sexta-feira, 6 de setembro de 2013

ARRET
A NOVA MORADA
O
Pangaré
 Bittencourt

Na entrada da cidade, trinta e um minutos depois:
- Olha só, vai haver rodeio em Virtuália – falei comigo mesmo ao ver toda a parafernália armada no Descampado dos Moleques.
- Por que não usaram o parque de exposições da cidade pensei em voz alta diante das enormes carretas estacionadas às margens da estrada e, nos seus baús, estava escrito:
“Cia de Rodeios Liberato Vicunha.”
- Gente! Esta é uma companhia de rodeios famosa demais para não usarem o parque de exposições!
Passando bem em frente do, já montado, circo vi uma égua puro-sangue inglês pastando. Era imponente, robusta,  maravilhosa e falei:
- Caramba, essa parece ser a égua de estimação do Liberato!
Cheguei mais perto e tirei a dúvida:
- É mesmo a Cachoeira! Reconheço as marcas brancas de nascença no pescoço, que parecem as letras jota e pê, próximo uma da outra, em contraste com sua cor castanho queimado.  Dizem que só ele monta nessa maravilha. Ela só cruza com garanhões famosos selecionados, mas nunca teve uma cria.
- Vou lá à delegacia conversar com o Carabina Doze e ver o que ele me diz a respeito!
Não tinha quase ninguém nas ruas talvez, pelo calor terrível daquela tarde quente.
Na delegacia:
- Boa tarde doutor Carabina – disse alto e este quase caiu da cadeira ao acordar de abrupto de um descontraído coxilo.
- Bo... bo... boa tarde! O que deseja o senhor – respondeu o velho amigo da lei esfregando os olhos e voltando a fixá-lo em mim:
- Seu Lê? Quanto tempo não nos vemos meu amigo! O que o trás à nossa inimaginável Virtuália?
- Vim rever os amigos! Como anda a ordem e a justiça nesta cidade, delegado?
- Olha seu Lê, até “tresantontem”, como diz o Nhô, a coisa tava feia. Foi bem da verdade, sábado à noite que começou a passar estrelas cadentes pelo nosso céu e caíram além mar. Mas, teve uma que caiu em cheio no parque de exposições. Acabou com tudo lá. Ficou só um pequeno buraco no centro do parque. Sorte é que lá onde fica o parque é afastado da população virtualiana.
- Foi a chuva de meteorito Perseida, Carabina! Ela é decorrente do cometa Swift-Tuttle, que orbita o Sol a cada 133 anos. A passagem do cometa próximo à Terra é uma raridade, mas em todo o mês de agosto, a Terra cruza a nuvem de detritos deixada pelo cometa. De acordo com estudos, o espetáculo da chuva de meteoros Perseida é observado pelo homem há, pelo menos, dois mil anos. Ela recebe este nome por causa da constelação de Perseu, de onde o chamado radiante de meteoros parece surgir.
- Isto nos perturbou muito, seu Lê, a população até hoje evita sair às ruas com medo de cair outra estrela.
- Vou lá ao parque ver a situação, delegado eu... fui interrompido.
- Vamos seu Lê – antecipou-se ao convite o delegado que gritou:
- Tição! Cabo Tição! Acorda e vem prá frente da delegacia que vou sair – o cabo veio se ajeitando e:
- Seu Lê, boa tarde! O senhor está bem?
- Boa tarde cabo! Estou ótimo, mas não igual a ti!
- Cabo, vou com seu Lê até o local onde caiu a estrela! Assuma a delegacia e não durma OK?
- Perfeitamente doutor! Vou ficar esperto e operante!

No parque de exposições:
- Engraçado, Carabina, é que o pessoal dos Flores não me falou nada e muito menos o Nhô, que sempre me fala das novidades, tocou no assunto!
- Ninguém dos Flores veio ao centro da cidade desde sábado e, o Nhô, só vem quando precisa comprar fumo para o pitu dele. Além disso, domingo começou a chover muito, principalmente à noite. Trovejou muito, seu Lê!
Andei pelo parque e vi o buraco deixado pelo que caiu do céu. O buraco tinha em torno de setenta e um centímetros, mas, o que fez os estragos foram os detritos que levantaram do chão quando ele entrou solo à dentro. Todo o entorno foi praticamente destruído e o delegado tentou explicar:
- Por isso que o rodeio vai ser no Descampado dos Moleques; o senhor passou lá na frente, não passou?
- Sim, Carabina e vi um pessoal montando tudo. Quem vai gostar do rodeio é o Nhô Antônio. Ele vai adorar a movimentação, as duplas sertanejas, a locução do animador, enfim, é festa para o Nhô!
- E por falar no rodeio, seu Lê, vem comigo até o Descampado dos Moleques. Tenho que verificar se estão montando a arena com a segurança que recomendei.
- Claro, Carabina, vamos lá!
Subimos no Jeep e direcionamos para a entrada ao norte da cidade. Quando nos aproximamos do local:
- Olha, seu Lê, quem está com a carroça parada em frente ao Descampado!
- É o Nhô! Ele veio trazer mudas de bosda para os Flores. Ficamos de nos encontrar no Boteco dos Caldos para reunirmos com nossos amigos. Você está convidado delegado!
- Vou passar por lá depois das dezoito horas, quando termina meu expediente na delegacia, mas não posso demorar, OK?
- Então tá, Carabina, conto contigo!
Chegando perto da carroça vimos que o Nhô estava frente - à - frente com o Bittencourt falando com ele e observamos o monólogo:
- Vamu lá meu véi amigu, u qui deu nocê? Ôce nunca impacô inhantis?
Bittencourt batia com as patas dianteiras no chão. Era um relincho diferente e perguntei ao Nhô:
- O que está acontecendo, Nhô?
- Esti pangaré fidasunha impacô quandu istava passanu infrenti a essi circu qui chegô na cidadi e... – interrompi o Nhô:
- Não é circo Nhô! É uma companhia de rodeio. Vai ter rodeio em Virtuália. Começará na sexta-feira à noite.
- Eh! Eh! Eh! Intão é issu! U pangaré tá achanu qui podi participá, eh! Eh! Eh!
Olhei para o lado, em que o cavalo velho do Nhô insistia em olhar, e vi a Cachoeira sendo banhada por um tratador e pensei:
-“Ah! Ah! Ah! O “véi” Bittencourt tá é de olho na Cachoeira. Para ele é como se um de nós visse uma bela mulher, nua, tomando banho!”
- Nhô, diz prá ele que lá no estacionamento do Boteco tem aveia e água mineral fresquinhas esperando por ele e que depois o senhor o trás  aqui para o rodeio!
- Iscuitô issu pangaré?
- Essa não o Nhô conversa com os animais – admirou-se o Carabina.
- Por incrível que pareça o Bittencourt  relinchou esquisito e começou a andar. O Nhô nos “traduziu” o relincho:
- Ieli mi disse: - Falô, véi!
- Ah! Ah! Ah! Então tá então Nhô!
- Ah! Ah! Ah! – Gargalhamos eu e o Carabina Doze.
- Vamos lá prô Boteco Nhô, vou de carroça contigo!
- Eu vou ficar para falar com o Liberato e encontro vocês no Boteco, OK?
- OK, delegado – respondi.
Subi na carroça e rumamos para o destino etílico.
- Seu Lê, puruque será qui essi rodei num foi lá pru parqui de ixposição?
- Porque o parque foi destruído por uma pedra que caiu do céu, sábado à noite, “Véi”, ou melhor dizendo, um meteorito!
- É memu, Misifiu? Lá na Serra Madre, sabadu di noiti, tamém, dédi tê caídu um pedrão. Feis um baruião qui acordô inté a Ritinha. Inté u Bittencourt relinchô na hora.
- O senhor foi lá ver, Nhô?
- Num fui, amigu, ieu tava sem tempu pra issu i tava chuvenu muntchu na região.
- Então vou lá ver amanhã cedo, Nhô! O senhor me aponta aonde, provavelmente, ela caiu?
- É fáci, meu amigu, lá da varanda da cunzinha dá pra vê u buracão qui ficô purondi iela intrô! Mai aminhã cedu ieu vô lá côce. Ieu num vô tê mai muda de bosda, pois num tá brotanu mais sementi nenhuma. As qui prantei ostru dia num nasceu nada, seu Lê!
- É estranho, “Véi”, mas não se esqueça que essa planta é de outro mundo!
- É divera, seu Lê, ocê tem razão!

Chegando ao Boteco dos Caldos:
- Ingraçadu, num tem ninguém nas ruas. Essa hora divia di tá cuaiadu di genti vinu i indu prá lá i prá cá. Óia só, inté u butecu tá vaziu!
Realmente aquela tarde estava atípica. Virtuália virou uma cidade com medo de alguma tragédia que poderia vir  dos céus.
- Nóis vamu podê prozeá a vontadi cum nossus amigus, seu Lê, eh! Eh! Eh!
- Vou descer aqui, Nhô – falei e pulei da carroça.
- Ieu vô levá u Bittencurt lá pru estacionamentu i desatrelá ieli da carroça. Inquantu ieli discança cumenu aveia i bebenu água minerá fresca, nóis comi tira-gostchu i toma umas cerveja dus deuses, num é Misifiu?
- Com certeza, Nhô! Enquanto o senhor solta o Bittencourt, da carroça, vou fazer nosso pedido ao Biliato, OK?
- Intão tá intão!

Entrando no Boteco:
- Boa tarde rapaziada – cumprimentei a todos, aliás, Biliato, Paulinho, Lezivo e a Cindy, que estava preocupada com a falta de movimento no comércio e  foi a Cindy quem me respondeu sorrindo:
- Boa tarde, seu Lê! Tudo bem com o senhor?
- Sim, tudo bem! Mas esse desânimo de vocês é assustador!
O Lezivo começou a lamúria:
- Desde sábado, quando a estrela caiu no parque,  o movimento caiu. Nem a cerveja Flor da Bosda está tendo saída. Acho que os deuses estão nos castigando por ter, o seu Zé das Flores, copiado uma bebida dos deuses.
- Bobagem, Lezivo! Esses meteoritos já pararam de se chocarem com a Terra, aliás, é nosso planeta que está passando no que restou de um cometa. Agora só em agosto do ano que vem voltaremos a ter uma chuva de estrelas tão intensa, minha gente!
- Seu Lê, o senhor poderia falar isso na rádio Sideral. O povo todo está trancado em casa só ouvindo rádio. A televisão e o restante das telecomunicações não estão funcionando, pois as antenas todas e, também,  a estação de televisão ficavam no parque de exposições e tudo foi destruído. Sorte é que foi tarde da noite e não estava mais no ar. O vigia só se salvou porque ele tinha saído para tomar uma pinga e buscar cigarros na casa dele.
- O vigia não é o Salzano Goodluck, Biliato?
- Ele mesmo, seu Lê! O cara tem uma sorte de gato vira-latas!
A Cindy nos interrompe:
- Seu Lê, as iscas de pintado e dourado já vão estar sendo servidas. Sente-se à mesa trinta e um que fica na esquina da avenida com a Praça Bispo-Cardeal, OK?
- Nosso pedido ficou pronto na hora certa, Cindy. Lá vem o Nhô! Ele  adora peixe frito com cerveja – respondi.
Ficamos até por volta das dezenove e trinta e um minutos e o Nhô me alertou:
- Seu Lê, vamos lá atrelá u Bittencurt i vortá prô sítio. A Xerê i a Ritinha dédi tá isperanu u cardu que nóis prometemu!
- É mesmo Nhô, tens razão – respondi.
A Cindy, que estava com a gente na mesa, se prontificou:
- Tem caldo de piranha, vaca atolada, canjiquinha... – foi interrompida pelo Nhô:
- Cardu di piranha, dona Cindy! A Xerê falô si tivessi iela perferia. Iela i a Ritinha adoram pêxe!
- Em dois minutos trago num caldeirãozinho, OK, Nhô?
- Despois ieu devorvu a vaziía cum um presenti dentru, Misifia – respondeu o Nhô.
- Intonsi, banoite pessoá! Ieu i u seu Lê já vamu si pirulitá.
A resposta foi uníssima:
- Boa noite amigos!
No estacionamento de carroças, após dez minutos de procura:
- Num adianta, seu Lê, u pangaré não está aqui. Dédi tê retornadu sozinhu pru sítiu quandu começô a iscurecê. Essi cavalu véi tá ficanu gagá! É a tercêra veis qui ieli fais issu cumigu!
- Então vamos andando até a casa dos Flores e pegar a Vermelhona. Em meia hora estaremos no sítio, Nhô!
- Tá bão intonse, vamu lá!
Saímos apressados e o Nhô me confidenciou:
- Da úrtima veis u delegadu mi levô di Jeep i di uma ostra veis foi u Julianu na Variant. Toda veis qui cheguei u Bitencurt mi esperava na porta da cunzinha i ficava um tempão relinchanu brabu cumigu.
- Ah! Essa eu quero ver assim que chegarmos ao sítio, ah! Ah! Ah!
Pegamos a Vermelhona na casa dos Flores e em trinta e um minutos estávamos no sítio, pois fomos devagar na esperança de encontrar   o pangaré na estrada,  e o Nhô perguntou à Xerê que nos aguardava:
- Minha nêga, u meu pangaré já tevi aqui na porta da cunzinha relinchanu?
- Não meu preto! Ele ainda não apareceu aqui. Ele deixou ôce a pé  de novo?
- Dexô, aqueie fidasunha! Mai agora tô procupadu cum ieli!
- Ele sabe se cuidar, Antônio! Ele não é mais nenhum potrinho, ah! Ah! Ah! – brincou a Xerequéia enquanto preparava um pratinho com caldo  para a esfomeada Ritinha.
- A Xerê tá certa, Nhô, amanhã ele amanhece aqui nos pastos do sítio – falei tentando despreocupá-lo.
Na manhã seguinte seis horas e trinta e um minutos:
- Agora que já tomamos esse delicioso café, vamos lá onde caiu a estrela Nhô?
- Vamu sim, seu Lê i é prá já! Vamu aproveitá i vê si meu cavalo véi tá sortu nus pastu du sítio.

Na subida de serra Madre falei:
- Olha Nhô apontei o indicar direito para a estrada do sítio -, aquele cavaleiro vindo para seu sítio, não é o Liberato montado na Cachoeira?
- Ieu num conheçu ieli, seu Lê, mas a égua é muntchu linda. Aquele pangaré qui ieleis vem puxanu ieu conheço é u...
- Bitencourt – falamos praticamente ao mesmo tempo.
Quando Liberato aproximou-se:
- Sr. Antônio, presumo? “Me” falaram que esse pangaré lhe pertence – falou soltando a corda que prendia o pangaré pelo pescoço.
- Podi mi chamá di Nhô, seu moçu; é mai fáci! Essi pangaré é comu si fossi meu ermão – falou ao Liberato e depois dirigiu a palavra ao cavalo: - Ondi ôce andava seu cavalu malucu? Qui cara di felicidadi é essa, sô?
Bitencourt deu um fraco relincho e lambeu a mão do Nhô.
- Seu Antônio, esse pangaré passou a noite cruzando, em silêncio, com minha égua Cachoeira. Nunca vi uma coisa dessas! Nenhum garanhão puro-sangue conseguiu essa proeza. Ainda bem que a Cachoeira não pega cria senão...
- O Bitencourt é um cavalu véi, ma tem uma saudi di tôro. I pelu zoiá deie... ieli tá apaixonadu!
- Não quero mais que ele chegue perto de minha égua. Estamos entendidos – falou Liberato em tom áspero e com certa estupidez que me fez intervir:
- Calma, meu senhor! Quanto quer por essa égua? Compro com arreio e tudo!
- Agora, na mão, quero cem mil dinheiros – respondeu o chefe da caravana do rodeio em tom de deboche certo que tinha falado com alguém que nunca teve nem sonho de tal quantia.
- Vamos até ao sítio e lá acertaremos!
De volta ao sítio, no meu cafofo:
- Tome meu senhor, cem mil dinheiros contados e, separados em pacotes de dez mil!
- Mas... mas... eu não quero vender era... – gaguejou o Liberato.
- Nada de “mas”! Perguntei o preço, você falou e eu cobri sem pedir descontos!
- Tá certo! Negócio fechado! Tenho outras éguas na minha comitiva!
Tiramos o arreio da égua e a soltamos no pasto com o Bittencourt.
- Pronto Nhô, casamos o seu pangaré – falei ao meu feliz amigo.
- Eh! Eh! Eh! U meu pangaré agora num puxa mai carroça. Vô dá a carroça di presenti prô Cilon Massa Bruta qui vortô prá Virtuáia i tá disimpregadu.
- Gostei da generosidade, Nhô! Vou comprar um cavalo para ele colocar na carroça. Não quero que ele volte à criminalidade. 
- Eu tenho um pangaré para vender, se quiser, são mil dinheiros disse o negociante nato Liberato.
- OK! Mais tarde vamos até lá buscá-lo, atrelá-lo na carroça e entregar ao Massa Bruta.
- Um minuto, senhor Lê! Como vou voltar para a cidade? A pé é muito longe – preocupado perguntou o empresário de rodeios.
- Daqui a quinze minutos passa o ônibus que vem de Analogicópolis para Virtuália. Tem um ponto em frente ao sítio. É só aguardar.
- Então está bem, vou para lá. Espero os senhores lá no Descampado do Moleques com o cavalo para sua  carroça, OK?
- OK, mais tarde iremos lá!
- Vamos voltar para aquela “missão”, Nhô?
- Eh! Eh! Eh! Vamu sim, Misifiu! Falanu ansim: missão, mi alembrei du tempu da guerra! Chega a mim dá um arrupiu pela ispinhela!
Subindo a serra Madre, paramos um pouco para pegar fôlego e vimos as verdes pastagens no entrono do sítio e o pangaré e a Cachoeira correndo soltos:
- Óia seu Lê, num pareci u paraísu dus cavalus, eh! Eh! Eh!
Continua em 14/09/2013:
O
Segrêdo
De 
Serra Madre







sábado, 31 de agosto de 2013

ARRET
A NOVA MORADA

Flor
da
Bosda



            Três horas e trinta e um minutos de uma madrugada chuvosa e fria:
         - Quer saber de uma coisa – perguntei a mim mesmo -, vou voltar para junto da Rô e é agora!
         Entrei na GMC e acelerei pela estrada lamacenta que liga o sítio à rodovia.
         Na Zona da Mata Mineira:
         - Doutor José Walter, o meu Lê está acordando! Corra, por favor, ele está se debatendo muito - gritava a patroinha.
         - Calma Dona Rô, ele vai se acalmar – falou o médico aplicando-me uma injeção através da mangueirinha do soro.
         - Olha, doutor, ele está sangrando pela narina esquerda – gritava, quase ao desespero, a Rô.
         - Enfermeiras ajudem-me a transportá-lo para a UTI! Rápido!
         Por uma fração de segundos pude perceber onde eu estava e tudo ficou escuro.

         Na estrada do sítio um enorme eucalipto Umbra cai em frente à Vermelhona, perdi o controle da direção ao freiá-la, e vou, de frente, ao encontro de uma enorme jaqueira carregada de jacas; muitas maduras. Abri a porta da caminhonete para ver o estrago e uma jaca semi-madura cai-me no rosto me pondo a nocaute por alguns segundos. Levantei-me e vi que não tinha acontecido quase nada com a robusta GMC. Entrei na boleia e acelerei rumo ao meu mundo verdadeiro, limpando, com meu lenço, o meu nariz que sangrava.

         No hospital Mineiro:
         - Onde estou – perguntei à enfermeira jovem e bonita.
         - Fique tranquilo, seu Lê, o senhor está na UTI do melhor HPS particular da Zona da Mata Mineira.
         - A Rô?  Onde está a Rô?
         - Ela foi a sua casa tomar banho, dar uma descansada e voltará quando anoitecer – respondeu-me a enfermeira sósia da Ingrid Bergman, quando esta tinha vinte e poucos anos.
         - Quanto tempo fiquei desacordado?
         - Por vinte e quatro horas, desde o seu último desmaio. O senhor foi operado na narina esquerda, mas já está tudo bem – falou a “formosura em pessoa” enquanto me injetava medicamentos intra-venal e me informou:
         - O senhor ficará sedado por setenta e duas horas.
         - O que foi isto que você aplicou em... eu...

         Na estrada de volta para o sítio:
         - Caramba, parece que foi ontem que bati com a Vermelhona em uma jaqueira. Ainda trago o cheiro de jaca madura nas narinas. Ah! Como o dia está lindo! Quanto tempo faz que saí do Vale do Virtualiano do Rio do Peixe?
         Seguia cantarolando a música sertaneja que tocava na estação FM Sideral de Virtuália, no som da GMC. Quando entrei na estrada,  que liga a rodovia ao sitio,  vi, a cinquenta metros, uma árvore que me chamou a atenção. Parei a caminhonete e fui, a pé, ver mais de perto:
         - Caramba! É uma árvore de bosda! Como veio nascer por aqui? Será que... não, não é possível! Fomos revistados e o detector da nave-mãe não constatou nada, nem na entrada e nem na saída de seu interior. Será que veio em algum meteorito? Engraçado ela parece que está morrendo.
         Subi na GMC e, cerca de cem metros depois, vi outra bosdaneira:
         - Não é possível! Como essas árvores vieram  nascer por aqui?
         Há cem metros do sítio vi a terceira árvore de bosda, também em estado terminal, e pensei:
         - Com certeza existe uma explicação e o Nhô a terá, com certeza!

         No sítio:
         -Nhô, cadê você?
         - Ei! Seu Lê, ieu to aqui na minha istufa di muda di pranta! Vem cá, sô!
         - Bom dia “Véi”! Como vai essa força? E a família?
         - Tá tudu bão, seu Lê, cum ieu i as mininas.
         - I ocê, Misifiu, tudu bem? I a patroinha, dona Rô?
         - Ela está ótima, Nhô! Eu é que não estou muito bem. Ainda sinto muita dor e pressão na cabeça.
         - U nêgu véi aqui vai fazê uma garrafada i ôce vai miorá im dois palitu – interrompi o Nhô perguntando:
         - Que mudas são essas “Véi”? Caramba, são muitas, hein?
         - É di sementi di umas árvi qui nasceru na istrada qui vem prô meu cafofo. U Zé das Flô pidiu prá ieu fazê muintas muda qui ieli vai pranta prá despois coiê as fruta.
         - Já sei! Vai usar as polpas das frutas no preparo de cervejas, não é?
         - Mai num é uma cerveja quarqué, Misifiu. É uma bibida dus deuseis, eh! Eh! Eh!
         - Essas mudas já é a segunda veizada qui façu. Ielas são fia das três árvis qui ôce viu na istrada i qui já tão morrenu di véici. Só deu prá fazê treis coieta di fruta deias, seu Lê. Nunca ieu tinha ovidu falá déias. Quandu ieu puis reparu na margi da istrada ielas já tavam cheia di fruta.
         - Lá em Terra-II chamam-na de bosda. Não sei como vieram parar aqui. Vou lá para Virtuália conversar com o Juliano para ter uma pista. O senhor vem junto?
         - Num possu não, Misifiu, tenhu qui terminá essi prantiu di sementi hoji. Si ieu prantá agora, di noitinha as mudas vão tê seis centimitru – respondeu-me o meu amigo.
         - Está bom, Nhô. Vou só. De tardinha vou lá pro Boteco dos Caldos rever os nossos amigos. Se o senhor quiser me encontra lá, OK?
         - Tá bão, seu Lê! Despois das treis horas vô tê qui levá uma carroça di muda di seti dia prô seu Zé lá nu prantiu deie  pertu du cimintériu. Despois ieu vô tê incontrá lá nu Goró!
         - Nhô, e se a gente levasse as mudas agora?   Podemos encher a Vermelhona e... – fui interrompido:
         - Num pódi, seu Lê! Daqui a poco u Sór vai tá frevenu di quenti. Essas mudas são muntchu frági. Ielas tem qui sê prantada nu iníciu da noiti. Agora iela tem uns catorzi centimetru i amanhã cedu vão tá com uns vinti i cincu centímetru.  Só despois, quandu iela istivé dessi tamanhu, é qui fica resistenti au nosso Sór.
         - Caramba, como o senhor sabe de tudo isso, “Véi”?
         - Ieu “apanhei” munchu cás premêra muda, seu Lê, eh! Eh! Eh!
         - Esse é o Nhô que eu conheço! Encontrar-nos-emos no Boteco, OK?
         - Tá bão seu Lê! Ah! Seu Lê, lá no Goró já tem das cerveja dus deusis. U Julianu batizo ielas di “Flô da Bosda”, eh! Eh! Eh!  Só é vendida lá.
         - Ah! Ah! Ah! Esse nome só pode ser ideia de um carnavalesco! Grande Juliano, ah! Ah! Ah!
         - Nhô, fala para a Xerê que vamos trazer caldo lá do Buteco para jantarmos, OK?
         - Tá bão Misifiu, boa indéia!
        
         Chegando ao CSV. Na parte dos fundos, na casa do zelador, nem precisei buzinar, pois Beijo estava entrando pela parte lateral e tinha me visto e abriu o enorme portão:
         - Bom dia, seu Lê, que bons ventos o traz até nossa singela residência?
         - Bom dia Hibisco, cadê todo mundo?
         - O restante da família tá lá na fabriqueta artesanal de cervejas. Na parte da manhã,  todos ficam empenhados lá, já que o expediente na PSV começa depois do meio dia.
         - Onde fica a fabriqueta? É longe daqui?
         - É aqui mesmo, seu Lê! No galpão onde o Juju faz suas fantasias em época de carnaval.
         - Vou lá então! Preciso falar com ele e com o seu pai, Beijo.
         - Tá bom! Posso estacionar a GMC à sombra daquele flamboyant – pediu o Hibisco cujo apelido é Beijo.
         - Pode! É toda sua!
         - Seu Lê, eu acho essa caminhonete a mais linda do universo!
         - Obrigado, meu amigo! Eu também penso assim.
         Ao chegar à porta do galpão resolvi parar e, antes de entrar, dar uma olhadinha pela janela de vidro:
         - Olha só, montaram uma produção organizada da bebida. Cada um faz sua parte. Trouxeram a experiência da fabriqueta de conservas de minipepinos de Terra-II para fabricarem cerveja artesanalmente!
         Resolvi entrar:
         - Bom dia boa família, que bom vê-los trabalhando unidos e organizados!
         A resposta foi de todos em uma orquestra de vozes:
         - Bom dia, seu Lê!
         Juliano tomou a frente nos cumprimentos:
         - Olá meu grande amigo! Está vendo no que transformei o galpão das fantasias?
         - Estou sim e é sobre essa cerveja que vocês fabricam que eu gostaria de trocar umas ideias – respondi-lhe.
          Juliano falou ao Beijo, que já estava ao meu lado:
         - Beijinho, tome o meu lugar na colagem dos rótulos que vou dar atenção ao seu Lê, OK?
         - OK, Juju, deixa comigo!
         - Vamos até lá em casa, seu Lê! Já são quase onze horas e vamos tomar uma “Flor da Bosda” bem gelada com picles de pepino, couve-flor e mini-cebolas; que tal?
         - Ótimo Juliano! Onde está o seu Zé das Flores e a Margarida? Não os vi entre vocês?
         - Seu Zé está no pomar cuidando das árvores de bosda e a Margarida ficou em casa cuidando do almoço. Hoje é o dia em que ela se responsabiliza pela rotina da casa. Cada dia da semana é uma das meninas. Nos finais de semana eu e o Beijo cuidamos do quintal, horta e jardim.
         - É muito bom termos atividades, não é Juliano?
         - É sim seu Lê! Das segundas às  sextas o Beijo e o seu Zé cuidam do CSV das doze às dezoito horas; eu, à tarde, dou as minhas aulas e as meninas também têm seus afazeres depois do meio dia, lá na prefeitura.
         Chegando à varanda da cozinha da casa?
         - Maga! Ei Maga! Venha ver quem veio almoçar com a gente – gritava o meu amigo. Margarida veio à varanda e me viu.
         - Seu Lê, que prazer em tê-lo antre nós novamente. Parece que adivinhei que o senhor viria, pois estou preparando costelinhas de java-porco, couve, salada de legumes com... – interrompi a Maga:
         - Já sei: ...com rabanetes e pepinos!
         - Ah! Ah! Ah! Acertou! Para beber fiz suco de bosda com abacaxi.
         - Ahhh! Eu estou na varanda da cozinha do paraíso – deixei escapar essa frase.
         Sentamos nas poltronas de palha ao redor de uma mesa na qual o Juju já arrumara, enquanto conversava com Maga, as cervejas e os tira-gostos.
         - Prove seu Lê – disse-me enchendo um copo – estas foram feitas na semana passada.
         Sorvi um gole e o segurei na boca por alguns segundos e engoli:
         - Ahhhh! Come isto é possível? Ficou ainda mais saborosa do que a de Terra-II!
         É por causa da água, meu amigo! Usamos da água mineral da mina do sítio do Nhô. Todos os dias eu busco quatro tambores de duzentos litros cada. Trago no caminhão Fargo 1954 que compramos com a venda das cervejas; a maioria delas para o Boteco dos Caldos. O Nhô nos dá a água de graça e quando ele ou a Xerê quer, nos lhe damos, também sem ônus, algumas cervejas.
         - Entendi! Vocês estão fazendo cerveja artesanal usando polpa de bosda em lugar do lúpulo, não é Juliano?
         - Sim seu Lê! Nasceram três pés, dessa fruta, às margens da estrada que vem para o sítio. Não sabemos como explicar o surgimento das mesmas, talvez tenham vindo em meteoritos.
         - Eu vi as árvores, Juliano, e reparei que elas estão morrendo e rapidamente. As sementes que as originaram vieram em um meteorito sim, mas chamado Beijo!
         - Como assim, seu Lê? Não estou entendendo!
         - Eu explico: - Lembra que não podíamos trazer nada de Terra-II para a Terra? Até passamos por detectores e descontaminadores para entrar e sair da nave-mãe?
         - Lembro-me muito bem, claro! E não trouxemos absolutamente nada de lá, pode ter certeza!
         - Lembra Juliano, que na hora do embarque da viagem para Terra, aliás, até antes de embarcarmos, o Beijo comia a última das três bosda que você deu a ele para desprender os intestinos?
         - Sim, mas o que tem isso a ver com as... peraí...peraí...peraê, acho que estou compreendendo! Foi o Beijinho quem trouxe  as sementes guardadas em seus intestinos, eu... - interrompi o Juju:
         - É isso mesmo! Ele comeu três grandes e maduras bosda e isto fez com que as sementes passassem pelo metabolismo, desarranjado, intactas e, também, foram detectadas pelos sensores dos detectores da nave-mãe e inutilizadas, mas algumas devem ter passado ilesas.
         - É isso aí, seu Lê, e quando chegamos o Beijo defecou em três “moitas” distintas e distantes uma das outras e... – interrompi novamente:
         - E foram exatamente, onde o Beijo fez as suas necessidades fisiológicas urgentes, que nasceram as árvores de bosda.
         - Ah! Ah! Ah! Por esta nem o Kobauski esperava – ri acreditando nisto e falei:
         - Acho bom a gente aproveitar as últimas produções da “Flor de Bosda”, pois algum fenômeno está acontecendo com essa planta alienígena.
         - É mesmo, seu Lê, pois toda a segunda geração, terráquea da bosda, só dará uma frutificação e, assim mesmo, com frutos de péssima qualidade. Inclusive o Nhô nos alertou que as sementes que mandamos na semana passada não estão germinando nem um por cento. O que pode ser isso, seu Lê?
         - Sinceramente, não sei! Talvez nossa Terra não seja ambiente para ela; talvez algum tipo de fungo terrestre esteja destruindo esta extraterrestre; talvez as perturbações do nosso sol – que acontecem de onze em onze anos -, as tenham afetado, mas só os arretianos poderão falar, com certeza, a respeito. Quando eu estiver com eles perguntarei.
         - É uma lástima, pois se produz uma inigualável cerveja com a bosda – disse o Juju e prosseguiu:
         - Produzíamos quatrocentos e oitenta e quatro litros por mês a dois meses e hoje conseguimos com muito esforço somente quarenta e oito litros, por quinzena.
         - Então vamos armazenar o que se produzir e usá-lo em consumo próprio, ou seja, só aqui na sua casa e no sítio do Nhô. O bom da “Flor da Bosda” é que ela dura mais, quando engarrafas, do que as cervejas comuns, ou melhor, dizendo, por tempo indeterminado. E, quanto mais armazenada em lugar apropriado, mais saborosa ela fica.
         A conversa estava tão boa que nem vimos o restante da família chegar para o almoço e foi a Margarida quem nos chamou:
         - Seu Lê e Juju, o almoço já está servido. Venham!
         Almoçamos rapidamente, pois todos da família teriam que estar em seus postos de trabalho no máximo às doze horas e dez minutos.
         - Seu Lê, se o senhor quiser pode ficar descansando na rede da varanda. Não vamos poder lhe fazer companhia, pois temos nossos compromissos e...
         - Eu sei Juliano podem seguir as rotinas de vida de vocês. Vou até a cidade rever os nossos amigos.  Estarei no Boteco dos Caldos depois das dezessete horas e...
         - Vou até lá, seu Lê, porém depois das dezessete e trinta e um minutos quando terminar minha última aula, OK?
         - OK, meu amigo! Até mais tarde então.
         Todos tomaram seus rumos e eu segui a pé até Virtuália. Não era longe e a estrada era simplesmente maravilhosa, ou seja, arborizada e florida do jeito que eu e as centenas de pássaros gostamos. Pensei comigo:
         “– Quanto mais eu viajo para Hy-Brazil mais virtual ela me parece ser!”
Continua em 06/09/2013:
O
Pangaré
 Bittencourt

            

sábado, 24 de agosto de 2013

VIDA EM VIRTUÁLIA

ARRET
A NOVA MORADA
O
Retorno 
Ao 
Vale Virtualiano
Do
 Rio do Peixe

            Em alguns segundos a nave-mãe começa a desacelerar e o major informa:
         - Chegamos ao portal, Comandante!
         - Mantenha a nave funcionando, major! Só abaixe o tubo de descida. Vou descer e ajudar nossos amigos na passarem para o outro lado do portal; é questão de minutos, OK?
         - OK, Comandante!
     Depois das despedidas, o Comandante nos deixou entre as pitangueiras, no Vale Virtualiano do Rio do Peixe.
         - Ah! Como é bom pisar nesta Terra! Que saudade deste vale, deste rio, deste céu, matas... – Juju foi interrompido pelo Beijo que deu uma gemida dolorida:
         - Juju, por falar em matas, não aguento mais de tanta de dor de barriga. Vocês me desculpem, mas vou ter que procurar uma “moita”!
         - Eu vou contigo, “amoré” – disse Juju solidário ao parceiro e eu lhes  falhei:
         - Nós lhes esperaremos no sítio do Nhô, OK? Enquanto esperamos, por vocês, vou colocar a Variant e a GMC para funcionar.
         - Obrigado seu Lê! Daqui a, mais ou menos, meia hora estaremos lá – disse o Beijo.
         Numa capoeira afastada da estradinha que leva do portal ao sítio do Nhô:
         - Você estava cansado de saber que mais de uma bosda desarranja os intestinos, Beijinho! É a terceira vez, com esta, que saímos da estradinha para procurarmos uma “moita”.
         - Calma, Juju, esta será a última “moita” – respondeu o pálido e suado parceiro.
         Na varanda do sítio do Nhô:
         - Ieis já tão vinu, Misifiu! U Beju vem quaji si arrastanu! A hora qui ieli chegá aqui vô dá um chá di erva amarga pra ieli i vai ficá bão im dois palitu, eh! Eh! Eh!
Alguns minutos depois:
         - Olha nós aqui, pessoal – dizia Juliano enquanto abraçava o Nhô, depois a Xerê e por fim a Ritinha que estava sentada no seu carrinho de bebê:
         - Noooooosssssaaaaa, que garotinha linda! Nhô e Xerê... não vão me dizer que vocês tiveram uma... – o carnavalesco e delegado de Oriximbanda foi interrompido pelo Nhô:
         - Nóis vai dizê qui iela é a Ritinha, nossa bisnetinha!
         Diante da resposta do Nhô o Juliano ficou sem graça por alguns segundos e pegou a Ritinha no colo e disse:
         - Mas ela é muito linda, e tem uns olhos da cor que eu nunca vi! Olhe só Beijinho!
         - São da cor de mel, só que um pouco mais claro. São lindíssimos mesmo!
         - Ainda bem que vocês chegaram, pois já está escurecendo e armando um baita temporal – disse aos dois e, prossegui:
         - Juju, vou com vocês até Virtuália para ajudar a levar a família Flores e depois vou retornar e pernoitar no meu cafofo, aqui no sítio; vamos sair antes que comece a chuva, OK?
         - OK, seu Lê, outro dia venho conhecer o seu cantinho – convidou-se o Juliano.
         - OK, vamos! Apressem-se - respondi.
        - Ieu vô ficá ti aguardanu, seu Lê, puis tenhu um assunto prá arresolvê c'ocê!
         - OK!”Véi” pode me aguardar!
         Chegando ao Cemitério Sideral de Virtuália – o CSV -, já com a chuva caindo à cântaros:
         - Nosssa, seu Lê, com todas as luzes apagadas e com esses relâmpagos, nossa casa, nos fundos do cemitério, parece um cenário de filme de terror – falou a Papoula uma dos Flores.
         - Foi bom que tenha ficado assim às escuras, Papoula, pois afastou os curiosos - completou a Margarida.
         - Tem razão, meninas, mas tão logo acendamos as luzes o cenário mudará – falei-lhes.
          Dito e feito. Após ligarmos as dezenas de lâmpadas do casarão, o cenário era outro e, até, bonito.
         - Seu Lê, até parece que nem nos ausentamos por tanto tempo – disse alegre o Juliano.
         - É que o Jairo Edson sabia da volta de vocês, eu mantive contato com ele e, além disso, nossos amigos fizeram um mutirão em toda a área – expliquei-lhes.
         - Ótimo! Que ótimo – falou Begônia alegre por não ter que fazer uma faxina monumental.
         - O senhor não quer dormir aqui, seu Lê? Amanhã o senhor volta para o sítio – convidou seu Zé das Flores.
         - Obrigado, amigo! Mas, o Nhô e a Xerê me esperam. Tenho que ir. Voltarei breve e, boa noite!
         De volta ao sítio. Vinte horas e trinta e um minutos, na cozinha da sede do sítio:
         - U qui oce tá achanu dessi fejão-amigu, seu Lê? Num é bão despois de uma talagada da purinha?
         - Estava com saudades “Véi” e, com esse friozinho... é tudo de bom!
         - Comu tá us ostrus mundu, Misifiu? Ieu tô doidiu prá dá uma fugida puressi ispaçu a fora, eh! Eh! Eh!
         - A coisa não tá nada boa, Nhô! Tem muitas perturbações acontecendo num dos lados do universo. É bom o senhor ficar quietinho aqui neste verdadeiro paraíso terrestre!
         - Si ôce tá falanu: - Intão tá intão!
         - Nhô é bom encontrar sua família em tão ótimo estado.
         - Nóis tá muntchu bem, Misifiu. Qué vê uma coisa – disse o Nhô e gritou:
         - Xerê, minha nêga, manda a Ritinha vim aqui na cunzinha!
         Olhei para a porta da sala e vi a linda garotinha de roupinha de dormir vindo andando e sorrindo.
         - Não acredito! Caramba, ela já está andando?
         - I falanu argumas palavra, num é Ritinha? – perguntou à Ritinha o meu amigo.
         - Vovô Nhô, ‘itinha qué fezão... fezão!
         - Puxa vida, como o tempo passou rápido, Nhô!
         - U tempo di Virtuáia, da sua vida irreá i seus buracu di minhoca é confusu, num é Misifiu, eh! Eh! Eh!
         - Tem razão, Nhô – respondi bocejando e disse-lhe:
         - Vou me retirar para meu cafofo, Nhô! Boa noite! Boa noite Xerê!
         - Boa noite, seu Lê – respondeu-me lá do quarto a mulher do Nhô.
         Dei um beijo e um abraço na menininha mais linda de todos os mundos e falei ao preto velho:
         - Vou embora antes do amanhecer, Nhô! Breve voltarei OK?
         - Tá bão, seu Lê! Banoiti e inté brevi.

Continua dia 31/08/2013:
Flor
da
Bosda