sábado, 12 de outubro de 2013

        ARRET
A NOVA MORADA

De Virtuália ao Universo

      Numa calma manhã de sábado, primeiro dia  do primeiro verão em que Rô e eu estamos em definitivo em Virtuália; eu e o Nhô pescávamos às margens do Rio do Peixe:
         - Misifiu, nóis já peguemu dois doradu i dois piau dus bitelão i si nóis pegá mais um nóis pára, tá bão?
         - Tá bom sim, “Véi”! Já pescamos e devolvemos ao rio mais de vinte peixes de pequeno porte, cada um de nós. O próximo será para a Ritinha, OK?
         - Certu! U primêru mandi ô pintadu, qui é dus pêxi qui iela gostcha, qui a genti pescá, nóis si pirulita daqui lá prá cunzinha du sítiu. Nossas patroa já dédi tê feitchu u arrois, refogadu u fejão, qui dexei cunzinhadu nu fogão di lenha, i perparadu a salada. Só farta nóis levá us pêxi!
         - É mesmo, amigo! Mas chegando lá é só temperar e fritar, pois vamos levá-los limpinhos.
         - A patroinha num gostcha di pescá, seu Lê?
         - Não Nhô! Ela prefere ficar dormindo até mais tarde nos sábados e domingos e, aqui no Vale do Rio do Peixe, o clima é ótimo para se descansar o resto da eternidade, não é mesmo?
         - Eh! Eh! Eh! É issu memu, seu Lê, i é u qui todu mundu fais pur aqui. Trabaiá pur estes ladus é só pur diversão; passá u tempu.
         De repente nossas linhas dão puxões fortes, e por coincidência, ao mesmo tempo:
         - Caramba, Nhô, estes devem ser dos bitelões! Vamos puxar – gritei ao  amigo e puxei a minha linha.
         - É um surubim, seu Lê, i dédi pesá uns seis quilu! É muntchu bunitu, Misifiu!
         Tirei-o da água e o Nhô me disse:
         - Ieu vô puxá u qui pesquei, seu Lê, mai ajuda essi negu véi qui tá muntchu pesadu i...
         - Puxa para a margem que vou usar a fisga, Nhô – assim o fizemos:
         - Caramba, seu Lê, essi doradu tem uns... uns... – falava e levantava o peixe com a fisga como se quisesse pesar mentalmente a pesca – uns novi quilu!
         - Agora chega, não é Nhô? Com esses dois peixões, e mais os outros que já pescamos, dão para alimentar até ao Etevaldo e o Kobauski, ah! Ah! Ah!
         - I puruque ocê num chama eis? Já fais um tempão qui eies num vem aqui!
         - Tem razão Nhô e tem outras razões para isso.
         - Quai são, seu Lê?
- As coisas que aconteceram! Lembra-se dos meteoritos, do astronauta da caverna e, além disso, nesse almoço de hoje, estarão reunidas todos os chips!
         - Mai num é qui é deveras, seu Lê, i ieu – de repente ouvimos um barulho familiar e um brilho surgiu lá pelos lados das duas pitangueiras:
         - Tem arguma coisa querenu acontecê lá pelus ladu du portá, seu Lê.
         - Tem mesmo, “Véi”! Vamos terminar de limpar os dois peixões, deixá-los lá com as meninas e iremos lá ver o que está acontecendo, OK?
         - Tá bão, seu Lê, u sinhô é qui sabi!
         Meia hora depois, quando chegávamos perto da cozinha do sítio:
         - Lê, adivinha quem está de visita aqui no sítio?
         - O Etavaldo e Kobauski – respondi à Rô.
     - Eu devia saber que você sabia, não é mesmo?
         - Ah!Ah!Ah! Desculpa te decepcionar, mas hoje eu mentalizei a vinda deles. Temos algumas dúvidas a sanar com eles, Pitéu!
         - Peraí...peraí...peraê! Como você sabe quem são eles se... - Rô me interrompe:
         - Quando eu os vi chegando, Lê, vieram-me na memória todas as cenas de um encontro que tivemos antes. Se eu tiver alguma dúvida posso relatar a ele – perguntou-me a Rô e eu pensei:
         “- Ihhh! O Kobauski vai ter que se virar para tirar as dúvidas dessa menininha, ah! Ah! Ah!”
         - Claro que poderá Pitéu – respondi-lhe.
         - Então tá, então – disse-me ela com os olhos brilhando.
         Ao chegarmos à varanda fomos recebidos pelo Etevaldo, Kobauski e pela companheira dele:
         - Seu Lê que prazer em revê-lo e ao senhor também Nhô Antônio – disse o Kobauski.
         - Que bom vê-los, senhores – disse Etevaldo.
         - Como tem passado senhores – perguntou a tenente enquanto degustava carambolas madurinhas e prosseguiu:
         - Desculpem, mas eu não resisti a estas carambolas e...
         - Pode ficá a vontadi, Misifia. Iguá as carambola daqui ocê num incontra im nenhum lugá nu mundu, linhais, nus mundu, eh! Eh! Eh!
         - Tem razão, Nhô Antônio – falou o Kobauski.
         - Lê, enquanto vocês “matam” a saudade, eu  e a Xerê vamos terminar o almoço, OK? Só falta fritarmos os peixes e será rápido.
         - OK, Pitéu – respondi enquanto bebericava a purinha servida com muito orgulho pelo Nhô.
         - Como está Arret, Kobauski? Vocês têm ido a Terra-II?
         - Arret está na mais sublime paz. Quanto a Terra-II, tenho uma longa história a relatar.
         - Seu Lê, agora que estarás para sempre em Virtuália, com sua patroa, poderão acompanhar-nos em nossas viagens! O que achas – perguntou-me o Etevaldo no momento em que a Rô veio falar-nos:
         - O almoço está servido, senhores! E eu respondo pelo Lê e por mim, Comandante: - Nós aceitamos OK?
                 - E então seu Lê, concordas?
       - Se a patroinha concorda quem sou eu para discordar – falei e o Nhô caiu na gargalhada:
         - Eh! Eh! Eh! Agora é qui oceis vão vivê uma vida eterna juntu, eh! Eh! Eh!
         O almoço estava divino, digno de visitantes de Arret. E foi a tenente quem falou:
         - Essa salada de frutas vermelhas eu não tinha provado em nenhum lugar do universo, dona Rô. Está sensacional!
         - Elogie a Xerê, Tenente, foi ela quem a fez e são todas frutas frescas daqui do sítio do Nhô.
         - Eh! Eh! Eh! A minha nêga virô uma das mió cunzinhêra qui si tem pur estas paragi – elogiou, com razão, o Nhô.
         - Lê, vocês podem conversar à sombra do flamboyant? Eu vou ajudar a Xerê com as louças do almoço e, quando terminar, virei juntar-me a vocês, OK?
         - OK, Pitéu!
         À sombra do flamboyant eu iniciei a prosa:
    - Kobauski, aquele pedaço da mão do reptiliano que você levou para ver se era do HZZY, a que conclusão chegou?
         - Não era do HZZY! O HZZY usou um semelhante dele para tentar passar pelo portal sem o código, ou melhor, burlando o sistema codificado. Naquela última vez em que estivemos aqui e fomos embora, nós o encontramos no espaço tempo do outro lado do portal. Ele estava em uma nave de fuga reptiliana – esse tipo de nave só leva uma pessoa. Prendemos  e o levamos para Arret e será monitorado na colônia-fazenda destinada aos reptilianos perturbadores.
       - E existe muitos reptilianos lá, Comandante – perguntei.
         - Nesse momento nenhum! Tinham trinta elementos mais o HZZY e... - interrompi o Kobauski:
         - Tinha? Para onde foram?
         - Estão, agora, na nave-mãe-mestre do outro lado do portal. Quando você nos mentalizou, nós estávamos partindo para aquela região do espaço onde deixamos os reptilianos que viviam nos subterrâneo de Terra-II.
         - Vocês vieram com uma nave-mãe-mestre, Comandante – perguntei.
         - Sim, seu Lê, estamos partindo em missão importante. Além de levar o HZZY e os outros reptilianos encontrados em Arret e aqui na Hy-Brasil, temos que retirar o que restou da população de Terra-II.
         - O que houve em Terra-II - perguntei.
         - Uma guerra total! Uma terrível guerra nuclear, seu Lê – disse o Etevaldo antecipando ao pai.
         - Caramba! O que ocasionou o tal conflito, meus amigos?
         - Motivo religioso, seu Lê – completou a tenente.
         - Isso mesmo, seu Lê, os desacordos entre os propagadores da fé levou à destruição total do que tinha na superfície do planeta.
         - Mas, você me falou que irá buscar o que restou da população e...   
       - Sim, seu Lê, o que restou. Toda a população que vive no polo sul do planeta. Temos que ir rápido, pois as geleiras estão se  derretendo rapidamente e, além das quase duas mil pessoas que lá vivem, tem as estações de pesquisas e nelas vivem famílias de cientistas.
         - Oceis vão levá ieles para Arret, Kobausqui – perguntou o Nhô demonstrando estar entendendo tudo o que falávamos.
         - Não, Nhô Antônio, vamos levá-los para um outro planeta onde os seres humanos tem a mesma cadeia de DNA e ...
         - Ocê qué dizê iguá que nem a genti, Kobauski – interrompeu o Nhô.
         - Esse é o meu grande e sábio amigo Nhô – não aguentei e soltei esse tipo de elogio.
         - Eh! Eh! Eh! Para cum issu seu Lê, sinão ieu ficu avechadu!
         - Ah! Ah! Ah! Tá bom"Véi"!
         - Como eu estava falando, os seres de lá já estiveram por aqui há muitos e muitos séculos terrestres. Estavam à procura de outros seres da mesma raça ou compatível, para poderem perpetuar a sua espécie, mas não conseguiram.
         - Não? Porque – perguntei.
         - Por que quando estiveram aqui, naquela época, existiam apenas silvícolas na ilha em que desceram... - interrompi o Comandante:
         - Peraí, mas com tantos continentes eles escolheram uma ilha?
         - Eles encontraram a Terra por acidente, seu Lê, ou seja, eles entraram em rota de colisão com um meteorito  perto de  Marte e  ao mudarem de rumo aconteceu uma pane geral na aeronave e, perderam o controle e foram atraídos pela gravidade da Terra. Com muito esforço conseguiram descer numa ilha que fica ao sul de Hy-Brasil. Ali ficaram por vários meses tentando consertá-la, mas um terremoto acabou com todas as esperanças deles.
         - Uma enorme cratera se abriu e engoliu a nave e a maioria dos seres. Os que restaram adquiriram uma doença que os foram aniquilando um por um e, em menos de um ano, estavam todos mortos. Dizem que é por causa da radiação.
         - Um fato interessante aconteceu com esses seres - que restaram, quando perderam a nave -, antes de se extinguiram – falou Etevaldo.
         - U qui aconteceu, Etevardu?
       - Como eles não tinham como se comunicar com ninguém, nem na Terra e nem no espaço, esculpiram enormes estátuas de suas cabeças e colocaram em local bem visível na ilha.
         - Já sei – gritei – as estátuas da Ilha Pascoalim ao sul de Hy- Brasil. Essa ilha surge a cada trinta e um anos terrestres. Fica emergida por trinta e um anos e depois submerge novamente.
         - As istautas qui ocê falô qui pareci cum aqueli ser qui si isfarelô na caverna, Misifiu?
         - Isso mesmo, Nhô! Aqueles que eu imprimi as fotos que tirei e o senhor guardou naquela pasta vermelha.
         - Vô pidi prá Ritinha i lá buscá c'a Xerê – Nhô falou isso e gritou à Ritinha que brincava ali perto:
         - ‘Tinha, vai lá na cunzinha i pedi a pasta vremeia, qui tá incima du criadu-mudu du meu quartu, prá Xerê, vai!
         - Tô indo, vovô – gritou a princesinha da casa.
         - Kobauski de onde eles tiraram os materiais, digo, as rochas para esculpirem as cabeças? Que ferramentas utilizaram – perguntei.
         - As rochas eram da própria ilha e utilizaram uma espécie de raio laser para fazer o serviço. Fizeram muitas estátuas, aliás, tantas quanto eram as rochas que encontraram, porém a maioria delas foi-se com o terremoto.
         - Misifiu Comandanti, comu ocê sabi di tudu issu – perguntou genialmente o Nhô.
         - Nós já estivemos no planeta deles e ficamos por dentro do assunto. Disseram que foi só aqui, por coincidência, que conseguiram seres com cadeias de DNA idênticas.
         - Peraí... peraí... peraê, Kobauski, como o pessoal “cabeça de estátua” ficaram sabendo depois – indaguei ao arretiano.
         - Algum tempo depois, seu Lê, a outra nave da expedição deles - que saíram juntas do planeta -, viram do espaço, as estátuas na ilha e desceram para averiguar e entenderam a mensagem das estátuas que, na realidade, queriam dizer: “- Aqui tem o DNA!”
      - Intrigante! Muito intrigante Comandante – falei-lhe.
       -Toda a tripulação – trinta e uma pessoas -, se espalhou pela ilha a procurar por vestígios da outra espaçonave e por seres humanos e não encontraram nada. Ficaram ali três dias e certo dia, antes de anoitecer, deram por falta de um dos cientistas e saíram a procurá-lo, pois não estavam conseguindo contato com o Champ Lif – este era o nome dele traduzido para vosso idioma. Naquela mesma noite a ilha começou a tremer toda e um vulcão, a alguns quilômetros dali, clareou a noite escura com uma incrível erupção. Todos entraram na nave e subiram, com ela, para a estratosfera e de lá ajustaram a rota e desapareceram para a constelação de origem.
         - E o cientista desaparecido, Kobauski, o que houve com ele – perguntei.
         - Talvez tenha ficado confinado na ilha, se por acaso, ainda tivesse escapado vivo.
         Ritinha chega e interrompe a conversa:
         - Tá aqui, vovô, a pasta vermelha - disse a garotinha estendendo-a para o bisavô. Nhô abriu a pasta, pegou as fotografias do “astronauta da caverna” e as entregou ao Kobauski. Este as olhou mostrou para o Etevaldo que falou:
         - É um Moiá, com certeza! Apesar do uniforme dá para ver pelo formato da cabeça.
         - Olhe pai – falou Etevaldo colocando o dedo nas inscrições do uniforme do ser da caverna – esta escrita pode tirar todas as dúvidas.
         - Com certeza, filho, use o decodificador portátil, por favor- disse-lhe o pai.
         Etevaldo tirou de uma mochila, que sempre carrega consigo um aparelho.  Ligou-o, colocou uma espécie de microcâmara sobre a fotografia e disse:
         - São sinais da escrita dos Moiaenses e quer dizer, já traduzindo para a língua principal da Terra : Champ Lip!
        - Caramba! Então está resolvido o mistério de Serra Madre! Ele não foi encontrado porque ficou preso na caverna quando aconteceu o terremoto em todo o arquipélago – tentei dar uma de detetive arqueológico.
         - Mai seu Lê, i as argemas nus braçu i nas pernas – perguntou o Nhô e emendou:
         - Ieli foi achadu em Serra Madri, na nossa ilha!
         - Não eram algemas, Nhô Antônio! Eram dispositivos de teletransporte, de pequeno alcance, usado por eles para saírem e retornarem à suas naves. Ele deve ter ajustado o teletransporte errado e aparecido dentro da caverna de Serra Madre e não deve ter acertado o retorno à nave.
         - Cruisincredu, coitadu du chujeitchu!
         - Kobauski, nós coletamos um pouco do pó do cientista para, quem sabe,  fazer uma análise. Está guardado comigo no meu refúgio.
         - Vou levar sim, seu Lê, para Moiant para ser analisado! É para lá que iremos levar os habitantes de Terra-II que restaram.  Obrigado por terem tido a ideia, seu Lê e Nhô – respondeu o Comandante.
         - Guardamos, também, o meteorito que caiu na caverna. Você poderia analisá-lo para ver a origem, Etevaldo?
         - Claro, seu Lê, vamos levá-lo conosco. Analisá-lo-emos na nave-mãe-mestre que está do outro lado do portal, OK?
         - OK, Comandante!
         Naquele momento, a Rô, que já havia terminado de ajudar a Xerê com as vasilhas do almoço, chega e já entra na conversa dando um palpite, aliás, um genial palpite:
         - Com licença pessoal, eu já havia trocado ideia sobre as dúvidas que o Lê tinha sobre certos assuntos e eu pergunto ao senhor, Comandante:
         - Por que não usam a máquina de se locomoverem no tempo, nos lugares onde aconteceram os fatos, e tirar “in loco” todas as dúvidas?
         - “Caramba, essa minha patroinha é prá lá de esperta!” – pensei.
         - Eh! Eh! Eh! Tá aí uma indeia cabicêra, pessoá – disse o Nhô.
         - Não podemos usar essa máquina aqui neste sistema solar, dona Rô, pelo menos por enquanto. As perturbações do Sol afetam as sensíveis células de que é formada a memória principal de toda a aparelhagem. O metal que é usado nas ligações das células é muitíssimo raro em todo o universo. Para termos uma ideia, ele só era encontrado, ainda,  na nossa antiga morada e esta morada, como todos nós sabemos virou poeira cósmica. Portanto, não vamos arriscar todo um empreendimento científico para, apenas, tirarmos dúvidas, OK?
         - Teus argumentos me convenceram – disse a Rô resignada, por enquanto.
          
Continua em 19/10/2013 em:
Os Dois
Meteoritos

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ARRET
A NOVA MORADA

Rô &  Lê:

Virtuália FOREVER



No caminho de volta ao sítio:
- Ocê reparô qui num tem lua hoji, seu Lê?
- Sim, “Véi” e o céu está lindíssimo!
De repente uma chuva de meteoritos cortou o céu no sentido nascente para o poente. Durou quase um minuto.
        - Isto não é normal! Pensei que já tivéssemos nos livrado dos  fragmentos do cometa Swift-Tutle.
- Eh! Eh! Eh! Mai qui é bunitu é, num é Misifiu?
- Muito Nhô! Mas preocupante! Penso em contatar o Kobauski para tirar uma dúvida, mas por ora deixe como está.
- Nhô, já que está tudo “engatilhado”, tenho que retornar ao meu irreal mundo em Minas Gerais!
- Ocê é qui sabe, seu Lê!
De repente, como se tivesse surgido do nada, um carro pequeno surge em nossa frente, uns trezentos e trinta e um metros; perde o controle; sai da estrada de terra e cai numa ribanceira:
- Você viu Nhô! Aquele motorista se acidentou!
- Vi sim, Misifiu, vamu lá vê si ieli percisa de ajuda!
Paramos a GMC, descemos e eu com uma lanterna que sempre trago na boleia da Vermelhona, foquei o veículo acidentado a dez metros barranco abaixo e dei um grito:
- Nhô, é o Fiat 147 da Rô!
- É memu, Misifiu? Tem certeza? Muntcha carma nessa hora, seu Lê, mai muntcha memu, oviu?
Desci correndo a ribanceira e a Rô estava desacordada ao volante. O pequeno carro marrom tinha um dos pneus dianteiro estourado e, possivelmente, foi isso que fê-la perder o controle da direção:
- Meu pitéu, você está muito ferida?
Ela chacoalhou a cabeça – ato que eu adoro ver, pois balança os lindos cabelos amarrado como “rabo de cavalo”-, disse-me:
- Não... e não estou entendendo nada! Eu estava indo ao grande hospital da Zona da Mata, atendendo ao chamado do Dr. José Walter, pois você dava sinal que estava saindo do estado de coma, quando um pneu dianteiro  da SUV sul-coreana estourou, perdi o controle e só me lembro de que descia uma ribanceira e desmaiei. E, de repente, te encontro aqui me socorrendo em um acidente com o 147 marrom?
- Calma Rô! Tente sair do carro, por favor – falei segurando-a pelo braço e ouvi o grito do Nhô:
- A patroinha tá bem, seu Lê?
A Rô deu um gemido doído e me disse:
- Acho que fraturei a perna! Tá doendo muito eu... – ela perde os sentidos. Peguei-a no colo, subi a ribanceira por um lugar menos íngreme e disse ao Nhô:
- Nhô, assuma o volante da GMC e vamos “voando” para o Hospital Sideral de Virtuália. Acho que a Rô quebrou uma perna, aliás, espero que seja só isso!
Nhô virou um exímio piloto e acelerou. Em poucos minutos estávamos no HSV: 
- E então Dr. Fabrício? Houve fratura– perguntei.
- Só trincou o osso da canela, seu Lê! Vou engessar para evitar danos piores. Pode ir  vê-la.
Na cabeceira do leito da Rô:
- Você vai ficar bem Pitéu! Agora procure descansar. Amanhã o Nhô vai trazer a Margarida Flores para ficar contigo. Tenho que ir para Minas Gerais, pois algo me empurra para isto e volto logo, OK?
- OK, meu amor! Aconteça o que acontecer por lá se lembre de que eu estou aqui te esperando e muito bem, OK? Eu agora estou com muito sono e... – Rô entra em sono profundo.
Saindo do quarto e na recepção do HSV o Nhô, aflito, me esperava:
- I aí, Misifiu, i a patroinha?
- Ela vai ficar boa Nhô! Só trincou a canela esquerda. Está engessada por precaução. Daqui a três dias ela estará bem. Vamos para o sítio. A Xerê deve estar preocupada. Amanhã o senhor trás a Margarida Flores para ficar com ela, OK? Estou sabendo que ela não terá expediente amanhã na prefeitura e...
- Dêxa cum ieu, Misifiu! Mai puruquê ocê num fica mais a patroinha, seu Lê?
- Tenho que ir para Minas ainda hoje, “Véi”!
- Num vai mi dizê qui ocê discubriu um buracu di minhoca casêro, Misifiu?
- Vou lá pro meu cafofo, “Véi”! Vou dormir um pouco e de madrugadinha me “pirulito” pras Minas Gerais! “Buracu di minhoca casêro”, ah! Ah! Ah! Essa é boa Nhô! Só o senhor mesmo!

Madrugada. Três horas e trinta e um minutos eu acordei falando comigo mesmo:
- Vou agora lá para Minas – entrei na GMC e acelerei...

No Grande Hospital da Zona da Mata Mineira:
- Dr. José Walter, o seu Lê está saindo do coma – gritou a linda enfermeira.
Em poucos minutos depois  o doutor me colocou a par de minha situação:
- Senhor Lê, é esta a tua situação clínica: Tiveste duas paradas cardíacas durante a sua segunda operação e seu estado é bastante crítico. Sua saída do estado de coma foi um milagre.
- Eu... eu... sinto um cansaço muito grande doutor, doe-me o peito, meu braço esquerdo e pernas estão dormentes. O pior é essa  dor de cabeça terrível eu... – fui interrompido pelo meu filho mais velho:
- Calma “Véi”, ocê vai sair dessa!
- É isso aí, mano! Ocê tem muito que aproveitar desta vida ainda, paiê – disse o Felipe meu outro filho.
- Vamos sair manos! Vamos deixar o pai só com os médicos – disse o Mateus, o caçula.
- O Mateus tem razão pessoal! Por favor, vamos até à sala ao lado que eu quero falar com os três -  interrompeu-nos o Dr. José Walter.
Na sala:
- A situação do seu Lê é muitíssimo grave. Já fizemos o que é humanamente possível. Talvez ele só tenha essas poucas horas de vida. Seria bom colocá-lo à par do que aconteceu com a mãe de vocês há três dias.
- Eu falo com ele doutor! “O que tem que ser, será!” Como ele sempre nos dizia quando enfrentávamos períodos difíceis – falou o Thiago.  
- Vai lá mano que eu não tenho essa coragem – disse o Felipe.
- Nem eu – emendou o Mateus.
- Vamos lá Thiago, eu te dou suporte – disse o doutor José Walter.
A porta do meu quarto, onde eu estava se abriu. O relógio digital que ficava acima dela marcava oito horas e trinta e um minutos daquela quarta-feira e vi os semblantes tristes de meu filho e do doutor e, o Thiago, como querendo medir as palavras, abriu o diálogo:
- Pai ... o que temos que te falar é muito triste e esperamos que o senhor... -  interrompi meu garoto:
- O houve com a Rô? Por que ela não está aqui? Ela sofreu um acidente de carro quando vinha para cá?
- Cruzes pai, como o senhor sabe disso?
- Ela não está mais neste mundo – perguntei.
- Não pai! Há três dias, exatamente às vinte horas e trinta e um minutos, ela se foi. Capotou com a SUV importada e não resistiu aos ferimentos. Ela... interrompi novamente meu filho mais velho:
- Eu acho que já sabia disto! Podem ficar tranquilos que ela está bem para onde ela foi. Ela está lá me esperando. Eu... – uma dor horrível no peito fez-me perde os sentidos e...

- Engraçado, estou me sentindo muito bem depois daquela dor! Sinto-me como se estivesse livre de algum fardo pesado e flutuando! Peraí, peraí... peraê! Eu estou fora do meu corpo! Meu corpo está inerte naquele leito hospitalar! Que será que...os meus três filhos choram em redor do meu corpo. A imagem está se dissipando! Mas que luz forte é esta eu...
De repente, uma mãozinha bate no vidro da janela da GMC e eu abaixo o vidro e uma vozinha, que eu adoro, me disse:
- Venha Lê! Venha ver o que floriu no pomar do nosso cafofo neste Vale Virtualiano do Rio do Peixe!
- Rô? Você já está andando novamente? E a sua perna?
- Perna? Ah, sim! A perna trincada  no acidente com o 147? Isto já faz quase três meses que sarou, Lê! Por que demorou tanto em voltar?
- Não sei! Não me lembro! É como a minha mente nunca tivesse saído daqui! Eu...
- Eu não! Nós! Nós vamos ficar para sempre nesta fresta do tempo, Lê! Este vale é um verdadeiro paraíso!
-Olhe só como os três pés de atamoa estão carregados de flores – disse-me apontando para as três árvores que ela queria me mostrar.
- É mesmo, Pitéu! A natureza parece saber que adoramos atamoa, não é mesmo?
- Com certeza! Olhe, também, os pés de abiu que margeiam o caminho que desce para a casa do Nhô! Está carregadinho de frutos!
- Ahhhhhh! Como é lindo este vale, não Lê?
- Sim, uma dádiva da natureza!
- Rô, é impressão minha ou você rejuvenesceu?
- São os seus olhos, meu amor! Você está me vendo com os olhos do espírito ou talvez seja a água mineral que brota da Serra Madre!
- Aquela água que ia ser engarrafada pela família Flores?
- "Ia ser", não! Já está sendo engarrafada há dois meses. Vamos lá para o complexo das indústrias para você ver que coisa mais perfeita – falou-me isso e abriu a porta do 147:
- Siga-me! Vamos deixar o 147 lá no cafofo e iremos na GMC, OK?
- OK! Sempre mandona, hein! Ah! Ah! Ah!
- É a força do hábito e acho que isso será eterno entre nós dois!
- O 147 está parecendo que saiu da fábrica agora; você vai eternizar, também, esse carrinho mantendo-o sempre original?
- Sim, assim como você faz com a tua GMC ano 1955!
- Vamos então – disse-me a Rô.
- Sim! Eu a sigo.
No cafofo, a Rô guardou o carro na nova garagem e me disse:
- Você reparou? Mandei fazer uma nova garagem. Agora os dois carros, de nossos sonhos, vão ficar lado a lado tal como nós dois.
- Que coisa linda essa frente do cafofo, Rô! Você plantou todos os tipos de roseira que existe na Terra?
- Talvez sim! Qualquer muda de rosa vinga aqui neste paraíso.
- Que ótimo Pitéu! E, por falar em “sempre juntos”, que tal se a gente... - a Rô me interrompeu:
- Só se for agora! Nesse tempo que te esperei eu fiz um jogo de roupa de cama para esse nosso primeiro encontro para a vida definitiva neste paraíso!
Um hora e trinta e um minutos depois daquele início de tarde, batem na porta. Era a Ritinha:
- Tia Rô! Ô tia Rô! A vovó pediu para chamar a senhora e o tio Lê para virem almoçar!
Acordamos de sobressalto:
- Caramba Rô, perdemos a hora!
- Esqueça esse negócio de contagem de tempo, Lê! Agora o tempo é eterno para nós!
- Noooosa! Como você continua romântica, Pitéu!
- Tia Rô! Tia Rô – continuava a chamar a Ritinha.
- Já vamos Ritinha – falou a Rô.
No varandão da cozinha do sítio:
- Ieu vi quandu us dois carru subiru lá prô cafofu di oceis. Agora oceis num vão mai fugi pelu buracu di minhoca casêru, eh! Eh! Eh!
- “Véi”, acho que o senhor tá com minhocas na cabeça, ah! Ah! Ah!
Continua em 12/10/2013 em:
De Virtuália ao Universo