado, 16 de março de 2013

COISAS DA VIDA


AINDA EXISTEM
 OÁSIS

                Houve um tempo em que eu tinha um furgão. Era uma Kombi antiga e a agreguei numa transportadora para fazer entregas fracionadas nas cidades de pequeno porte, nas proximidades de Juiz de Fora:
- Seu Lê, esta é a sua rota. Você vai levar mais de mil quilos na tua viatura. Será que ela aguenta – falou-me um dos donos da transportadora.
Peguei o romaneio das notas fiscais das mãos dele e verifiquei o meu percurso:
Dez cidades e, em média, seis entregas em cada uma. Quis dialogar com o Sr. Carlos:
- Carlão, o percurso é quase todo em estradas de chão e já são nove e quarenta e cinco; não conseguirei fazer essa rota, já que as dezoito horas terei que estar de volta!
- É o que sobrou para você! Os outros agregados são todos carros novos e acho “sacanagem” colocá-los em estradas ruins. Você quer desistir?
Engoli seco, baixei a cabeça, não falei mais nada e comecei a carregar a Kombi surrada e com motor “cansado” devido aos milhares de quilômetros rodados.
Por volta das doze horas e trinta minutos eu estava fazendo uma entrega em Abaiba, distrito de Leopoldina. Lugarejo agradabilíssimo e, chegar até ele, foi por estrada de chão batido. Porém, todo o perímetro urbano era em paralelepípedos bem assentados; calçadas bem planejadas; casas simples, mas bem construídas; crianças indo à escola que ficava no final da rua principal, atrás da modesta  igreja, e pessoas diversas cuidando de seus afazeres.
A entrega, de dois volumes, seria no armarinho da Tia Lu. Ao terminar a entrega dona Lurdes me perguntou:
- O senhor já almoçou? Se quiser vamos nos servir daqui a pouco. Eu e minha auxiliar fizemos uma macarronada com almondegas aqui mesmo na cozinha da loja!
- Não Dona Lu, obrigado, não posso parar nem para beber água. Se demorar muito, num determinado lugar, posso não completar minha rota – falei-lhe.
- Eu entendo – disse-me ela.
Na saída deste distrito, numa ruazinha estreita e com casas dos dois lados, a Kombi, sozinha, desengatou a marcha. Tentei engatar a segunda e notei que parecia que a alavanca do câmbio estava em ponto morto mesmo engatando as marchas.  No embalo da descida da rua encostei o veículo e vi o óleo escuro da caixa de marchas gotejando no chão. Coloquei as mãos no rosto e exclamei:
- Estou perdido!
Num instante juntaram curiosos:
- Moço, eu já tive Kombi desse mesmo modelo e ano da tua e, isso que aconteceu, foram os parafusos que une a caixa no motor. Com o tempo e a trepidação eles se afrouxam e caem.
- É, pode  ter sido isso mesmo – respondi e pensei: -“Pouco entendo de mecânica, mas seja lá o que for o certo é que me ferrei!”
- O pior é que meu celular não funciona aqui neste lugar e eu... – uma senhora, até bem bonita, que estava no portão de sua residência  me interrompeu:
- Ei, moço, se o senhor quiser, pode ligar para a sua transportadora daqui do meu telefone fixo. O DDD é o mesmo e não me custará nada!
Pensei comigo:
- "Incrível, a linda senhora prontificou-se a me ajudar sem mesmo me conhecer?"
- Eu aceito, se não for incomodo!
Enquanto fazia a ligação, sentado no sofá da sala daquela senhora, uma vizinha chegou e a chamou:
- Marilene, eu vim te devolver a vasilha na qual tu me  mandastes os biscoitinhos de nata!
- Oi, Susana, entre e venha até a cozinha – disse à amiga.
Ao passar pela sala:
- Boa tarde moço – disse-me Susana.
- Boa tarde, senhora!
- Aqui está sua vasilha Lene e te trouxe um agrado, espero que goste – disse Susana.
Marilene abriu a tampa da vasilha e exclamou:
- Ohhhh! Merengues! Eu adoro merengues! Muito obrigada, amiga!
Consegui fazer a ligação. Finalmente o telefone da transportadora desocupara e eu expliquei a situação para o Carlão:
- “Se” vira, o problema é seu e dessa sua Kombi velha – foi o que ouvi antes de ele me “bater” o telefone na “cara”.
- Dona Marilene, muito obrigado! Já falei com a transportadora. Quanto lhe devo?
- Não é nada não, moço, foi um prazer ajudá-lo! Resolveu?
- Não, ainda não! - respondi e pensei:
- "O que farei? O que fazer?"
Sai, deitei embaixo do furgão e realmente tinha perdido dois parafusos da junção caixa/ motor e o óleo continuava pingando.
Sentei em um banco de madeira em frente a uma das casas imaginando uma solução:
- Ei moço, o senhor quer beber água? Tenho água de mina fresquinha na moringa de barro – perguntou-me uma senhora, de sua janela, do lado onde eu estava.
- Quero sim e lhe agradeço! – Dona Alzira serviu-me num copo, desses que usam como embalagem de massa de tomate industrializado.
- “Que água abençoada e deliciosa!” – pensei comigo.
- Boa tarde Alzira, você me empresta uma medida de café em pó? O meu acabou e só vou torrar mais amanhã cedo, aí eu te devolvo.
- Tenho sim, me dê a sua vasilha – Dona Alzira encheu a caneca da vizinha e trouxe junto uma sacola de papelão:
- Tome essas mandiocas que o Tião trouxe da roça. Coloque para cozinhar e quando você estiver coando o café ela já estará cozida. Elas são “maciínha”. Vão descer bem com o café da tarde, não vai?
- Nossa se vai, obrigada! Daqui a pouco vou te trazer uns abacaxis que o meu Tonho trouxe lá do sítio: são umas delícias os desta safra.
Voltei para a Kombi. Estava sentado no banco do motorista e com a cabeça deitada sobre o volante quando uma motocicleta parou perto de mim e, logo, aquele homem que tinha dado o diagnóstico do defeito também se aproximou:
- Ei “seu” moço, este rapaz da moto é meu filho. Ele estava em Leopoldina e antes de voltar, aqui para Abaiba, me ligou – coisa que ele sempre faz -, e me perguntou se eu precisava de alguma coisa da cidade. Aí eu tomei a liberdade de pedir para ele trazer os quatro parafusos para a sua Kombi. Posso te ajudar?
Sem brincadeira nenhuma, veio-me lágrimas aos olhos e agradeci imensamente a ajuda e ele se ofereceu para colocar os parafusos, pois tinha muita prática.
Em quinze minutos:
- Pronto moço! A sorte é que não vazou todo o óleo. Dê partida na “moça” e veja se engata as marchas!
Fiz o que ele pediu e a Kombi parecia nova:
- Graças aos senhores, ainda vai dar tempo de fazer toda a minha rota de entrega. Quanto lhes devo, amigos?
- Ora, só reponha o quanto gastamos com os parafusos, só isso! E já que o senhor tá atrasado nas entregas, poderá perder mais uns minutinhos e almoçar comigo, meu filho e minha patroa. Moro aqui pertinho  e o almoço já tá na mesa.
Foi o mais saboroso arroz, feijão, frango com quiabo, angu, couve e salada de rabanetes que comi em toda a minha vida.
- Senhor Olavo – este era o nome do meu salvador -, as pessoas daqui deste lugarejo são sempre assim prestativas – perguntei antes de voltar para minha rota de entregas das mercadorias.
- Aqui em Abaiba nós nos conhecemos a todos; acostumamos nos ajudar sem nenhum interesse a não ser o de servir com o que podemos e a quem pudermos!
Agradeci, novamente, e continuei minha rota e pensei alto no volante do barulhento veículo:
- Seria esta uma comunidade perfeita ou seria apenas um oásis? Quantos oásis assim existirão neste mundo civilizadamente globalizado?


sábado, 9 de março de 2013


ARRET
A NOVA MORADA


OS TRÊS PASTORES



Meados de março, após a festa do casamento de Ana Paula:
- Muito obrigada Rô, você é  mais que uma amiga para mim – disse Aninha, ao se despedir, em partida para a lua-de-mel.
- Você merece, minha amiga, sejam felizes – falou a Rô com lágrimas de alegria em seus olhos brilhantes.

Sábado, dia vinte e três de março , quatorze horas:
- Você já preparou a Vermelhona, não é Lê – perguntou-me a patroinha.
- Sim, ela está no ponto para irmos para Queimados, na pousada Sertaneja.
- Então me ajude a terminar de arrumar esta sua mala, ok?
- Tá ok! Vou aproveitar e levar esses discos de vinil, de música sertaneja, para o Reinaldo. Eu prometi a ele!

Dezessete horas e um minuto na entrada da pousada:
- Lá estão eles: Kellyn, Reinaldo...olhe só Lê, como o Vitório cresceu; já está um homem feito!
- É mesmo, o tempo passa voando!
- Oi tio Lê, Tia Rô, a quanto tempo hein – falou o Vitório com a voz de rapazote.
- É mesmo! Como você está bonito rapaz – respondeu a tia.
- Ei, mas você está com esta enorme mochila nas costas; vai viajar, Vitório – perguntei.
- Vou para Petrópolis com a turma da faculdade. Só volto depois do feriado!
- E aí , Reinaldo, tudo bem – perguntei ao alegre anfitrião.
- Tudo na mais "tranquila tranquilidade"! Sejam bem vindos! Um minuto que vou atender o telefone que toca. Fiquem à vontade!
- Está vendo Tio, ainda bem que vocês cumpriram a promessa e vieram; a  pousada está vazia e só estamos eu e o Reinaldo. Os dois funcionários – marido e esposa -,  alegaram estar com dengue. Mandou-nos até atestado de dez dias. Pode “uns trem” desses – exclamou Lellyn.
- Mas está acontecendo surto de dengue por aqui, Sobrinha – perguntei.
- Não Tio, eles devem ter pegado onde moram no subúrbio da capital!
- Kellyn – gritou o Reinaldo – aqueles pastores evangélicos confirmaram que estarão aqui amanhã cedo! Falaram que confirmaram por e-mail anteontem, mas como não demos retorno, resolveram confirmar por telefone. São trê casais e, inclusive, disseram que  já depositaram o valor do “pacote promocional”, que fizemos para eles, na conta da pousada!
- Iuuuupiii – gritou minha sobrinha – que ótimo! Estamos sem Internet há três dias, tios. Foi logo após um temporal de verão que ficamos sem computador. O Vitório disse-nos que queimou a placa mãe da CPU. É por isso que a pousada está assim, sem hóspedes – justificou a Kellyn.
- Pode contar conosco para ajudá-los – prontificou-se a Rô.
- Eu trouxe meu notebook, sobrinhos. Precisando é só anexá-lo no cabo de rede de seu computador! – falei.
- Que bom, Lê, vamos precisar sim – respondeu Reinaldo.
- Eu queria ficar, mas a mãe entende que não poderia deixar de participar deste evento com minha turma de faculdade – justificou-se nosso sobrinho por deixar-nos.
- Venham tios, vou alojá-los na melhor suíte que reservei para vocês – disse Kellyn.
- Pagaremos com nossos serviços, certo Kellyn, ah! Ah!, Ah!
- Ah! Ah! Ah! Tá bom Tio, o senhor continua o eterno debochado, ah! Ah! Ah!
Vitório, após conectar meu notebook á rede de Internet, montou em sua moto de 600 cc e gritou:
- Tchau meu povo, até depois do feriadão!
Até por volta das duas horas da manhã a cantoria, churrasco, caipirinhas – feitas com frutas colhidas no pomar da pousada -, foi animada. A dupla de violeiros estava mais afinada do que nunca, aliás, até a quarta caipirinha. Após essa pequena comemoração fez-se o silêncio típico de um retiro sertanejo.
As dez horas, do dia seguinte, fomos acordados por barulho de carros chegando. Eram os casais de pastores. Todos senhores e senhoras de meia idade; rostos corados e reluzentes; carros do ano e importados; roupas caríssimas  de grifes famosas  e uma felicidade geral que só têm aqueles que conseguem as coisas com pouco ou nenhum esforço:
- Exesti um tipu di felicidadi, misifiu, a felicidadi epócrita - diria o Nhô Antônio Benzedô em sua genial simplicidade, se os avistasse naquele momento.
Um dos pastores calcou a mão na buzina do carro acabando de vez com o tranquilo som da natureza e gritou:
- Bom dia pessoal, chegamos para colocar alegria celestial nesta pousada bucólica! Em nome do Senhor!
Reinaldo foi recebê-los:
- Bom dia senhores! Por favor parem seus carros à frente de cada choupana que contorna esta sede; as chaves estão nas portas!
- Tudo bem senhor...senhor... – perguntou o pastor que parecia liderar os outros ao dono da pousada.
- Reinaldo – respondeu -lhe meu sobrinho.
- Eu sou o pastor Cláudio e esta é minha senhora Maria. Os outros são: Eustáquio e Carmem e, meu irmão caçula, Ricardo e a esposa Ana. Organizamos esta estadia em nossa pousada para além de descansarmos e meditar, festejaremos meus trinta anos de ministério e vinte anos de casado. E o principal é que, depois de vinte anos de união com minha esposa Maria, fomos glorificados pelo Senhor com um filho: Claudinho nascerá daqui a  seis meses!
- Oh! Glória – gritou Cláudio.
- Oh! Glória – respondeu os outros.
- Meus parabéns, senhores – cumprimentou-lhes o Reinaldo.
- Aqui está o menu que queremos para hoje no almoço de aniversário. Seria possível estar pronto às catorze horas em ponto? Trouxemos as carnes! Foi  presente de nossos fiéis, está no isopor  dentro da caminhonete do Cláudio. Vocês só precisam fornecer os outros ingredientes  – falou  a Dona Maria.
Reinaldo pegou o menu, manuscrito num pedaço de papel, leu e disse à senhora:
- Com certeza! Às catorze horas estará tudo pronto! Vocês podem ficar à vontade. A piscina está preparada e fica atrás daquele quiosque. Os cavalos , para passeio pelos campos da pousada, ficam preparados em meia hora, após combinarmos a hora do passeio, ok?
- Ok! Ok! Ok! Aaaah! Que ar puro! Ohhhh! Glória – gritou Cláudio.
- Oh! Glória – ouviu-se a réplica dos outros seguidores.

Por volta das treze horas:
- Tia Rô e Tio Lê, se vocês não estivessem hoje aqui nós estaríamos perdidos.
- Isto para nós está sendo uma terapia, Kellyn. Pronto! Acabei de montar a salada de folhas verdes. Era a última, a de legumes crus e a outra, de legumes cozidos, ficaram lindas, não é Lê?
- Estão divinas – respondi-lhe.
- O churrasco está indo para a churrasqueira: picanha, lombo de porco, asa de frango e linguiça toscana – disse o Reinaldo.
- O arroz, feijão tropeiro e farofa já estão prontos, também. Vou mantê-los na bacia de banho-maria. Foram feitos com capricho no fogão á lenha – disse a Kellyn
As catorze horas, o cheiro indescritível do churrasco, chamou os pastores até ao varandão das refeições e onde se localiza a churrasqueira.
Todos se esbaldaram na fartura e ficaram falando de tudo, menos em religião. Só gritavam de vez em quando:
- Oh glória! Oh Senhor!
Uma hora e meia depois os pastores se levantaram de defronte a mesa de refeições e decidiram;
- Senhor Reinaldo  nós, eu  e os outros pastores, vamos passear à cavalo, poderias preparar três animais para nós – perguntou Cláudio.
- Sim, em meia hora estarão prontos!
- Vou ajudá-lo, Reinaldo – prontifiquei-me .
As dezesseis horas e cinco minutos os pastores se despediram das esposas que estavam estateladas nas espreguiçadeiras à beira da piscina. Reinaldo trouxe os animais selados e preparava-se para acompanhá-los na sua mula tordilho:
- Não, meu senhor, nós vamos sozinhos. Vamos conversar com o nosso Senhor. São assuntos superiores a nível celestial – disse um pastor, o Ricardo.
Reinaldo, precavido, desceu da tordilho e pediu à Kellyn uma cópia de um contrato de risco com os nomes dos quatro pastores feito  no ato no notebook e impresso  à laser.
- Por favor senhores, só permitirei que saiam sem um guia se assinarem este documento!
Cláudio leu e assinou e os outros dois nem leram e, na confiança, assinaram.
Montaram com desenvoltura e Cláudio falou:
- Senhor Reinaldo, a glória do meu Senhor, deu a cada um de nós, guardiões de seu rebanho, três grandes fazendas com cinco mil cabeça de nelore, cada uma. Andar à cavalo é brincadeira para nós!
Os outros pastores:
- Oh glória! Oh Senhor – e começaram a dar gargalhadas insanas.
Eu assistia aquilo tudo, sentado numa cadeira de praia, e, em minhas mãos, um volume encadernado dos quinze primeiros números de Os Sobrinhos do Capitão – gibi que guardo desde os meus doze anos de idade. Dalí onde eu estava dava para ouvir a conversa das esposas dos pastores:
- O Cláudio bem que podia comprar essa pousada e me dar de presente. Eu já não aguento mais lidar com aquela gentalha pobre e enjoada. Ele poderia fazer um apelo na igreja pedindo dinheiro para alguma obra e em dois meses ele teria dinheiro para comprar essa pousadinha e, tem mais, nem precisaria mexer na poupança – disse Maria às amigas.
- Ah!  não, Maria! Eu já dei essa ideia ao Ricardo. Falei para ele deixar a igreja com o irmão dele e nós viríamos morar direto aqui. Com a fazenda de Juara no Mato Grosso e os dízimos, nós podemos viver tranquilos. E, além do mais, afastaria o meu marido do assédio daquelas mulheres assanhadas da comunidade.
- Então tá, não vou falar com Cláudio... mas, o que o Ricardo respondeu? – perguntou a Maria.
- Ele disse que  até pode comprar, mas que eu viria para cá sem ele. Eu traria uma arrumadeira, uma cozinheira e o motorista Carlão. Ele não pode deixar a igreja com ninguém. Tem medo de ser roubado, ah! Ah! Ah! – respondeu a Ana.
- O motorista é aquele morenão de quase dois metros e “saradão” – perguntou a Carmem.
- É ele mesmo! O safado me devora com olhares maliciosos – respondeu Ana.
- Se eu fosse você, aceitaria sem pestanejar – disse Ana.
- Ah! Ah! Ah!Ah – foi a respostas das outras.

As conversas fúteis e vazias perduraram por mais algum tempo até que Kellyn interrompeu-a:
- Com licença senhoras, o lanche da tarde já está pronto. Não tem como trazê-lo até a beira da piscina, pois tem muitas guloseimas. São quase dezoito horas e o jantar será servido as vinte horas, como me pediram, ok?
- Vamos lá meninas , esse ar puro da roça me deixa faminta – disse a pastora Maria.
- Aleluia, aleluia, oh glória! – gritaram as outras em frenesi gastronômico.
- “O ar puro a deixa faminta”, não é? O que essa senhora comeu no almoço daria para sustentar uma pequena família por dois dias...affff...-pensou Kellyn.
Ao sentarem, ao redor da farta mesa, ouve-se tropel de cavalos; eram seus maridos que retornavam da cavalgada. Reinaldo os recebeu, pegou os cavalos pelas rédeas e os levou para o estábulo.
- As divinas bonecas estão nos esperando para o lanche da tarde – perguntou o Cláudio.
- Sim amores – falou Maria e todos se sentaram nas cadeiras perto de cada esposa.
- Ah! Que mesa bonita e farta – falou Claudio e prosseguiu:
- Oh glória! Aleluia irmãos!
- Oh glória! Aleluia – responderam, aos gritos,  os outros.
- A cavalgada me deixou exausto, sedento e faminto – falou Cláudio e continuou a falar:
- Agradeço por toda essa fartura, Senhor – e ordenou -, podem se refestelarem meu povo!
- Nossa que povo porco à mesa – pensou Kellyn – se todo mundo que vai para o céu for assim, que inferno deve ser lá!

De repente a sessão da tarde da televisão, que estava ligada na hora desse lanche, interrompe o filme – “O Dia em que a Terra Parou” -, e, em plantão urgente, solta a notícia:
- Atenção! Atenção! O santo padre, da Igreja Caótica  Apostrófica Romana, renunciou ao cargo! Mais notícias no Jornal da Nação das vinte e uma horas! E retornaram a exibir o cult.
- Chiiiii! – murmurou a  Kellyn.
O pastor Cláudio teve que comentar:
- Tem-se que ter coragem, ter brio, o dom da persuasão  e ter saúde para mantermos os rebanhos do Senhor, caríssimo chefe maior dessa igreja babilônica!
- Oh glória; aleluia – freneticamente gritaram todos os outros  e voltaram a devorar os quitutes.
Dez minutos depois o filme na televisão é novamente interrompido:
- Atenção! Atenção! Notícia urgente: em YEKATERINBURGO/CHELYABINSK, Rússia, uma chuva de meteoritos deixa centenas de feridos e grandes perdas materiais. Reportagem completa no jornal das vinte e uma horas – e retornam a exibir o filme da década de cinquenta.
- Cof...cof...cof... – o pastor Cláudio engasga e Reinaldo enfiou um tapaço nas costas dele:
- Cof... obri...gado...seu Reinaldo ! Temos que voltar para o Rio!
- Mas o que houve pastor – perguntava o Reinaldo -, desculpa-me se bati com muita força nas suas costas! Vocês pagaram o pacote por cinco dias e não ficaram, ainda, nem um dia completo?
- Então fica acertado assim: não lhes devemos nada , ok? Tudo está correto – respondeu-lhe o líder dos pastores.
- Mas pastor Cláudio, meu irmão, o que deu em você – perguntou assustado Ricardo.
- Não acredito que me fizestes esta pergunta idiota, meu irmão – nervoso gritou Cláudio -, não entendestes o aviso dos céus? Raciocine comigo: - o Senhor induziu o chefão da grande Babilônia a desistir do mais alto posto e logo em seguida manda , lá do céu, uma chuva de estrelas cadentes?
- Ooooooohhhh – foi a exclamação em resposta, dos outros pastores e esposas.
- Vamos embora, rápido! É a nossa chance de irmos aos nossos programas de rádio e TV e levantarmos uma fortuna com esses dois assuntos. Já pensaram o quão impressionadas vão ficar as ovelhas do nosso rebanho? E quantos vão debandar da outra crença e vir para a nossa?
- Oh glória, oh Senhor! Aleluia! O nosso pastor mestre é mesmo um iluminado -  falou Ricardo.
Em poucos minutos deixaram na estrada a poeira de suas pressas e, com Reinaldo, um distrato assinado e dando por extinto as obrigações estabelecidas no contrato anterior. O pastor não quis devolução de nada, visto que a presença da pousada neste episódio foi obra do Senhor, segundo ele próprio.
Kellyn sempre brincalhona gritou alto e em bom som:
- Oh glória, aleluia falamos nos agora, ah! Ah! Ah! Ah!
Rimos muito até altas horas da noite quando a dupla sertaneja , alheia à tudo, se despediu, entraram na Caravan 69 e seguiram para o Rio de Janeiro.
- A prosa está muito boa, mas vou dormir, estou muito cansada – disse Kellyn.
- Eu te acompanho – falou Reinaldo.
- Vamos Lê! Vamos para suíte – ordenou minha paixão e continuou a falar:
- Esta noite eu quero cair na cama e entrar num sono profundo e só acordar lá pelas dez horas!
- Pode ir Rô, vou ficar olhando o céu daqui desse interiorzão fluminense. Talvez eu tenha sorte de ver meteoritos. Vou colocar uma espreguiçadeira no gramado, apagar todas as luzes e esperar. Tenho certeza que verei algo!
- Então tá, então! Boa noite para todos – disse a Rô bocejando.
- Boa noite – responderam todos.
            Continua em:
ISON COMET


sexta-feira, 1 de março de 2013

COISAS DA VIDA

ASSIM DESCAMINHA A HUMANIDADE!


Ontem, à tarde, estava eu caminhando acelerado à margem do Rio Paraibuna, curso de água que corta a majestosa Juiz de Fora em Minas Gerais, ao meu lado, iam e vinham pessoas procurando melhorarem suas saudáveis vidas. O rio corria sem dar importância a nada em seu redor, nem às capivaras, que aos bandos - uns nadavam e outros comiam gramíneas suculentas -; nem aos patos – ou seriam marrecos -, selvagens que faziam fuzarca nas águas turvas e nem à garça branquíssima que vinha voando acompanhando o leito do rio.
- Espere aí, uma graça branca – pensei alto.
Parei com a acelerada caminhada e fiquei troteando sem sair do lugar e só observando a garça se preparando para descer e, por fim, pousar no braço direito do sofá.
            - Êêêêpaaa! Braço direito de um sofá - estarei maluco?
            Mas é isso mesmo: um sofá!  Pelo tamanho, é igual àquele em que me esborracho todos os finais de tardes para ver filmes antigos, preto e branco, na televisão enorme com imagem em HD.
            - Quem será que colocou aquele sofá no leito do rio para ajudar a garça branca a ficar, pousada, na espreita por um distraído peixe que parasse ali para ver o que seria aquilo obstruindo o percurso de seu caminho – pensei e, já sentado na grama, pois me cansei de trotear no mesmo lugar.
            Respirei fundo e tossi; engasguei com pernilongos que circulavam sobre minha cabeça. Senti o desagradável odor da poluição do Paraibuna causada pelas mesmas pessoas que usavam a margem como pista de caminhada para melhorar suas saudáveis aparências; eu incluído, é claro!
            Meu celular deu um sinal e eu li: - Chuva de meteoritos castiga YEKATERINBURGO/CHELYABINSK, Rússia!
            - Caramba, vou voltar para casa! Se eles não escolherem logo o novo papa, eu não sei o que vai acontecer com o mundo. O “Homi” já está mandando até as estrelas caírem – conversei debochadamente, com meu celular.
- Mas espere aí -“u qui u capinzá tem qui vê cum a picanha na churrasquêra, misifiu” -, perguntaria o Nhô Antônio (*)!
Responder-lhe- ia:
- Tudo, Nhô! Se, como disse o padre Ernestino Treviso (*) de Virtuália - “o papa é o maior representante de Deus na Terra”-, então que Ele desça do céu e indique o seu representante aqui deste planeta. Qualquer procuração sem a assinatura Dele e reconhecida nos cartórios terrestre e celeste derruba a teoria do padre Ernestino Treviso e outros “entendidos”.
Terra, rios, capivaras, patos, marrecos, peixes, sofás, pernilongos, churrascos de picanha, pessoas saudáveis aos extremos, padres, papas, chuvas de meteoritos, meteoros, etc... nada esconde nossa imensurável fragilidade diante do grande poder que temos de destruição com simples palavras.

(*) Personagens virtuais de A Vida em Virtuália (blogdolecino.blospot.com)